Plutão pode voltar a ser um planeta? Entenda o debate científico

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Imagem: NASA, Johns Hopkins Univ./APL, Southwest Research Inst.
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*Este texto foi escrito por uma colunista do TecMundo; saiba mais no final. 

Mais de 15 anos depois da definição oficial da UAI (União Astronômica Internacional) categorizando o que são planetas, muitas pessoas ainda sentem ressentimento do fato de Plutão não ser mais considerado planeta. Por isso, quando uma nova proposta foi sugerida sobre a classificação de planetas, muita gente se animou com a possibilidade de uma reparação histórica.

Primeiro, vamos lembrar quais objetos se enquadram na classificação atual, definida em 2006. Para ser planeta um objeto deve:

  1. Orbitar uma estrela
  2. Alcançar equilíbrio hidrostático, ou seja, ser redondo
  3. Ser o objeto dominante gravitacionalmente de sua órbita.

No caso de Plutão, o critério não alcançado é o número 3, pela presença de Caronte. Caronte até então era considerada satélite natural de Plutão. Entretanto, a relação das massas indica que, ao invés de Caronte orbitar Plutão, os dois objetos orbitam um centro de massa em comum. Isso indica que Plutão não poderia ser considerado o objeto dominante da órbita, mas sim que ele dividia o posto com Caronte. Esse fato mudou a classificação do sistema para planeta anão-duplo. E muita gente não gostou disso.

Sistema de planeta-anão duplo Plutão e CaronteSistema de planeta-anão duplo Plutão e CaronteFonte:  APOD 

Agora, a definição da UAI de 2006 não é ao acaso. Com o avanço tecnológico se tornava cada vez mais possível detectar objetos menores dentro do Sistema Solar, e o número desses objetos crescia constantemente. Esse fato pedia uma classificação oficial de planeta e outras categorias de objetos.

A definição final não veio de forma fácil e envolveu muitas propostas, debates, críticas e argumentações. Mas enfim, no dia 24 de agosto de 2006 chegou-se a uma proposta oficial e, como consequência imediata, Plutão não seria mais classificado como planeta. Para amenizar o ressentimento, também foi criada uma nova categoria de planetas-anão: plutoides, onde Plutão é protótipo. Esses objetos estão além de Netuno e possuem massa o suficiente para alcançar uma forma quase-esférica. Entretanto, como Plutão, não limparam sua órbita. A criação da categoria reafirma a importância de Plutão para astronomia. Alguns objetos classificados como planetas-anão plutoides são Éris, Makemake e Haumea e existe a expectativa de que a lista siga crescendo.

Maiores objetos além de Netuno, os 4 maiores são classificados como planetas-anão e os 6 restantes são candidatos.Maiores objetos além de Netuno, os 4 maiores são classificados como planetas-anão e os 6 restantes são candidatos.Fonte:  Wikipedia 

Mesmo com a nova categoria, 15 anos depois os ânimos não se acalmaram e um novo estudo publicado fez uma proposta ousada: extinguir a classificação de satélites naturais. Com a proposta, o Sistema Solar teria mais de 150 planetas. Cientistas envolvidos querem retomar a definição de planeta da Revolução Copernicana, e argumentam que muitos satélites naturais e planetas compartilham das mesmas propriedades geofísicas intrínsecas.

A discussão pode ser ampliada para planetas fora do Sistema Solar. Como adicionou Jean-Luc Margot, astrônomo e professor da Universidade da Califórnia, a definição atual também atua na classificação de exoplanetas, já que seria atualmente impossível entender se um exoplaneta é geologicamente ativo ou não.

Com ânimos exaltados, muitos se perguntam se esse novo estudo é o suficiente para bater o martelo na classificação de planetas. A resposta é não. É um artigo publicado em uma revista cientifica e sozinho não representa classificação oficial.

Entretanto, a definição da categoria "planeta" não está escrito em pedra e pode, futuramente, ser alterada. Claro, para que isso aconteça são necessários argumentação e debate. Por fim, a palavra final oficial do órgão representante de astronomia no mundo, ou seja, a UAI.

É importante ressaltar que a definição oficial de uma categoria não segue opinião. Quem não lembra quando o administrador da NASA afirmou que acreditava que Plutão sempre seria planeta? Vale lembrar que Jim Bridenstine não é astrônomo e suas opiniões não definem as diretrizes da NASA. E, mais que isso, vale lembrar que a NASA sozinha não dita categorizações oficias de astronomia.

Atmosfera de Plutão.Atmosfera de Plutão.Fonte:  NASA/JHU-APL/SRI 

Com as novas imagens da sonda New Horizons, Plutão voltou a conquistar os nossos corações com o seu coração. Mas, independente da taxonomia atual, a configuração real do Sistema Solar não é alterada e o céu continua livre para apreciação.

Camila de Sá Freitas, colunista do TecMundo, é bacharel e mestre em astronomia. Atualmente é doutoranda no Observatório Europeu do Sul (Alemanha). Autointulada Legista de Galáxias, investiga cenários evolutivos para galáxias e possíveis alterações na fabricação de estrelas. Está presente nas redes sociais como @astronomacamila.