Não está fácil acompanhar o noticiário de videogames nos últimos anos. Qualquer pessoa que tenha carinho pelo hobby percebe como tudo está ruindo: lançamentos bem-sucedidos são “recompensados” com demissões em massa; estúdios históricos sofrendo fechamentos dramáticos; produtos e serviços ficando cada vez mais caros por conta da crise de componentes provocada pela IA generativa e seus data centers; entre outras coisas.
Sob esse contexto tão lamentável, Denshattack, do estúdio Undercoders, de Barcelona, surge como um farol reluzente e que nos lembra do motivo de termos nos apaixonado pelos videogames desde o início. É um jogo autêntico, divertido, recheado de carisma e que não tem medo de ser “esquisito” em um mercado com cada vez menos margem para riscos — e que sacrifica a criatividade dos seus desenvolvedores.
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A proposta do título é bastante inusitada, bebendo da fonte de vários jogos arcade da SEGA que marcaram o fim dos anos 90 e início dos anos 2000. Eu já havia sido fisgado pela ideia de realizar manobras radicais com um trem em alta velocidade após experimentar uma demonstração em fevereiro deste ano. Agora, testando a versão completa, vi um jogo muito seguro de si e que consegue surpreender ao longo de toda a sua campanha.
Estou convencido de que Denshattack é um dos lançamentos mais interessantes e imperdíveis do ano, e vocês conferem os motivos a seguir, na análise do Voxel. Vale lembrar que o game chega oficialmente nesta quinta-feira, dia 15 de julho, com versões para PC (Steam), PS5, Xbox Series X, Xbox Series S e Nintendo Switch 2.
Excêntrico, mas com um propósito
Denshattack é um jogo estruturado em fases, nas quais os jogadores podem realizar várias atividades secundárias e pontuar de acordo com a performance. Toda a ação é guiada por uma narrativa surpreendentemente engajante, ambientada em uma versão do Japão pós-crise climática — em uma distopia capitalista não muito distante da nossa realidade — e que forçou a população a viver em cidades-domo criadas por uma megacorporação chamada de Miraido. Desde que os cidadãos possam pagar por isso, claro.
Os trens se tornaram o único meio de transporte entre as cidades-domo, ao passo que a Miraido acumula tanto poder político que pode revogar a cidadania de indivíduos que tentam trafegar de outras maneiras. Seu discurso é muito duro, já que a empresa considera que tudo do mundo exterior é “contaminado”, inclusive as pessoas que não têm condições de viver nas cidades-domo.

Essa situação, aliada a um governo omisso, criou uma cultura marginalizada de trens nos trilhos fora das cidades-domo, assim como o surgimento de gangues que cuidam dos seus próprios territórios — e que querem o fim da Miraido. Sob esse contexto, os jogadores assumem controle de Emi Araki, uma entregadora de lámen muito habilidosa e que por acaso descobre a existência dos Denshattackers, interessando-se pelo movimento e desafiando líderes de gangue de todo o Japão para melhorar suas habilidades.
O jogo tem um elenco de personagens muito carismático, e é nítido que houve um empenho da desenvolvedora em construir um mundo rico em detalhes. Aqueles que completarem todos os objetivos das fases são recompensados com colecionáveis que mergulham ainda mais nas histórias de personagens, incluindo diálogos opcionais e uma fanzine que sempre recebe curiosidades sobre as regiões visitadas, histórias de origem de personagens-chave, a filosofia por trás de cada uma das gangues do jogo e muito mais.
Na prática, é uma história com uma apresentação simples, estilo visual novel, e que por vezes conta com cenas animadas curtinhas. Mas o nítido carinho da desenvolvedora ao confeccionar este mundo, envelopado por personagens bastante estilosos e participativos, faz desta uma grande característica de Denshattack. A qualidade realmente me pegou desprevenido, já que não aparentava ser um aspecto tão relevante nos materiais de divulgação do game.
Gameplay autêntico e com bastante profundidade
Quando Denshattack foi revelado em agosto do ano passado, uma das primeiras dúvidas que me veio à mente foi como um jogo cuja ação acontece inteiramente sobre trilhos seria variado e divertido o suficiente para sustentar uma experiência inteira. E bastam apenas algumas fases com o controle em mãos para embarcar nesta premissa, sem passagem de volta.
As pessoas costumam descrever Denshattack como um “Tony Hawk com trens”, tendo em vista que a locomotiva pode saltar e realizar várias manobras típicas do esporte para conseguir pontuação. Isso é verdade, mas eu prefiro compará-lo mais com um jogo ritmo: a satisfação ao superar obstáculos não é muito diferente da de acertar uma nota musical, e cabe ao jogador ter compasso e reflexos para atravessar os desafios.

