A sexta parte da série Gênios do Brasil ruma na direção do campo da física teórica, umas das ciências mais difíceis e complexas, com estudos praticamente abstratos para quem não possui familiaridade com a área. Você deve pensar que o Brasil não tem muito destaque internacional nessa área – e não está de todo errado, visto que infelizmente os investimentos são poucos –, mas talvez não saiba que temos um representante de renome que bateu na trave para ganhar nada menos que o Prêmio Nobel de Física.

Nosso personagem – que infelizmente já faleceu em 2006 – foi um dos grandes nomes da ciência brasileira e um enorme estimulador do estudo acadêmico no país. Além de todos os seus estudos na área da Física, ele foi responsável pela fundação de uma série de institutos muito importantes para o desenvolvimento das ciências no Brasil, como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), a Comissão Nacional de Energia Nuclear, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Financiadora de Estudos e Projetos.

Gênios do Brasil: José Leite Lopes

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Não satisfeito com o que havia absorvido de conhecimento até então, Leite Lopes foi para o Rio de Janeiro e passou a cursar Física na Faculdade Nacional de Filosofia

O recifense José Leite Lopes nasceu em 28 de outubro de 1918, filho de Beatriz Coelho Leite e José Ferreira Lopes. Cresceu na capital pernambucana e em 1935 ingressou no curso de Química Industrial na Escola de Engenharia de Pernambuco, faculdade que hoje faz parte do corpo acadêmico da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Não satisfeito com o que havia absorvido de conhecimento até então, Leite Lopes foi para o Rio de Janeiro e passou a cursar Física na Faculdade Nacional de Filosofia, recém-fundada pelo então presidente Getúlio Vargas e fonte originária de 10 institutos da atual UFRJ.

Após ter entrado na vida acadêmica, Leite Lopes não saiu mais. Em 1942, o próprio Carlos Chagas Filho – grande médico e filho do bacteriologista Carlos Chagas – o convidou para trabalhar no Instituto de Biofísica da UFRJ com uma bolsa concedida por Guilherme Guinle, empresário e empreendedor carioca. Não demorou muito, e Leite Lopes rumou para a Universidade de São Paulo para aprofundar suas pesquisas.

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Fundações importantes para a ciência

Seu doutorado foi cursado na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Lá, Leite Lopes teve orientação de Wolfgang Pauli, vencedor do Prêmio Nobel de Física no ano de 1945, além de ter, inclusive, assistido a aulas de ninguém menos que Albert Einstein. Após voltar para o Brasil em 1946, já Ph.D., Leite Lopes aproveitou a notoriedade do colega brasileiro Cesar Lattes e outros físicos que haviam descoberto recentemente o méson pi, para fundar o CBPF e, pouco tempo depois, o CNPq.

Leite Lopes sempre foi um entusiasta da Física, que considerava a 'mãe' de todas as ciências

Leite Lopes sempre foi um entusiasta da Física, que considerava a “mãe” de todas as ciências. Sempre lutou fervorosamente para que países pouco desenvolvidos se dedicassem mais à pesquisa, especialmente o Brasil, sua terra natal. Suas críticas à falta de incentivos e investimentos em estudos acadêmicos sempre estiveram presentes em seus discursos e, por isso mesmo, fez tanto para desenvolver essa área em seu país.

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Perseguição na Ditadura Militar

A convite de ninguém menos que Robert Oppenheimer, um dos pais da bomba atômica, Leite Lopes retornou para os Estados Unidos como bolsista de pesquisa do Instituto de Pesquisas Avançadas de Princeton. O cientista foi também diretor e membro do conselho deliberativo do CNPq até 1964, quando o covarde Golpe Militar tomou o governo no Brasil, trazendo anos de injustas perseguições políticas a artistas e cientistas, entre outros.

Com o fim da Ditadura, Leite Lopes voltou ao Brasil como diretor do instituto que havia ajudado a fundar, onde permaneceu até 1989

Acusado de ter ligação com o comunismo, como tantas outras pessoas de diversas áreas durante a Ditadura Militar, Leite Lopes foi exilado na França, onde teve grande sucesso na Universidade Louis Pasteur. A partir de 1970, o cientista aceitou um convite para trabalhar na Universidade de Estrasburgo e lá ficou até 1985. Com o fim da Ditadura, Leite Lopes voltou ao Brasil como diretor do instituto que havia ajudado a fundar, onde permaneceu até 1989.

aCesar Lattes e José Leite Lopes

Contribuições para a ciência

José Leite Lopes previu, em 1958, a existência de uma partícula mediadora neutra nas interações fracas no núcleo do átomo, um bóson vetorial neutro, também conhecido como bóson Z. Isso ajudou a estabelecer as bases da chamada unificação eletrofraca, um conceito que permite compreender melhor as interações ocorridas entre as partículas que compõem o átomo e tem aplicação, por exemplo, na área de energia nuclear.

Entre outras áreas de estudo de Leite Lopes estão a avaliação correta da massa dos bósons vetoriais, a unificação de forças eletromagnéticas e fracas, a teoria das forças nucleares...

Seu esforço contribuiu para as pesquisas de três cientistas estrangeiros: Steven Weinberg, Sheldon Glashow e Abdus Salam. Usando os resultados das pesquisas de Leite Lopes, os três estudaram a unificação do eletromagnetismo com a interação nuclear fraca. A pesquisa rendeu aos cientistas o Prêmio Nobel de Física de 1979. Nada disso teria acontecido sem tudo que Leite Lopes havia descoberto anteriormente.

Entre outras áreas de estudo de Leite Lopes estão a avaliação correta da massa dos bósons vetoriais, a unificação de forças eletromagnéticas e fracas, a teoria das forças nucleares, as reações fotonucleares, a teoria de Weinberg-Salam com lépton neutro pesado e violação da conservação do número muônico, o modelo de estrutura de léptons e pesquisas sobre possíveis léptons e quarks com spin 3/2.

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A morte

No dia 12 de junho de 2006, há 12 anos, José Leite Lopes morreu no Hospital Samaritano, vítima de uma falência múltipla de órgãos, aos 87 anos, após ter ficado em coma por quase 6 meses. Boa parte da comunidade científica acha que o físico só não foi agraciado com o Prêmio Nobel por motivos de natureza política e social. Ainda assim, seu reconhecimento internacional é imenso, e tudo o que fez pela ciência engrandeceu muito o ser humano.