Far Cry 6 é mais do mesmo com uma pitada de evolução

9 min de leitura
Imagem de: Far Cry 6 é mais do mesmo com uma pitada de evolução
Avatar do autor

Já faz 17 anos que a Ubisoft lança Far Cry, que se tornou uma das franquias de maior sucesso da publisher francesa, junto de Assassin’s Creed, Tom Clancy e Watch Dogs. Quem conhece essa série sabe que não importa quem é o protagonista, em que cenário se passa ou o que vai dar para fazer no imenso mundo aberto; o que importa de verdade é o vilão.

Quando Far Cry 6 foi anunciado, chegou "chutando a porta" e colocando como antagonista Anton Castillo, interpretado por ninguém mais, ninguém menos que Giancarlo Esposito, que está acostumado a viver um cara malzão, como Gus de Breaking Bad e Moth Gideon de O Mandaloriano.

Dito isso, esse foi mais um capítulo da franquia que chegou a moldar a base dos mundos abertos de vários jogos, mas que para muitos estava caindo na mesmice. Será que a nova aventura conseguiu trazer novidades suficientes para tirar essa impressão? Confira também nossa análise em vídeo.

Desenvolvimento

Em Far Cry 6, joga-se com Dani Rojas, podendo escolher um protagonista homem ou mulher. Isso não muda a história, pois o que importa é viver um ex-militar que, por conta do regime ditatorial da família Castillo no arquipélago de Yara, quer fugir para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor.

Seus planos não dão muito certo, e ao tentar escapar da ilha acaba sendo interceptado pelo próprio Anton Castillo, que estava à procura do filho Diego. Esse exato momento do jogo mostra como a Ubisoft trabalha bem seus vilões, revelando que eles não são apenas caras maus querendo dominar o mundo, e sim personagens bem construídos e que às vezes são charmoso o suficiente para que as pessoas entendam seu lado ruim.

castillo

Após a tentativa fracassada de fugir, Dani acaba encontrando alguns membros de uma milícia de resistência chamada Libertad e sua líder, Clara Garcia. No início, o protagonista concorda em ajudá-los em troca de um barco para que ele cumpra seu objetivo de sair dali e ir para a terra do Tio Sam, mas com o tempo ele acaba se envolvendo demais com o grupo e passa a lutar pela liberdade de Yara.

Com certeza é mais um Far Cry  

Notou algo no plot? Você se lembrou de outro ditador meio maluco do mesmo universo de Far Cry? Tudo parece bastante com o que acontece em Far Cry 4, no qual também há um tirano com um parafuso a menos no poder (estamos falando de Pagan Min) e uma resistência que cativa o protagonista.

No início, o jogo está limitado à Ilha Santuário por conta de um bloqueio naval que prendeu a resistência. Então, antes de se aventurar por toda Yara, é preciso cumprir algumas missões que podem ser tratadas como um tipo de tutorial.

santuario

Durante essas atividades, o player é apresentado a algumas mecânicas do game, como gambiarras, captura de postos avançados e parças. Depois disso, é liberada a exploração de toda Yara, para recrutar mais membros para a resistência. Existem quatro zonas na ilha principal dominadas por comandados diretos de Castillo. Opa, opa! Já não vimos isso em algum lugar? Far Cry 5 não dividia o mapa assim? Cada região era comandada por um membro da seita de Joseph Seed…

Enfim, como estava dizendo, o mapa é dividido em quatro grandes regiões: Madrugada, Valle de Oro, El Este e Esperanza, a capital. Apesar de cada uma ser “dominada” por pessoas de confiança de Anton, elas têm pequenos grupos revolucionários que lutam pela libertação de Yara; em El Este, há as Lendas de 67; em Valle de Oro, o Máximas Matanzas; e em Madrugada, a família Montero.

