No futuro, dispositivos eletrônicos ajudarão a ler o pensamento de outras pessoas

A telepatia sempre foi muito bem explorada pela ficção. São muitos os personagens de filmes e histórias em quadrinho que podem se comunicar apenas com o poder da mente, sem a necessidade de usar as cordas vocais ou de inserir um SIM card no cérebro.

No mundo real, o assunto tem sido objeto de estudos e experimentos realizados por estudiosos do mundo todo. Para a comunidade científica, telepatia não existe, e a parapsicologia é apenas mais uma pseudociência. Mas independentemente disso, há pesquisas e avanços muito concretos na área de “leitura do pensamento”, tanto que isso acabou dando origem a uma nova área: a teclepatia ou telepatia sintética.

A ideia por detrás dessas palavras é simples: usar a tecnologia para ler o pensamento de seres humanos, por meio, por exemplo, de computadores conectados aos miolos de alguém. A mesma técnica também pode ser usada para habilitar o dom da telecinesia, ou seja, a capacidade de mover objetos com o “poder da mente”. E se depender de cientistas e engenheiros, tudo isso está cada vez mais acessível.

Cientistas e a máquina de ler pensamento

Pesquisadores da Universidade de Berkeley, na Califórnia, divulgaram recentemente um feito incrível: foram capazes de reconstruir sons a partir das atividades elétricas ocorridas no córtex auditivo humano. Não ficou claro? Pois a gente explica.

Fisicamente, as atividades cerebrais, como o pensamento, se dão na forma de pequenas ondas elétricas que se espalham pelo cérebro humano em questão de milissegundos. Mas essas atividades elétricas também funcionam como uma espécie de código, soando de maneira diferente e em regiões determinadas de acordo com a atividade realizada pela pessoa.

No caso da pesquisa de Berkeley, os cientistas focaram nas atividades que acontecem em uma região conhecida como córtex auditivo, responsável, como você já deve ter imaginado, por detectar informações sobre os sons que ouvimos. Tendo isso em mente, fica mais fácil entender o experimento.

Transformando ondas cerebrais em áudio

Tomografia da cabeça com eletrodos de um dos voluntários (Fonte da imagem: Adeen Flinker, UC Berkeley)

Imagine que um pianista esteja assistindo ao vídeo ― sem áudio ― de outro músico tocando piano. Mesmo sem ouvir a música que está sendo executada, é provável que o pianista possa imaginar como ela soa, apenas observando os dedos do músico sobre as teclas do instrumento.

É dessa forma que Brian Pasley, coautor do estudo, exemplifica sua pesquisa. Porém, a situação foi um pouco mais complexa e envolveu o posicionamento de 256 eletrodos sobre o cérebro de 15 pessoas.

E é claro que ninguém, em sã consciência, acorda com disposição para ter o crânio perfurado e servir de cobaia para a ciência. Os corajosos voluntários dessa pesquisa foram pacientes com epilepsia que já seriam submetidos a uma cirurgia para o tratamento de convulsões que podiam ser controladas com remédios. Pasley visitou cada um deles no hospital e gravou a atividade cerebral detectada pelos eletrodos, enquanto os voluntários ouviam uma conversa que durava de 5 a 10 minutos.

Depois disso, dois métodos computacionais foram usados para tentar reconstruir as palavras que os pacientes ouviram.  É possível escutar o resultado no vídeo acima. Primeiro, ouve-se uma das seguintes palavras sendo pronunciada normalmente: “Waldo”, “structure”, “doubt” ou “property”. Em seguida, o vídeo demonstra como o áudio foi resgatado a partir de cada um dos métodos.

O futuro da teclepatia

Stephen Hawking poderia voltar a se comunicar com a Teclepatia

Stephen Hawking poderia ter seus pensamentos convertidos em voz sintetizada (Fonte da imagem: Stephen Hawking)

Além da possibilidade extravagante de criarmos máquinas de telepatia, esse tipo de pesquisa pode devolver a voz a pessoas que sofrem de paralisia ou de doenças degenerativas que afetaram a habilidade de se comunicar. Os indícios para isso se baseiam em evidências de que atividades cerebrais semelhantes a essas também acontecem quando simplesmente pensamos em uma palavra.

Dessa forma, de acordo com Pasley, seria possível sintetizar o som daquilo que a pessoa está pensando ou simplesmente escrever as palavras por meio de uma interface que fosse capaz de converter esses sinais em texto. Além disso, a pesquisa também está ajudando os cientistas a entenderem melhor o cérebro, em especial a maneira como as pessoas representam e processam os sons da fala.

Telecinesia ao alcance do seu bolso

MindWave: o dom da telecinesia por apenas US$ 99 (Fonte da imagem: NeuroSky)

Se conhecemos bem a cabeça de vocês, leitores do Tecmundo, é provável que os mais curiosos possam ter ficado empolgados com a possibilidade de explorar ou estudar as próprias atividades cerebrais. Isso seria muito divertido, não fosse um porém: grosso modo, os métodos existentes até o momento envolvem equipamentos hospitalares caríssimos ou métodos cirúrgicos que não devem ser realizados por amadores.

Mas existem algumas alternativas preparadas pela indústria para o consumidor final. Um dos “neurogadgets” mais famosos é o MindWave, uma espécie de headset capaz de ler as ondas cerebrais da sua cabeça e usá-las como forma de interagir com games e aplicativos para PC e Mac. Na prática, é como se você comprasse uma máquina de eletroencefalograma muito moderna e que custa menos de US$ 100.