São muitas as desculpas usadas por quem não quer usar a bicicleta como meio de transporte cotidiano — porém, devemos dar um pouco de crédito ao indivíduo que reclama de pedalar em uma metrópole acidentada como São Paulo. Para quem não está acostumado a se locomover usando uma magrela, os aclives e o trânsito caótico presente nessas cidades podem ser um obstáculo e tanto no caminho da casa até o trabalho.

Substituindo as motorizadas à combustão, as bicicletas elétricas surgiram justamente para eliminar esse tipo de problema. Versáteis, econômicos e projetados para uso urbano, esses veículos logo caíram no gosto popular e viraram febre em países desenvolvidos. No Brasil, porém, ainda é um pouco raro encontrar esse tipo de bicicleta nas ruas, justamente por causa do alto investimento necessário para adquirir tal produto.

É nesse cenário que surge a Vela Bikes, uma startup brasileira que, com a ajuda de financiamento coletivo, conseguiu desenvolver a Vela 1, uma bicicleta elétrica que surpreende pelo design charmoso. Inspirada nos modelos europeus e com toques vintage, a magrela tem o preço sugerido de R$ 5,3 mil e se enquadra na categoria pedalec, visto que seu motor só funciona como uma assistência aos pedais. Será que vale a pena investir na novidade? Confira nossas impressões após passar uma semana com a bike.

Vela 1

Nadando contra a correnteza

Vamos ser diretos e sinceros: a Vela 1 é uma bicicleta belíssima. Para a realização da análise, pegamos emprestado um modelo bege que foi entregue em nossas mãos já montado — de acordo com Victor Hugo, CEO da companhia, o consumidor geralmente recebe a bike desmontada em sua residência e tudo o que ele precisa fazer é inserir a roda frontal, ajustando os freios e dando um aperto com o auxílio do kit de ferramentas incluso.

O design do veículo é, certamente, seu maior diferencial

De qualquer forma, o design do veículo é, certamente, seu maior diferencial. Enquanto as fabricantes tentam dar um visual cada vez mais futurista e arrojado às suas magrelas, a Vela Bikes nadou contra a correnteza e apostou em um desenho mais clássico, com ares europeus, aos moldes dos modelos que vemos em cidades como Amsterdã e Copenhague. O resultado? Elogios e olhares curiosos por onde quer que você passe.

É importante prestar atenção aos pequenos detalhes — os fios elétricos, por exemplo, passam por dentro do quadro e são guiados pelo protetor de corrente antes de alcançarem o motor, que substitui o cubo da roda traseira. Cilíndrica, a bateria da Vela 1 vai dentro no tubo do selim (seat tube), enquanto seus componentes eletrônicos estão agrupados em uma caixa que imita uma bolsa de quadro feita de couro (mesmo material das manoplas).

Vela 1 tem um design elegante e inspirado nos modelos europeus

Não é só um rosto bonitinho

A Vela 1 pode pesar entre 19 kg e 23 kg

Mais do que simplesmente bonito, o design da Vela 1 também foi pensado para ser funcional. O guidão curvado para trás (conhecido por alguns como upright ou north road) força o ciclista a manter uma postura mais ereta, o que reduz a fadiga nas costas e aumenta a estabilidade nas ruas. O quadro, feito de aço chromoly 4130, está disponível em vários tamanhos diferentes; no nosso caso, testamos um tamanho 54 cm e rodas 700C.

O mais bacana é que, através do site oficial da marca, o cliente pode personalizar sua Vela 1 de acordo com suas preferências. Por padrão, a companhia oferece a bike em quatro cores (azul, verde, vinho e creme), mas também aceita encomenda de outros tons. É possível ainda escolher entre uma versão “crua” da magrela ou pagar mais R$ 299 para receber dois bagageiros (traseiro e frontal) e uma campainha no guidão.

Dependendo da quantidade de acessórios incluindos, a Vela 1 pode pesar entre 19 kg e 23 kg. Embora possa parecer pesado para quem não está acostumado com esse tipo de veículo, o modelo se consagra como um dos mais leves do mercado nacional: a Magias Italiane, por exemplo, tem 25 kg; a Daytona, da Scooter Brasil, tem 38 kg; a BEL500, da Bull Motors, chega a pesar nada menos do que 54 kg.

