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Missionários usam gadgets ilegais para evangelizar indígenas da Amazônia

O aparelho, chamado "Messenger", reproduz mensagens bíblicas e palestras de um pastor americano e é movido a energia solar.

Avatar do(a) autor(a): André Luiz Dias Gonçalves

schedule30/07/2025, às 16:00

updateAtualizado em 30/07/2025, às 16:48

Missionários cristãos estão utilizando dispositivos de áudio movidos a energia solar na tentativa de evangelizar povos indígenas isolados na Amazônia, próximo à fronteira entre o Brasil e o Peru. É o que revela uma investigação divulgada no último domingo (27) pelo britânico The Guardian e O Globo.

Contendo mensagens bíblicas em português e espanhol, os aparelhos foram encontrados em territórios protegidos por medidas governamentais rigorosas no Vale do Javari, entre membros do povo Korubo. A região já havia sido alvo de grupos de missionários brasileiros e americanos antes da pandemia.

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Povos indígenas isolados voltaram a se tornar alvo de missionários na Amazônia. (Imagem: Getty Images)

O que é e como funciona o dispositivo usado pelos missionários?

Conforme a reportagem, os aparelhos de áudio levados até a terra indígena têm as cores amarela e cinza e o tamanho de um celular. Contando com lanterna e painel solar embutidos, esses dispositivos podem funcionar mesmo em áreas sem eletricidade, reproduzindo as mensagens também sem depender da internet.

  • O gadget encontrado com os Korubo se chama “Messenger” e é de propriedade da In Touch Ministries, organização batista sediada em Atlanta (Estados Unidos);
  • No aparelho, são reproduzidas passagens da Bíblia e palestras de um pastor americano;
  • “Vejamos o que Paulo diz ao considerar sua própria vida em Filipenses, capítulo 3, versículo 4: 'Se alguém pensa que tem motivos para confiar na carne, eu tenho mais’”, diz o trecho de uma das mensagens;
  • A população local relatou a existência de pelo menos sete unidades do dispositivo de áudio no território, mas a investigação encontrou apenas uma, que está com a matriarca do povo Korubo, Mayá.

De acordo com o porta-voz da In Touch Ministries, Seth Grey, o Messenger possui alta durabilidade e cada unidade pode ser usada por um grupo de escuta de até 20 pessoas. Ele afirma ter entregado 48 aparelhos ao povo Wai Wai, que também vive na Amazônia, há quatro anos.

O diretor da organização americana disse, ainda, que a In Touch não vai a lugares onde a legislação não permite, confirmando que o dispositivo não deveria estar no Vale do Javari. No entanto, Grey contou ao jornal britânico que missionários de outras organizações têm levado o Messenger para territórios protegidos, burlando a lei.

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O aparelho Messenger encontrado com o povo Korubo usa energia solar e é do tamanho de um celular. (Imagem: In Touch Ministries/Divulgação)

Drones misteriosos sobrevoam a região

Além dos dispositivos de áudio dos missionários, drones têm sido observados na região com frequência, de acordo com o relatório. As aeronaves não tripuladas aparecem principalmente no final da tarde e os policiais que atuam no posto de proteção na entrada do território já tentaram abatê-los, mas não conseguiram.

Um dos policiais que trabalham na base disse que os drones aparentam ser “muito sofisticados”. No entanto, não se sabe qual a origem deles, havendo suspeitas de que eles pertençam aos missionários, garimpeiros, pescadores ou traficantes.

O Ministério Público Federal tem acompanhado o caso para garantir os direitos dos povos isolados. A entidade vê com preocupação a presença dos missionários na área, principalmente diante da mudança de métodos para tentar a conversão dos indígenas.

Vale lembrar que o proselitismo é proibido no território Korubo desde 1987 por determinação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI). O acesso controlado também ajuda a proteger os grupos que vivem na região de doenças às quais eles possuem pouca ou nenhuma imunidade.

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Perguntas Frequentes

O que é o dispositivo "Messenger" usado pelos missionários na Amazônia?
O "Messenger" é um aparelho de áudio movido a energia solar, do tamanho de um celular, com lanterna e painel solar embutidos. Ele reproduz mensagens bíblicas e palestras de um pastor americano, sem necessidade de internet ou eletricidade. O dispositivo é fabricado pela organização batista In Touch Ministries, sediada em Atlanta, EUA.
Por que o uso do Messenger em territórios indígenas é considerado ilegal?
O uso do Messenger em áreas como o Vale do Javari é ilegal porque essas regiões são protegidas por leis brasileiras que proíbem o proselitismo religioso, especialmente entre povos isolados como os Korubo. Desde 1987, a FUNAI determina que o contato com esses grupos deve ser restrito para preservar sua cultura e saúde, já que eles têm pouca imunidade a doenças externas.
Quem está por trás da distribuição dos dispositivos Messenger?
A In Touch Ministries é a organização responsável pela criação e distribuição do Messenger. Segundo seu porta-voz, Seth Grey, a entidade não envia missionários a locais onde a legislação proíbe o acesso. No entanto, ele reconheceu que outras organizações têm levado os dispositivos a territórios protegidos, burlando a lei.
Quantos dispositivos foram encontrados entre os indígenas Korubo?
Moradores locais relataram a presença de pelo menos sete dispositivos Messenger entre os Korubo. No entanto, a investigação encontrou apenas um exemplar, que está sob a posse da matriarca Mayá.
Como os dispositivos funcionam em áreas remotas sem infraestrutura?
Graças ao painel solar embutido, o Messenger pode ser recarregado com luz solar, permitindo seu uso contínuo mesmo em locais sem acesso à eletricidade. Além disso, ele não depende de conexão com a internet para funcionar, o que o torna ideal para regiões isoladas.
Qual é a capacidade de alcance do Messenger entre os indígenas?
De acordo com a In Touch Ministries, cada dispositivo Messenger pode ser utilizado por grupos de escuta de até 20 pessoas, o que amplia seu alcance em comunidades indígenas.
O que se sabe sobre os drones observados na região?
Drones têm sido vistos frequentemente sobrevoando o Vale do Javari, especialmente no final da tarde. Policiais da base de proteção tentaram abatê-los, sem sucesso. A origem dos drones é desconhecida, mas há suspeitas de que possam pertencer a missionários, garimpeiros, pescadores ou traficantes.
Qual é a posição do Ministério Público Federal sobre o caso?
O Ministério Público Federal acompanha a situação com preocupação, especialmente devido à mudança de métodos usados por missionários para tentar converter povos isolados. A entidade atua para garantir os direitos desses grupos e proteger sua integridade cultural e física.
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