Outriders surpreende com mecânicas de tiro e poderes divertidos

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Outriders não é o melhor jogo em nada do que faz. Ele não é o melhor RPG, não é o melhor jogo de ação, não é o melhor looter, e certamente não tem a melhor história de ficção científica que você encontrará nos videogames. Ainda assim, a união de suas mecânicas é estranhamente cativante. Entenda essa aparente contradição no nosso review completo a seguir!

Um jogo maior que a soma de suas partes

Quando testamos o jogo pela primeira vez lá em fevereiro de 2020, apontamos que ele ainda tinha muita coisa a provar, e que as mecânicas desenvolvidas pelo estúdio polonês People Can Fly (responsável por Bulletstorm e Gears of War: Judgement) ainda estavam muito cruas, sem dar muita liga. No meio tempo, deu para ver que o seu projeto foi tão polido que acabou se tornando algo bem divertido e coeso.

O grosso da experiência de Outriders consiste em sessões de tiroteio correndo de um murinho até o próximo, o que obviamente não é novidade alguma em abril de 2021, data em que o jogo chegou ao PC, PS5, PS4, Xbox Series e Xbox One, mas há peças o bastante em movimento para garantir que os fãs de ação encontrem bons motivos para gastar algumas dezenas de horas explodindo inimigos no fictício planeta Enoch.

O maior atrativo aqui é o sistema de classes e poderes únicos atrelados a cada uma delas. Pouco depois do breve tutorial você já pode escolher se o seu personagem será um Trickster (um assassino bom em bater e correr), Pyromancer (mais focado em ataques de fogo), Devastator (que faz mais o papel de tanque) ou Techomancer (com ataques tecnológicos à distância). Uma vez feita a escolha, é preciso seguir com ela até o fim, então escolha sabiamente!

É uma pena não poder fazer a troca, já que vale a pena experimentar todas elas. O ritmo das lutas e o estilo de jogo mudam drasticamente de acordo com a classe escolhida, e todas elas possuem árvores de habilidades com mais benefícios e poderes especiais para desbloquear conforme você sobe de nível. O auge da diversão em Outriders acontece justamente quando você enfrenta grandes hordas de inimigos e precisa gerenciar bem os seus cooldowns dos diferentes poderes para poder superar as arenas.

Lootear é preciso

É ótimo que os poderes de Outriders funcionem tão bem assim, já que o seu sistema de loot é um tanto derivativo e sem inspiração, servindo apenas de pretexto para você ver o seu personagem mudar de aparência e armas ao longo da campanha. Como esperado, o loot é dropado de forma incessante, quase como acontece nos melhores Diablo e Borderlands da vida, mas o fato é que os itens não importam tanto quando o bom uso de seus poderes.

As armas e armaduras são todas separados em diferentes tiers de raridade e obviamente possuem atributos próprios, como diferentes capacidades no pente de munição, taxa de disparo e dano causado, então o que você realmente precisa fazer é pensar em quais armas encaixam melhor com seus poderes passivos e ativos.

Por exemplo, em minha primeira campanha eu joguei como Pyromancer, e meu poder favorito fazia todas as minhas balas pegarem fogo até que eu recarregasse a arma. Obviamente esse poder não era muito adequado a um rifle de longa distância com apenas uma ou duas balas no pente, mas caía como uma luva para uma metralhadora com 150 balas por pente, aumentando drasticamente o dano de cada uma delas.

Após cinco ou seis horas de progresso na campanha o sistema ganha um pouco mais de complexidade ao resgatarmos o Dr. Zahedi, um camarada que nos ajuda a reciclar nossas armas em troca de materiais que podem ser usados para aprimorar outras peças de equipamento. Assim, o meu estilo de jogo progrediu para algo muito mais focado em colher e reciclar tudo o que eu achava pelo caminho, e então fortalecer meus itens favoritos.

Alternativamente, também é possível visitar lojas para vender os itens que você não pretende equipar e então adquirir outros de maior qualidade. Acaba não valendo tanto a pena fazer isso, já que você é premiado com boas armas e armaduras sempre que conclui alguma das dezenas de missões paralelas espalhadas pelo mapa, pegando gratuitamente itens ainda melhores.

RPG aonde?

Chega a ser engraçado pensar que a Square Enix vende Outriders como um jogo com pitadas de RPG, já que seus elementos de role play são... mínimos, para ser generoso. No começo do jogo você pode criar o seu próprio herói, determinando se ele será homem ou mulher, e então escolhendo entre meia dúzia de cortes de cabelo e modelos de cicatrizes.

É muito pouco, mas as coisas ainda pioram: independente de como você jogar, a história e missões sempre se desenrolam da mesma forma, pouco importando a personalidade que você gostaria de ter no mundo. Os raros diálogos ramificados não apresentam escolhas nem quaisquer vestígios de um sistema de moral, limitando-se a trazer um pouco mais de lore ao jogador conforme ele conversa com os NPC.

Não ajuda em nada que a sua recompensa seja uma trama bastante previsível, alternando clichês dos blockbusters de ação e ficção científica. Basicamente os humanos pisaram na bola e tiveram que abandonar a Terra, e a última esperança da espécie, o planeta Enoch, não era exatamente o paraíso prometido.