É possível customizar as cores de sua magrela e adicionar componentes extras

Kit de boas-vindas

A Vela 1 acompanha um manual de instruções (que, apesar de tudo, não serve para muita coisa, visto que ele nem mesmo tem ilustrações para auxiliar os iniciantes) e um conjunto de três chaves allen (tamanhos 4 e 5 para ajustes gerais e tamanho 6 com um desenho exclusivo para afrouxar o aperto do canote, possibilitando a retirada da bateria).

Obviamente, a magrela também acompanha um carregador bivolt de tomada. É possível tanto conectá-lo à central eletrônica da bicicleta quanto diretamente na bateria, retirando-a do tubo do selim e transportando-a até a tomada mais próxima. Isso é bastante útil para quem deixa a bike na garagem, mas prefere recarregá-la em seu quarto ou na sala de estar.

Manual e chaves allen que acompanham a bike

Outro item importantíssimo que é entregue junto com o veículo é um pequeno controle remoto no formato de chaveiro, parecido com aqueles usados em carros. Através dele, você consegue ligar e desligar o sistema elétrico da Vela 1, tal como ativar e desativar seu alarme e disparar um sinal sonoro para simplesmente encontrá-la em um bicicletário cheio, por exemplo. Esse controle é entregue em duplicata, para caso você perca o principal.

Estiloso, não?

Quer um empurrãozinho?

Embora a Vela 1 não tenha um acelerador no punho, a bicicleta conta com um minúsculo botão localizado ao lado de sua manopla direita. Ao pressioná-lo umas cinco ou seis vezes, o motor da magrela é ativado mesmo sem o movimento dos pedais e movimenta a roda durante uns três segundos. Esse sistema foi feito para ajudar o usuário caso ele precise parar no semáforo durante uma subida, por exemplo.

“Se você estiver em uma ladeira e precisa parar, as primeiras pedaladas para retomar a movimentação podem ser um pouco duras até que o motor perceba que precisa auxiliá-lo”, explica Victor. “Dessa forma, você pode usar esse botão para ter um impulso inicial automático até retomar o ritmo da pedalada”, complementa.

É importante avisar, porém, que esse recurso ainda está em fase de testes, e usamos ele justamente nesse período experimental. Embora tenha falhado algumas raras vezes, no geral, a função funciona bem e é uma mão na roda para sair do semáforo junto com carros e motos.

Repare no pequeno botão ao lado da manopla direita

Motor: uma ajudinha preciosa

O motor se mostra potente o suficiente para permitir que você suba aclives sem se cansar

A Vela 1 é equipada com um motor elétrico de 350W fabricado pela 8Fun, uma companhia chinesa que ficou famosa por fornecer componentes para marcas do mundo inteiro. Em conjunto com a bateria — que tem autonomia de até 30 km e pode ser recarregada em apenas duas horas —, ele consegue atingir até 25 km/h, que é a velocidade máxima permitida nas ciclovias e ciclofaixas do Brasil.

Vale observar que, diferente de uma moto ou de alguns modelos de bikes elétricas disponíveis no Brasil, a Vela 1 não conta com acelerador. Seu motor entra em cena automaticamente assim que a magrela percebe que o ciclista está fazendo esforço — ao detectar uma subida, por exemplo, a magrela começa a auxiliar a pedalada, impedindo que o usuário faça esforço desnecessário.

Acredite ou não, mas esse sistema funciona muito bem. Embora o motor tenha um atraso de alguns segundos para perceber que é hora de entrar em ação, ele se mostra potente o suficiente para permitir que você suba aclives sem se cansar — se você for paulistano, vai me entender perfeitamente quando eu digo que é maravilhoso poder escalar a rua Teodoro Sampaio sem derrubar uma gota de suor.

Discreto, motor elétrico da Vela 1 está na roda traseira da magrela

Sem marchas? Sim, sem marchas!

Vale ressaltar que a Vela 1 é uma bicicleta single speed, ou seja, ela não possui marchas. Embora isso possa desagradar algumas pessoas que pensam de forma mais tradicional e ser um incômodo na hora de pedalar com o motor desligado, a escolha da Vela Bikes pela marcha única colabora para um visual mais clean do modelo.

Além disso, single speeds apresentam um maior aproveitamento de força e maior eficiência mecânica, visto que a pressão aplicada nos pedais não passa por derailleurs de câmbios, e, consequentemente, não perde potência até chegar ao cubo traseiro. Quem já pedalou em uma bicicleta de roda fixa, por exemplo, sabe do que estamos falando.