Há referências claras a Far Cry 4 e 5, certo? E você achou mesmo que não teria nada de Far Cry 3? Há uma missão em que é preciso queimar plantações de viviro, exatamente como em uma das quests do terceiro capítulo da franquia, só que lá devia-se queimar uma planta, vamos dizer, mais diferentona.

viviro

Só para situar quem está lendo, viviro é uma substância jogada nas plantas de tabaco e que, segundo o plot do jogo, pode ajudar no tratamento contra o câncer, sendo esse o principal produto de exportação de Yara.

Apesar de o jogo sugerir ao jogador começar em Madrugada, tentando recrutar a família Montero, dá liberdade para começar onde preferir e fazer tudo em qualquer ordem. Esse é um dos pontos legais que a franquia oferece: total liberdade para fazer a missão que quiser, na hora que quiser e como quiser. Se seu estilo é chegar chutando a porta e explodindo tudo, o jogo não o pune por isso; se quiser agir na surdina e matar todo mundo sorrateiramente, você também será bem-vindo.

Do LIXO ao LUXO

Vamos falar de uma das coisas mais presentes de Far Cry 6: a customização. No game, é possível modificar todas as armas. Tá afim de um arco e flecha com dano de veneno? Tá na mão. Uma metralhadora leve com tiros explosivos? Fácil. Um lança-fogos de artifícios capaz de explodir uma arma antiaérea? Brincadeira de criança.

Far Cry 6 eleva toda a liberdade dos jogos anteriores a outro nível. Isso sem contar as gambiarras, que são ferramentas construídas a partir de porcarias encontradas na ilha; graças a Juan Cortez, que é praticamente o MacGyver, dá para transformar lixo em armas diferentonas, dando ao jogo um toque de originalidade, já que pode-se contar armas de raios incapacitantes, snipers com tiros de adesivos que explodem, metralhadoras giratórias e outras coisinhas mais para apimentar os tiroteios.

armas

E não dá para reclamar de quantidade. O jogo oferece 53 armas personalizáveis, sem contar as especiais, que têm atributos secretos (mas não podem ser customizadas). Além desse arsenal, Dani pode usar o Supremo, um tipo de mochila especial que garante uma forcinha extra, podendo ser focada em cura, ataques de pulso eletromagnético, rajada de foguetes perseguidores… tem para todos os gostos de gameplay, basta escolher uma e pronto.

E nem citamos a customização do carro, que pode ser equipado com metralhadoras antiveículo, lançadores de minas e granadas e um parachoque sinistro para arrebentar o que estiver pela frente.

Mas não pense que vai estar tudo assim, de bandeja, desde o início do jogo. É preciso subir no ranque da resistência para ganhar autorização para fazer gambiarras e acessórios para as armas comuns. Além disso, quanto mais se avança no jogo, mais soldados de elite são espalhados pelo mapa, por isso é bom estar bem preparado.

Muita coisa para fazer

Yara é como um grande parque de diversões, com muitas atividades. O que para alguns é uma tentação, para outros pode se tornar um tanto cansativo. O player pode passar um tempo jogando dominó, fazendo corridas de veículos como jetski e quadriciclos, pescando, procurando tesouros e colecionáveis, enfim, uma infinidade de passatempos que vão proporcionar mais e mais itens cosméticos, como amuletos para pendurar no carro e nas armas, novas cores de armas e veículos etc.

Porém, existem atividades extras que se destacam, como a rinha de galo, um mini-game de luta que consiste em colocar dois galos na porrada estilo Street Fighter, com barras de vida, especiais e tudo mais. Também são legais as Operações Especiais da Lola, missões em que se deve invadir um posto de guarda, roubar um tipo de bomba e sair sem deixar que ela exploda com o calor das mãos. E as operações de Los Bandidos, em que se deve selecionar um grupo para fazer algumas missões com opções de desfechos que podem garantir uma boa grana ou itens.

galo

Quer mais? Tem como montar e evoluir as bases para poder garantir melhores armas e equipamentos nos alojamentos, buffs especiais com a comida na cantina ou até ganhar a wingsuit montando a rede de abrigos. Sem contar a busca pelos parças, que são animais que podem acompanhar as missões e funcionam como um suporte, atacando os inimigos ou os distraindo — tipo o Chorizo, que é a coisa mais fofa desse mundo.

