Na última segunda-feira (13), falando no World Government Summit – uma conferência em Dubai que discute temas como tecnologia, inovação e mobilidade –, Elon Musk fez uma declaração bem impactante: a maioria dos veículos estarão capacitados para a direção autônoma nos próximos dez anos. Isso quer dizer que o futuro está a no máximo uma década de distância? Que em 2027 você vai poder ler um livro enquanto seu carro te guia para o trabalho? Bem, não exatamente, já que a frase do chefão da Tesla traz uma série de “poréns”.

Para começar, o próprio empresário sul-africano fez questão de lembrar que vai levar pelo menos mais uma geração até que os possantes autodirigíveis sejam a maioria entre os veículos trafegando pelas cidades e estradas. Afinal, estamos falando de uma indústria que, em escala global, tem 2 bilhões de carros em circulação ao mesmo tempo que sua capacidade de produção fica na casa dos 100 milhões de automóveis ao ano. Só por esse prisma, dá para entender o motivo da demora nessa substituição dos modelos.

Dar vazão a mais carros pode ser um problema nessa nova fase da indústria automotiva

Estipular dez anos para termos uma frota 99,9% preparada para as novas tecnologias parece algo otimista demais

“Vai demorar um bom tempo para fabricar veículos autônomos o suficiente para causar essa disrupção. Essa mudança só vai ocorrer daqui a 20 anos”, analisou Musk na ocasião. Mesmo com toda a sinceridade em reconhecer algumas das imprecisões em sua previsão, estipular dez anos para termos uma frota 99,9% preparada para as novas tecnologias de direção inteligente parece algo otimista demais para qualquer executivo do setor. Ou, quem sabe, apenas uma afirmação bem condizente com alguém que tem muito dinheiro aplicado nesse segmento.

Tentando pescar a verdade

Outro ponto bem interessante levantado pelo site Jalopnik é o que o CEO da Tesla quis dizer exatamente com “estar capacitado para a direção autônoma”. Será que esse “selo” de suporte à tecnologia depende da taxa de acidentes provocados por esses carros? Por sua habilidade de rodar em uma área segura? Quando eles puderem circular em qualquer lugar? Como o figurão não deu nenhum parâmetro para a definição, a ideia fica muito aberta e até um pouco difícil de rebater – uma habilidade que parece favorecer muito Musk em suas apresentações.

Vale notar também que a expectativa de custo de adicionar recursos autônomos a veículos de linha está na faixa dos US$ 10 mil – cerca de R$ 30,6 mil –, um número consideravelmente alto e que deve espantar uma boa faixa do público que busca automóveis mais simples ou de entrada. A solução para isso seria aguardar a tecnologia ficar mais em conta, certo? Afinal, dentro de alguns anos, novas descobertas devem baratear bastante o kit. Infelizmente, no caso das montadoras que quiserem seguir o cronograma de Elon Musk, isso não será possível.

Sensores, câmeras e demais componentes ainda são caros e podem comprometer o preço desses projetos

Devido aos limites de vazão mencionados anteriormente, as fabricantes precisariam parar neste exato momento a produção de carros comuns e começar a desovar os novos equipamentos hoje mesmo para tentar chegar ao menos perto da meta agressiva dos tais dez anos – pagando o preço cheio dos recursos autônomos nesse processo, claro. Obviamente, uma estratégia como essa não é válida ou mesmo sustentável para boa parte das marcas do mercado automotivo.

Se depender da meta estabelecida por Musk, carros comuns como o acima precisam desaparecer rapidamente

Burocracia e responsabilidade

Mesmo se deixarmos os problemas de fabricação de lado, ainda há uma série de fatores que indicam que a agenda proposta pelo sul-africano está um pouco longe da realidade. Os EUA, por exemplo, ainda estão engatinhando quando o assunto é estabelecer uma regulamentação unificada e abrangente para os carros autônomos. Se um dos maiores produtores e compradores da categoria ainda estão atrasados nesse quesito, o que dizer de países menos aquecidos e onde as novidades chegam a conta-gotas ou com um preço exorbitante?

O dilema moral sobre quem se responsabiliza pelas vítimas em caso de acidente ainda deve render uma boa discussão

A preparação das vias, dos pedestres e dos condutores para esses novos integrantes do ecossistema urbano também é uma preocupação real e que não tem recebido tanta atenção das empresas e dos órgãos responsáveis. Adicionalmente, todo o dilema moral sobre quem se responsabiliza pelas vítimas ou por danos alheios em caso de acidente com veículo autônomos ainda deve render uma infinidade de rodadas de discussão.

Pode parecer só uma batida, mas o assunto ainda precisa ser debatido seriamente

Nesse tema específico, vale notar que, enquanto a maioria das montadoras já se comprometeu ou pelo menos deu a entender que assumiria a bronca nessas situações, a Tesla afirmou que qualquer tipo de indenização ou suporte nesses episódios vai depender da sua seguradora. Se você pretende adquirir um carro da marca no futuro, pode ser uma boa ideia não se esquecer de pagar as parcelas do seguro.

No final das contas, é possível, sim, que dentro dos próximos dez anos a tecnologia autônoma esteja plenamente operante e possa ser aplicada em alguns modelos de ponta das principais companhias do ramo. Um domínio completo dessas máquinas no trânsito, porém, ainda deve levar um bocado de tempo e um período longo de ajustes e readequações. E aí, qual é a sua expectativa para essa tecnologia? Pretende fazer parte das primeiras levas de usuários da categoria? Deixe a sua opinião sobre o assunto na nossa seção de comentários.