(Fonte da imagem: ShutterStock)

A decodificação do genoma humano e de outros primatas mostra que diversas alterações sutis foram as responsáveis por dar ao nosso corpo e cérebro as características modernas dos humanos de hoje. Por isso, é de se estranhar sempre que vemos uma notícia sobre a descoberta de que um único gene pode ter separado a espécie humana dos macacos.

A última notícia a respeito desse assunto, divulgada na metade do mês de novembro, contava que pesquisadores da Universidade de Edimburgo, na Escócia, haviam encontrado um gene que não compartilhamos com outros primatas e que era responsável, por exemplo, não apenas pela habilidade humana de usar ferramentas, mas também de aprender línguas. De acordo com os cientistas, o miR-941, como foi batizado, surgiu no ser humano entre 6 e 1 milhão de anos atrás.

Entretanto, um segundo artigo sobre esse gene acabou perdendo os holofotes da imprensa e, ao que tudo indica, ele possui revelações muito importantes sobre o assunto, além de mais corretas e realistas.

Formato de microRNAs pode definir “humanidade”

Esse outro artigo fala sobre a evolução dos microRNAs humanos, isto é, pedaços pequenos de RNA que possuem uma estrutura que lembra a forma de um grampo para cabelo: dois trechos de sequências complementares que podem ser combinados e formar uma hélice dupla, separadas por uma pequena volta que permite que o RNA se dobre sobre si mesmo.

MicroRNAs possuem estrutura semelhante à de um grampo de cabelo (Fonte da imagem: Wikipedia)

Diferentemente dos RNA mensageiros (RNAm), os microRNAs não formam proteínas. Em vez disso, eles ajudam a controlar quais RNAm devem ou não formar proteínas. Por causa de sua estrutura, os microRNAs formam pares com sequências do RNA mensageiro, conduzindo um complexo de proteínas até ele. A partir daí, duas coisas podem acontecer: ambos são destruídos ou o RNAm é impedido de ser traduzido e formar novas proteínas.

Assim, um único microRNA pode controlar a possibilidade de um grande número de genes ser transformado em proteína, agindo de maneira semelhante aos compostos que unem o DNA e regulam a atividade de uma grande coleção de genes.

MicroRNAs exclusivos do ser humano

Os autores identificaram mais de 1,4 mil microRNAs ativos nas células humanas e depois compararam-nos com as sequências equivalentes dos genomas de 10 mamíferos diferentes, além do código genético das galinhas. A maior parte desses microRNAs parece ter aparecido em nossos ancestrais muito antes da espécie humana surgir. Porém, 10 deles são de exclusividade dos humanos, além de dezenas terem sofrido mutações em regiões específicas.

Para encontrar de vez o microRNA mais importante para nós, os cientistas escolheram um órgão que possui as funcionalidades mais distintas das dos outros animais: o cérebro humano. Curiosamente, a maior parte das coleções de genes estava inativa nesse órgão, com exceção de uma: a miR-941.

Ao olhar a região do genoma humano que contém o miR-941, os pesquisadores notaram que essa é uma área que contém uma série de repetições da mesma sequência e que tanto os chimpanzés quanto outras espécies de macacos  possuem sequências similares. Porém, no ser humano elas se diferem pela forma de grampo de cabelo.

(Fonte da imagem: ShutterStock)

De alguma maneira, quando nos separamos dos chimpanzés, há 6 milhões de anos, uma reorganização naquela área de genes acabou criando a forma humana do miR-941 e fazendo cópias extras desse gene em nosso genoma. Presente em uma grande variedade de tecidos, esse microRNA é capaz de reconhecer sequências que estão presentes em processos importantes e que contribuem para o crescimento e estruturação do cérebro.

Essa não é, provavelmente, a única distinção que existe entre o nosso genoma e o dos chimpanzés, mas é muito plausível afirmar que o miR-941 contribuiu fortemente para as mudanças que nos tornam humanos.

Porém, não vai ser fácil testar essas hipóteses na prática: o miR-941 fica bem no meio de outro gene que controla as funções neurais, e uma falha genética nessa região invalida ambos os genes. Entretanto, essa mesma falha produz alterações tanto no cérebro quanto em seu comportamento.

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