Não podemos nos esquecer de citar a trilha sonora, que combina demais com a ambientação do jogo, que é baseada em Cuba. Enquanto se anda por Yara, algumas rádios tocam músicas latinas cheias de malemolência, inclusive algumas bem famosas, como “Havana” de Camila Cabello e “Oye Como Va” de Santana.

Enfim, por mais que Far Cry 6 reutilize muito dos jogos anteriores, sempre dá um jeito de evoluir sua gameplay, mesmo que seja um pouquinho.

O outro lado da moeda

Você já deve ter percebido que até agora só falamos das partes boas que experimentamos, mas toda moeda tem dois lados, então está na hora de falar das coisas que desagradaram.

Uma delas é que, apesar de ter momentos bonitos, o título está bem aquém do que é possível fazer na nova geração. Jogamos em um PlayStation 5, mas não tivemos um momento “UAU” em relação aos gráficos. Pelo contrário, não achamos nada longe do que vimos em Far Cry 4 ou 5 na geração passada, mesmo baixando o pacote de texturas para a nova geração que veio com o jogo. E isso é uma pena, pois a ambientação caribenha oferece muitos elementos interessantes para explorar graficamente.

Existem alguns bugs inocentes, como ver o cavalo voando na estrada, mas existem bugs mais sérios, como ficar preso em uma torre porque o personagem que está junto na missão simplesmente não se move. Ou aquele velho clássico: atravessar o chão e cair no infinito, sendo obrigado a dar um loading. Esse último aconteceu duas vezes durante nossas mais de 36 horas de jogatina.

bug

Outro ponto: existe certa repetição exagerada de NPCs. Se andar por lá, dá para encontrar o mesmo modelo de personagem para conversar quase sempre, e não é só um daqueles que está andando na rua, são NPCs que falam com o protagonista e dão informações sobre locais onde atacar. Poderiam dar uma variadinha melhor aqui, não é?

Mas o que mais incomodou foi a clara queda de performance do jogo nas cutscenes. A taxa de quadros cai abruptamente e parece dar pequenas travadas, como se estivesse rodando o jogo em um PC fraco demais para aguentar as configurações — o que não foi o caso. É importante deixar claro que jogamos 1 semana antes do lançamento oficial, e a Ubisoft já informou que haverá um patch de Day One que vai corrigir alguns problemas. Esperamos que arrumem esse, pois tira um pouco da imersão de assistir às cenas que em sua grande maioria são bem legais.

Vale a pena?

Para deixar claro: eu sou fã da franquia Far Cry, um dos que defendem de verdade o que ela já trouxe não só para a série, mas para toda a indústria. E posso classificar Far Cry 6 como um dos melhores jogos que joguei em 2021. Mas sabemos que este ano não teve uma safra incrível até agora. Usando uma frase do chef Erik Jacquin: "faltou o 'tumpero'", aquele último toque para refiná-lo e deixar realmente incrível.

Nem de longe é um game ruim; pelo contrário, é ótimo! Conta com uma gameplay evoluída quando comparado com seus antecessores, tem Giancarlo Esposito, que faz um excelente trabalho como antagonista, mantendo a marca registrada da franquia com grandes vilões, uma infinidade de opções de customização, uma história que pode não ser tão cativante ou mexer com questões tão polêmicas quanto a do Far Cry 5, mas é bem contada. E o fato de poder jogar a campanha inteira em coop com um amigo é maravilhoso.

Mas o jogo deixa muito a desejar na parte visual, levando em consideração que já estamos em uma nova geração de consoles. E sofre de uma maldição que a Ubisoft tem já faz gerações: bugs bestas, que realmente atrapalham a jogatina. Depois do patch de Day One deve melhorar, mas é bom falar sobre isso. Nossa nota é 88.