Cientistas apontam perseguição de Bolsonaro e recusam homenagem

2 min de leitura
Imagem de: Cientistas apontam perseguição de Bolsonaro e recusam homenagem
Imagem: BW Press/Shutterstock
Avatar do autor

Um grupo de mais de 20 cientistas brasileiros que haviam sido condecorados com a Ordem Nacional do Mérito Científico renunciaram coletivamente à homenagem em carta aberta publicada neste sábado (6).

No documento, os pesquisadores apontam perseguição do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e de seu governo a dois cientistas que tiveram a homenagem revogada um dia após a publicação da condecoração pelo presidente.

A honraria foi concedida em decreto presidencial publicado no Diário Oficial da União da quinta-feira (4), mas na sexta-feira (5) foram revogadas as condecorações dadas à Adele Schwartz Benzaken, diretora da Fiocruz Amazônia, e ao infectologista Marcus Vinícius Lacerda, pesquisador na mesma instituição.

“Tal exclusão, inaceitável sob todos os aspectos, torna-se ainda mais condenável por ter ocorrido em menos de 48 horas após a publicação inicial, em mais uma clara demonstração de perseguição a cientistas, configurando um novo passo do sistemático ataque à ciência e tecnologia por parte do governo vigente”, escrevem os cientistas na carta de recusa.

Desde 2002, a Ordem Nacional do Mérito Científico reconhece profissionais por suas relevantes contribuições feitas às áreas de ciência, tecnologia e inovação, segundo decreto assinado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Os agraciados recebem diploma e medalha de prata.

"A homenagem oferecida por um governo federal que não apenas ignora a ciência, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva, não é condizente com nossas trajetórias científicas. Em solidariedade aos colegas que foram sumariamente excluídos da lista de agraciados, e condizentes com nossa postura ética, renunciamos coletivamente a essa indicação” (Carta aberta dos cientistas condecorados com a Ordem Nacional do Mérito Científico em 3 de novembro de 2021)

O documento pode ser lido na íntegra na página da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Na sexta-feira (5), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), uma das mais importantes instituições científicas do país, publicou uma nota de repúdio à cassação da homenagem aos cientistas.

“Fica evidente que o governo federal fez a cassação depois de saber que os dois cientistas renomados conduziam pesquisas cujos resultados contrariavam interesses de políticas governamentais, agindo como censor da pesquisa, sem o devido respeito à verdade científica e à diversidade”, diz o texto.

A ABC afirmou em nota que o ato do presidente foi mais um ataque à ciência e à inteligência do país.

“É inaceitável que se pratique o expurgo de cientistas que têm contribuído, com integridade e competência, para o desenvolvimento nacional e a saúde da população. Protestamos, como cientistas e cidadãos, contra essa escalada autoritária, que representa um ataque frontal ao espírito da Ordem Nacional do Mérito Científico. E reivindicamos o retorno à lista dos nomes arbitrariamente retirados”, diz a ABC na nota.

O epidemiologista Cesar Victora, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), já havia recusado a honraria na sexta-feira (5). Victora é um dos cientistas mais respeitados internacionalmente na área da saúde infantil.

“A homenagem oferecida por um governo federal que não apenas ignora, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva, não me parece pertinente. Como cientista e epidemiologista, tenho tornado pública, através de palestras e artigos científicos, minha completa oposição à forma como a pandemia de covid-19 tem sido enfrentada por esse governo”, escreveu em carta enviada ao ministro de da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes.