Imagine que um grande líder político faleça devido a um problema de saúde. Seus atos ficarão apenas no passado e pode não aparecer outra pessoa com tantas capacidades. Mas e se fosse possível preservá-lo e trazê-lo de volta, em uma época diferente, para que suas influências e habilidades fossem utilizadas em busca de um mundo melhor?

Esse é apenas um entre vários sonhos que envolvem a criogenia, ou preservação de corpos por congelamento. Manter um ser humano armazenado até que seja possível revivê-lo é uma ideia que já dura algumas décadas, mas que pouco saiu da ficção ou das ideias de grandes cientistas.
Ainda assim, é curioso pensar nas possibilidades trazidas por essa tecnologia, que já figurou em filmes como “O Demolidor” e “Avatar”.

Muito abaixo de zero

O processo é bem mais complicado do que parece: não é só jogar alguém no nitrogênio líquido e esperar o resultado. Antes, a água das células do paciente é substituída por uma substância que não permite que elas explodam, além de prevenir a formação de cristais de gelo dentro de você. Em seguida, vem o congelamento por nitrogênio líquido, em temperatura de cerca de -196° C.

(Fonte da imagem: ClimateShifts)

O custo? Até R$ 320 mil, fora uma mensalidade para manter o corpo em centros de criogenia. Há um processo alternativo – e mais barato – que preserva apenas o cérebro: a neurossuspensão.

O retorno triunfal

Uma cápsula de criogenia (Fonte da imagem: Alcor)Após congelar o corpo, vem o principal problema: como trazê-lo de volta? Ao menos até agora, ainda não chegamos perto dessa tecnologia, apesar do sucesso com o congelamento de embriões, que chegam a ter mais de 50% de chances de sobreviverem.

A criogenia aposta que o cérebro mantém armazenadas várias informações da pessoa, como a memória de longo prazo. Desse modo, ao ser descongelada por cientistas em um futuro muito distante, a pessoa voltaria à vida como se tivesse passado apenas por um sono profundo.

Ainda assim, se essa barreira fosse quebrada, precisaríamos também curar a doença que matou o paciente. Se as causas forem câncer ou o vírus da AIDS, por exemplo, descongelá-lo agora não ajudaria muito.

Usos alternativos

A preservação de corpos pós-morte não é a única aplicação da criogenia. Processos similares com objetivos diversos (e bem mais palpáveis) também devem ser considerados.

Congelamento gastronômico

Técnicas criogênicas podem ser usadas não só em humanos, mas também em alimentos – e isso é bem mais comum do que você pensa. Essa é a proposta de empresas como a AirLiquide, uma companhia com filial no Brasil que desenvolveu técnicas para “congelar, resfriar ou controlar” a temperatura de certos alimentos.

Através de nitrogênio e CO2, gases com forte capacidade frigorífica, é possível congelá-los rapidamente, sem perder a textura ou a integridade das células do alimento. Além disso, a técnica impede a perda de água e preserva as comidas contra micro-organismos, aumentando o tempo próprio para consumo.

O corpo no limite

O esporte também pode ser beneficiado com a criogenia. Alguns atletas já estão experimentando máquinas especiais que atingem até -130° C, para que uma maior quantidade de sangue com oxigênio e nutrientes seja enviada para músculos e outras partes do corpo, deixando os esportistas mais preparados para treinamentos e competições.

Estudos mais completos ainda não diagnosticaram problemas no método – ou se ele pode ser considerado uma forma de dopping, por exemplo.

(Fonte da imagem: Jeff Dengate/Runner’s World)

A criogenia também seria muito bem-vinda em viagens espaciais, especialmente aquelas para planetas distantes anos-luz da Terra. Desse modo, o corpo do astronauta permaneceria preservado, independente da duração do passeio. Como expedições tripuladas ainda estão engatinhando, devemos esperar algumas décadas para ver resultados na área.

Celebridades congeladas

Algumas histórias (verdadeiras ou não) circulam por aí sobre famosos que teriam sido congeladas para viverem no futuro. A maioria seria muito bem-vinda por nossos sucessores no planeta – mas imagine se algum supervilão da vida real, como terríveis ditadores, também estiverem passando por esse estado criogênico?

Por enquanto, pelo menos, quem escolheu esse destino só deve trazer contribuições positivas para o futuro.

Os dois pais da criogenia

Robert Attinger (Fonte da imagem: Disinfo)O físico Robert Ettinger era um visionário. Em 1962, seu livro "The Prospect of Immortality" (A Perspectiva da Imortalidade, inédito no Brasil) formou a base teórica inicial da criogenia. Anos depois, fundou sociedades destinadas a estudar e realizar esse processo em vários pontos dos Estados Unidos.

Ettinger morreu em julho de 2011 e, claro, foi congelado em seu próprio instituto, em Michigan, que já conta com mais de cem cápsulas com seus clientes.

O outro pai da criogenia, James Bedford, não contribuiu com os estudos em si, mas é importante em questões práticas: ele foi o primeiro paciente cujo corpo foi criogenicamente preservado, em 1967. Atualmente, está armazenado na Alcor, uma influente fundação filantrópica da área.

O processo virou até um livro de nome bastante curioso: “We Froze the First Man” (“Nós congelamos o primeiro homem”, inédito por aqui).

Home run no gelo

O jogador de beisebol Ted Williams é uma lenda. Não só por sua incrível carreira pelo Boston Red Sox, com 521 home runs, que o levou ao hall da fama norte-americano do esporte, mas pela decisão tomada antes de sua morte, em 2002: ele queria ser congelado.

(Fonte da imagem: Rotoinfo)

O desejo foi atendido, mas Williams demorou para descansar em paz: surgiram acusações de que seus filhos forjaram o documento que pedia a criogenia, além de disputas judiciais entre os herdeiros, pois alguns deles eram acusados de manter o pai congelado apenas para vender seu DNA como item de colecionador. Com o fato negado no tribunal, o atleta permanece no gelo, em uma das cápsulas da Alcor.

Walt Disney vai voltar?

Talvez a história mais famosa envolvendo a criogenia diz respeito a Walt Disney, o lendário criador de Mickey, Pato Donald e muitos outros. O produtor faleceu em 1966, devido a um câncer de pulmão. Imediatamente, pipocaram informações de que ele, sempre interessado nos avanços da ciência, teria pedido (e conseguido) que seu corpo fosse congelado.

As lendas dizem que ele está armazenado na Disneylândia, abaixo da atração “Piratas do Caribe”, até o dia em que a medicina for capaz de curar sua doença. Já imaginou se ele produzisse desenhos nos dias de hoje?

(Fonte da imagem: Wikimedia Commons)

Os boatos, entretanto, são facilmente desmentidos por qualquer biografia ou parente próximo: Disney foi cremado no Forest Lawn Cemetery, na Califórnia. Além disso, o primeiro experimento da área foi feito apenas em 1967, um ano depois da morte do animador.

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