Além disso, também é possível derrapar em curvas, deslizar sobre corrimãos e executar uma variedade comicamente gigantesca de manobras sobre o ar com o analógico direito. Existe até uma lista intimidadora de comandos, como se fosse um jogo de luta. Na minha experiência, não há problema em realizar vários movimentos erráticos no analógico: sempre vai sair uma manobra diferente. Só é importante prestar atenção na hora de aterrissar, já que a manobra só obtém êxito se terminar antes de tocar os trilhos novamente.
O jogo me conquistou mesmo ao introduzir, logo nas primeiras horas, uma mecânica que recompensa sequências de manobras. Ao encher uma barrinha no canto da tela, é revelado o Yaoyorozudo (八百万道, ou Miríade de Caminhos), uma mecânica que destrava rotas e mecanismos alternativos para acessar durante as fases. Isso engrandece significativamente o fator replay, liberando uma quantidade absurda de formas de atravessar os percursos. Eu sempre descobria algo novo a cada tentativa.

A partir desse ponto, Denshattack não cansava de me surpreender. Do início ao fim, o jogo sempre apresenta mecânicas novas e igualmente divertidas. Há, ainda, momentos em que o jogo subverte completamente nossas expectativas, sobretudo nos últimos mundos, com formas inusitadas e geniais de gameplay. Eu não quero entrar em detalhes para evitar spoilers, mas garanto que vale a pena.
Também vale mencionar as diferentes modalidades de estágios. Além dos percursos comuns, existem: corridas com voltas contra rivais; desafios de pontuação com manobras; percursos que são pequenos sandbox com diferentes objetivos malucos para serem concluídos; e claro, as batalhas contra os chefes — que são um show à parte.
Visuais e trilha sonora que coroam a experiência
Algo que também colabora muito para enriquecer a experiência de Denshattack é a sua apresentação — tanto visual quanto sonora. O jogo entrega gráficos estilo cell-shading para simular um anime tridimensional, resultando em cenários e objetos bastante coloridos e que saltam aos olhos. É tudo muito bonito e o mais importante: estável. Afinal de contas, é preciso garantir uma boa visibilidade e desempenho para superar os desafios do game.
Nem sempre o jogo conseguia o melhor ângulo para tornar elementos importantes do cenário legíveis, e imagino que isso seja corrigido em breve com atualizações. De qualquer forma, não houve nada que travasse ou frustrasse a minha experiência com o jogo neste sentido.
A trilha sonora também é uma grande característica do jogo. Eu já havia me interessado unicamente pelo fato de Tee Lopes ser um dos compositores principais do jogo. Ele é um dos meus compositores favoritos e também um nome bastante recorrente no mercado desde 2017, com participação na trilha sonora de títulos como Sonic Mania, Streets of Rage 4, Metal Slug Tactics, Marvel Cosmic Invasion, entre outros.
O estúdio Undercoders e a publicadora Fireshine Games também garantiram a participação de convidados incríveis, com destaque para uma música inédita de Takenobu Mitsuyoshi, da icônica trilha sonora de Daytona USA. Também vale mencionar nomes como Ryo Nagamatsu (Splatoon), Richard Jacques (Sonic R), Shoji Meguro (Persona), Kohta Takahashi (Klonoa), 2 Mello (Bomb Rush Cyberfunk), entre outros que ajudam a formar um elenco estelar.
Vale a pena?
Denshattack é uma ideia maluca muito bem-executada, despontando como um dos jogos mais divertidos e estilosos de 2026. Ele entrega um gameplay que transborda originalidade, introduzindo mecânicas variadas e cada vez mais interessantes do início ao fim da campanha. Tudo é embalado por um elenco de personagens encantadores, visuais lindíssimos e uma trilha sonora irretocável, estrelada por nomes como Tee Lopes e Takenobu Mitsuyoshi, de Daytona.
Ele peca em poucos detalhes, como o sistema de personalização de trens que é muito simples, algumas caixas de colisão desajustadas e a pouca legibilidade de alguns obstáculos. No entanto, todas as suas qualidades são tão gritantes que esses problemas podem ser relevados. Eu considero Denshattack um dos jogos mais imperdíveis do ano, especialmente caso você busque algo na vibe de títulos arcade da SEGA nos anos 90 e 2000.
Nota do Voxel: 95
Pontos positivos (prós):
- Gameplay divertido e que sempre introduz mecânicas ainda melhores;
- Visuais lindíssimos;
- Vários caminhos alternativos para descobrir nas fases;
- História interessante e com excelente pano de fundo;
- Personagens carismáticos;
- Trilha sonora irretocável.
Pontos negativos (contras):
- Baixa legibilidade de alguns obstáculos;
- Personalização de trens é muito simples;
- Algumas caixas de colisão desajeitadas rendem momentos estranhos.
Uma chave antecipada de Denshattack foi fornecida pela assessoria da Fireshine Games ao Voxel para a produção desta análise. O jogo chega oficialmente em 15 de julho para PC, PS5, Xbox Series e Nintendo Switch 2.
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