Pela ausência de marchas, Vela 1 é mais clean e tem maior eficiência mecânica

Central eletrônica: onde a mágica acontece

Como dissemos anteriormente, todo o controle eletrônico da Vela 1 está reunido em um recipiente localizado no interior do quadro e que lembra muito uma bolsa de couro. Em sua face frontal, essa central apresenta uma espécie de painel que contém quatro itens de suma importância.

O primeiro é a luz LED que mostra se a bike está ligada ou não — ela fica acesa na cor vermelha quando seus componentes elétricos estão ativos. Logo abaixo, temos uma porta USB que você pode usar para recarregar seus dispositivos móveis, como um smartphone que esteja no seu bolso durante a pedalada.

Em seguida, temos uma segunda luz LED que mostra o estado atual da bateria: verde (de 100% a 10%) e vermelha (abaixo de 10%). Por enquanto, não há variações intermediárias de cor para uma medição mais precisa da carga restante. Por fim, temos ainda a entrada para o carregador bivolt, que, visualmente, lembra muito uma entrada P10 (de guitarra).

É nessa bolsa que ficam os componentes eletrônicos da Vela 1

Alarme e rastreador

Roubo de bicicletas é uma prática comum nas grandes cidades — e é por isso que a Vela 1 sai de fábrica equipada com um alarme sonoro. Basta ligá-lo através do controle remoto e, assim que uma pessoa não autorizada movimentar a magrela, ele será ativado. O veículo também conta com um rastreador interno (que funciona com base em um chip de celular comum), mas Victor avisa que esse segundo recurso também está em fase experimental.

Na teoria, ao ter sua bike roubada, o cliente envia um SMS para um número único informado no manual de instruções e ele retorna com um link contendo as coordenadas GPS de seu veículo no Google Maps. O fundador da startup, porém, comenta que a tecnologia não está funcionando como o esperado e, por isso, precisa ser aprimorada antes que o público possa começar a usá-la.

Infelizmente, o rastreador da Vela 1 ainda está em fase de testes

Vale a pena?

A autonomia de 30 km é mais do que o suficiente para uso urbano

A Vela 1 é uma bicicleta elétrica impressionante, a começar pelo seu design clássico e elegante. É difícil contar quantos elogios a magrela recebeu durante a semana que ficamos com ela para fins de teste. Além de atraente e customizável, o veículo é razoavelmente leve e lhe permite pedalar em uma posição bastante confortável.

O motor nos agradou bastante. Mesmo demorando um pouquinho para perceber que o ciclista precisa ser auxiliado, ele é forte o bastante para encarar subidas íngremes e permite fazer exercício físico sem se cansar demais. É o meio-termo perfeito entre simplesmente puxar um acelerador e destruir suas pernas para encarar um aclive.

A autonomia de 30 km é mais do que o suficiente para uso urbano — tanto que, durante nossos testes, tentamos esgotar a bateria em um único passeio, mas tal situação se mostrou totalmente improvável. A velocidade de recarga é outro ponto positivo na Vela 1, visto que bastam duas horas para que ela esteja pronta para outra pedalada.

Será que vale a pena investir em uma dessas?

É claro que nem tudo são flores: sentimos falta de um painel digital e gráfico no guidão que mostre a velocidade atual e o nível de carga da bateria. Afinal, um simples LED piscando em vermelho (localizado em um ponto do quadro que é de difícil visualização) não é o suficiente para alertar o ciclista de que ele está prestes a perder a ajuda do motor.

Falta também garantir que o recurso de impulso inicial e rastreador GPS saiam da fase de testes e se tornem 100% confiáveis. Afinal, o consumidor está pagando R$ 5.290 por um produto e o ideal é que ele esteja com todas as funcionalidades prontas para uso. Vale observar, aliás, que é necessário esperar cerca de um mês para receber uma Vela 1 em casa, pois a equipe da startup está com uma fila grande de bicicletas a serem entregues.

Muita gente vai reclamar da falta de suspensão no garfo e da ausência das marchas

No fim das contas, por mais que ela queira ser uma solução universal para locomoção urbana, só conseguimos enxergá-la como um produto de nicho. Muita gente vai reclamar da falta de suspensão no garfo (para encarar as ruas esburacadas), da ausência das marchas e até mesmo do sistema usado pelo motor — muitos consumidores estão atrás da comodidade de um acelerador no punho para não cansar as pernas.

Por outro lado, se você é apaixonado por bicicletas, gosta desse visual vintage, preocupa-se com questões ambientais, ama fazer exercícios físicos e quer investir pesado em uma magrela elétrica para deixar a moto e o carro na garagem, a Vela 1 é uma excelente alternativa.