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Carta de um banqueiro aos empreendedores de fintechs

5 min de leitura

Por Paulo David - Colunista

Caros leitores,

O último artigo que escrevi sobre bancos vs. fintechs rendeu bastante discussão e excelentes conversas. Um grande amigo, ex-diretor financeiro de um banco aqui no Brasil e na África, conseguiu organizar ótimos argumentos discordando do meu ponto de vista. Para ele:

1. Os bancos estão repletos de gente ultraqualificada, com excelente formação e com profissionais bastante "atuais". Em resumo, a maioria das pessoas que tocam o banco não são "das antigas", se olharmos para a idade média dos engenheiros e técnicos, provavelmente, vamos encontrar a média de 40 anos, com 100% da vida profissional feita neste século, já com internet e smartphone. Há banco grande que sozinho tem mais engenheiros de dados do que quase todas as Fintechs do Brasil reunidas.

2. "A NASA continua sendo a NASA". Usando uma analogia bastante atual, ele menciona que a Space X até pode ter criado algo extraordinário, mas depende da NASA para operar. Assim, na visão dele, os bancos vão comprar um monte de empresas e se associar a empreendedores, em vez de desenvolver a solução dentro de casa. No final, sai mais barato para eles e com bem menos risco de dar errado.

3. Muito do "novo" é o "velho" com uma roupagem moderninha. Com muitos exemplos (que omito por razões óbvias), ele listou diversas fintechs e empreendedores que chamam o que fazem de "diferente" e “disruptivo”, quando na verdade criaram algo igual ao que já existia, apenas com alguns toques de modernidade e sem nenhum diferencial competitivo relevante ou inovação.

4. Os bancos têm lucros quase infinitos, têm raízes profundas no sistema sócio-político brasileiro, têm a força de grandes instituições, com dezenas de milhões de clientes, enorme massa crítica de dados, densidade intelectual e, obviamente, capital, além de serem imprescindíveis para fazer a economia rodar. São forças poderosas e que no Brasil fazem ainda mais diferença.

5. Os grandes bancos investiram horrores em tecnologia e trouxeram, por exemplo, o internet banking para todos os correntistas,  ou seja, quando não era moda, eles eram as fintechs.

Por fim, a frase que resume o raciocínio dele é sensacional: "bancos até podem ser como o plástico, mas porque se moldam e se adaptam a qualquer situação, existem (e vão existir) por séculos e continuam fundamentais para qualquer economia. Vejo bancos como plásticos sim, mas não fora de moda e sim flexíveis e se moldando como querem. E eles fizeram. Muito antes de fintechs existirem".

Uau!

Alguns cafés depois, me preparo para a batalha intelectual que me aguarda. Primeiro, preciso fazer um disclosure. Sou fã do cara, ele é inteligentíssimo e uma das mentes mais brilhantes que conheço. É sensacional poder discordar e debater temas tão profundos com alguém assim.

Segundo, como empreendedor de fintech, com certeza acredito demais na importância e relevância das novas empresas para o mercado financeiro e acredito que existe um espaço enorme que será ocupado cada vez mais pelas empresas inovadoras.

Terceiro, há sempre que separar o joio do trigo. Existem Fintechs sensacionais, disruptivas e impactantes, mas existem "shit companies"; assim como existem bancos bons e ruins. Eu concordo muito que (i) os bancos vão absorver grande parte das novas empresas, (ii) existe muito hype, fumaça e buzz ao redor das fintechs e (iii) bancos são relevantíssimos, tendo uma capacidade absurda de se adaptar e se transformar e quem os subestima é ingênuo.

Mas o principal pecado dos bancos foi negligenciar por muito tempo seus clientes. Simplesmente, a burocracia, a falta de foco, péssimo atendimento e produtos ruins criaram um distanciamento gigante e, em alguns casos, intransponível entre empresa e seus clientes.

O legado (a visão de sistemas enormes e complexos) e as amarras (regulatório, trabalhista, operacional) criam uma força que dificulta e muito a adoção de soluções rápidas e capazes de se adaptar às necessidades de um mundo em constante transformações.

Profissionais que são orientados por processos (e não em solucionar o problema de seus clientes), que estão mais preocupados com preservar seus trabalhos (do que em atender seus clientes), que não querem (ou não conseguem) se adaptar às transformações digitais são parte de uma cultura bancária extremamente difícil de mudar que conversa pouco com o que os clientes querem.

Da mesma forma, juros abusivos, taxas ocultas, letras miúdas, sites e aplicativos que não funcionam, atendimento repleto de gerúndio e a tentativa, quase que natural, de sempre tentar empurrar um seguro que você não precisa, um título de capitalização que você não quer são práticas tão comuns em alguns bancos que é difícil pensar em como eles sobreviverão sendo mais simples ou transparentes.

E por último, o ritmo de transformações no mundo é cada vez mais alucinante, toda hora surgem novas tecnologias e tenho dificuldade de ver os bancos se adaptando a todo momento. Imagina seu gerente te atendendo pelo TikTok?

Além disso, o termo "fintech" talvez já não valha mais como sinônimo para "startups de tecnologias que atuam no mercado financeiro". Hoje, grandes varejistas querem virar fintech. Gringos querem lançar suas fintechs no Brasil. Jovens querem montar a sua fintech. Grandes operadores do mercado financeiro e de capitais querem transformar seus negócios em fintechs. Tem até banco querendo virar fintech.

Em outras palavras, é muita pressão e novidade e, "se água mole em pedra dura, tanto bate até que fura", é difícil imaginar que a fortaleza dos bancos nunca será rompida. Pode não ser hoje, pode não ser nesta década, pode não ser por causa de uma fintech, mas acho que uma hora fura.

E, no tocante às fintechs, parece-me que ainda existe um longo caminho para as novas empresas se provarem no mercado. As fintechs, além de construírem grandes produtos, vão precisar comprovar que são viáveis, ou seja, rentáveis e que conseguem ser mais eficientes do que os incumbentes, trazendo inovação disruptiva para o mercado, algo que os bancos não conseguem copiar.

Caso contrário, ou os bancos terão tempo de se adaptar e desenvolver dentro de casa soluções iguais e melhores do que as oferecidas pelas fintechs, ou em breve veremos inúmeros deles envolvendo a aquisição de fintechs.

A única certeza diante desse cenário cheio de incertezas é que independente de quem sobreviver, quem ganha com essa insana competição é você, caro leitor, que pode ser cliente dos dois sem pagar mais por isso.

***

Paulo David, colunista do TecMundo, é fundador e CEO da Grafeno, fintech que oferece contas digitais e infraestrutura de registros eletrônicos para empresas e credores; sócio do SPC Brasil na construção de infraestrutura para o mercado financeiro. Antes da Grafeno, fundou a Biva, primeira plataforma de empréstimos peer to peer do Brasil, que foi adquirida pela PagSeguro, empresa de meios de pagamentos. Foi superintendente do Sofisa Direto, a divisão digital do banco Sofisa. Atuou na equipe do Pinheiro Neto Advogados e na da gestora de investimentos KPTL (ex-Inseed Investimentos). É investidor anjo em fintechs no Brasil e na Europa.

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