As missões paralelas são ainda mais clichê hollywoodiano, consistindo em momentos como ajudar um soldado à beira da morte a reconectar os fios do explosivo que ele estava instalando, para então voltar até ele e vê-lo realizar a detonação, apenas para o valente guerreiro morrer dramaticamente um segundo depois de realizar seu último sonho.

Como fã do cinema de ação dos anos 1980, não me incomoda ver um festival de falas de efeito e arquétipos batidos, mas o fato é que um épico espacial sempre abre espaço para questionamentos legais, e o jogo não tira proveito algum disso. Mas uma vez que você aceita essas limitações e para de esperar que Outriders seja um RPG denso, a aventura flui melhor como um jogo de ação descerebrado.

Grata variedade

Sem quaisquer elementos de PvP para motivar os jogadores a continuarem jogando no longo prazo, o game aposta todas as suas fichas no PvE. É absolutamente possível terminar a campanha inteira jogando sozinho, mas é recomendável ao menos experimentar o modo cooperativo online, onde você pode se unir a até mais dois jogadores para passar das mesmas fases e missões. Felizmente há crossplay entre todos os sistemas.

Outriders acaba ficando consideravelmente mais fácil se jogado ao lado de amigos, especialmente quando você precisa encarar alguns chefões mais na linha "esponja de balas". Aliás, o jogo apresenta uma variedade de inimigos e desafios muito digna, o que talvez seja a principal motivação para desbravar toda a sua campanha e missões do endgame.

Você vai encarar tanto inimigos humanoides como criaturas exóticas alienígenas, e cada tipo de adversário possui um padrão de comportamento diferente. A mistura deles gera ótimos segmentos de ação, especialmente do meio da campanha em diante, quando você vai precisar lidar ao mesmo tempo com snipers de longa distância e hordas de vorazes inimigos buscando ataques corpo a corpo.

Às vezes é preciso gerenciar muito bem a sua troca de armas e poderes, pois você pode ter, em um canto da tela, inimigos disparando ataques venenosos, enquanto uma criatura mais tanque causa devastadores ataques de alto dano. É melhor acabar primeiro com o inimigo mais poderoso ou cortar logo os rivais pequenos e fracos que causam inconvenientes status negativos? Não existe uma só resposta certa, e é isso que torna a ação de Outriders tão instigante.

Os encontros com chefes são um pouco mais raros, mas igualmente marcantes e divertidos. Como eles são inimigos bem mais fortes, aqui você precisa calcular a hora certa de usar os seus poderes de classe a fim de cancelar seus ataques. Se estiver com os cooldown zerados, o jeito é correr para longe e tentar escapar das marcas no chão que indicam a área exata que será impactada por seus ataques.

Há ainda alguns encontros especiais contra criaturas gigantescas e maiores do que a tela de jogo, como o épico chefão Chrysaloid, mas via de regra as lutas acontecem contra inimigos do seu tamanho em arenas bem projetadas, onde é preciso ter um bom domínio de seus arredores para saber onde, quando e onde se proteger quando for necessário.

É especialmente legal o sistema de World Tier, ou Grau do Mundo, que cria uma dificuldade dinâmica. Trata-se de uma barra que corre em paralelo com o seu medidor de nível, com a diferença de que ela pode crescer ou encolher de acordo com o seu desempenho. Quanto melhor você jogar e quanto menos você morrer, mais difícil o jogo fica. São mais de 15 níveis para desbloquear, o que é um bom motivador para os jogadores mais hardcore!

A ingrata obrigatoriedade da internet

Se você leu a análise até aqui, deve ter percebido que nenhum dos elementos citados remete a algo que poderia exigir uma conexão constante com a internet, certo? No entanto, o fato é que você não poderá jogar Outriders caso a internet de sua casa caia ou o servidor do jogo esteja offline.

Mesmo que você não queira jogar online com amigos ou estranhos, a conexão é obrigatória, uma escolha de design no mínimo questionável e que foi agravada por um servidor bastante instável na semana de lançamento, quando milhares de jogadores tentaram acessar o título ao mesmo tempo sem sucesso.

Teoricamente isso foi feito para evitar trapaças e uma coleta desproporcional de itens mas, em um jogo que não possui quaisquer opções de modos competitivos, o quanto importaria jogar ao lado de trapaceiros? Fica a torcida para que a People Can Fly aplique um patch e permita jogar offline no futuro, já que o seu shooter funciona muito bem em campanhas solo.

Veredito

Se você ignorar as altas pretensões de Outriders, encontrará um TPS muito divertido, com uma sólida campanha de pouco mais de 20 horas e boas missões para seguir jogando depois sozinho ou online com os seus amigos. Por baixo do inventário e loot estilo Destiny e do sistema de cobertura inspirado em Gears of War se esconde um grande jogo com poderes muito divertidos, boa variedade de inimigos e armas gratificantes de disparar. Um título sob medida para os fãs de ação!

Nota Voxel: 82

Pontos positivos

  • Tiroteio frenético muito inspirado
  • Boa variedade de poderes especiais
  • Ação cooperativa simples e divertida
  • Inimigos diversos e instigantes

Pontos negativos

  • Exigência de conexão online constante
  • Trama clichê
  • Mecânicas rasas de RPG

Outriders é muito divertido como um jogo de ação frenética, mas deixa a desejar como looter e RPG.

Outriders surpreende com mecânicas de tiro e poderes divertidos