Yakuza: Like a Dragon prova que reinvenção não é defeito

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Eu particularmente só fui conhecer a série Yakuza há mais ou menos cinco anos, pois tinha a sensação que seria apenas um tipo de GTA, só que com a máfia japonesa - não que isso fosse ruim, mas não é meu tipo de jogo favorito.

No fim das contas, acabei dando uma chance e tive alguns problemas com a jogabilidade travada da época, afinal o primeiro game é de 2006 e o segundo de 2008. Mas meus amigos, a história me fisgou de uma forma impressionante, com uma trama sobre honra e princípios, e um personagem cheio de personalidade e cativante, Kazuma Kiryu, nosso eterno Dragão de Dojima.

Daí viciei de um jeito que devorei todos os outros games da série, me perdendo em um mundo bizarro cheio de minigames, quests hilárias que envolviam desde mafiosos que curtiam agir como bebês a ajudar uma dominatrix que não sabia se impor, tiradas cômicas, momentos emocionantes e personagens magníficos.

E como qualquer fã fissurado por uma franquia, quando Yakuza Like a Dragon foi anunciado, e até rolou aquela “brincadeirinha” no 1° de abril  de que seria um RPG por turnos (que no final das contas se concretizou), fiquei muito apreensivo com a mudança tão brusca de estilo e de protagonista, e mesmo sendo fã desse tipo de combate, achei que sentiria muita falta de poder andar por aí e descer a porrada com grande estilo nos inimigos.

Então, se ficaram curiosos para descobrir se meus medos estavam certos ou não, e até saber mais sobre o game e tentar tirar suas próprias conclusões, então preparem para arrancar seus ternos, exibir as tatuagens e venham conferir a nossa análise do Voxel!

Um herói comum do submundo

Yakuza

Dessa vez nosso protagonista é Kasuga Ichiban, um rapaz nascido e criado em uma “casa de banho para maiores” que se torna capanga da família Arakawa, não sendo nem de longe tão prestigiado e imponente como Kazuma, mas que tem um imenso respeito e adoração por seu patriarca, que o tirou de uma enrascada e o acolheu quando era um jovem delinquente e sem amparo.

Yakuza

Como todo bom Yakuza, o início do game já começa com desgraça, por ter essa grande sensação de débito e honra pelo chefe, o rapaz assume a culpa de um assassinato e passa 18 anos na cadeia. Quando ele finalmente sai, esperando receber as boas-vindas calorosas de seus antigos aliados, ninguém aparece. Kasuga então se vê totalmente abandonado em um mundo que mudou muito em suas quase duas décadas na prisão, com a situação apenas piorando ao ponto de ser traído e até mesmo baleado pela pessoa na qual mais confiava.

A jornada deste herói então começa de verdade após ser largado para morrer em um lixão em Yokohama, com a sorte sorrindo ao seu favor quando é resgatado pelo sem-teto Nanba, que passa a ser seu primeiro amigo e companheiro em sua nova jornada.

Ichiban terá que recomeçar mais uma vez e dessa vez totalmente sem lar, recursos e até então sem muito amparo, pelo menos por enquanto.

Os humilhados serão exaltados

Diferente dos outros jogos da franquia, o game já mostra desde o início que o protagonista difere e muito de Kiryu, pois não existia nenhum desafio que o Dragão de Dojima não conseguisse superar.

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Ichiban começa sua saga totalmente desolado e sem nenhuma perspectiva, mas mesmo assim não abandona seu senso de justiça e nem sua vontade de se tornar um herói (deixando bem claro desde o início do jogo seu imenso amor por Dragon Quest) para fazer o bem pelo mundo. Essa nova abordagem faz com que o jogador tenha um carinho muito grande por este quarentão atrapalhado desde o começo, e quando você menos espera, já está torcendo por ele, o que é um sentimento muito legal de se ter em uma jogatina.

Yakuza

Com esse grande carisma, o ex-yakuza atrai pessoas para a sua equipe quando menos espera, com figuras como Nanba, o sem-teto que antes era um enfermeiro, o ex-detetive Adachi e a ex-bartender Saeko, gravitando em torno de sua personalidade honesta e cativante.

E é aí que vemos mais uma diferença de seus predecessores, em Yakuza Like a Dragon vamos aprendendo mais sobre os indivíduos ao nosso redor, como todos eles passaram por maus bocados e tem algo para ensinar. Além disso, a trama que envolve a cidade de Yokohama mostra os problemas causados por brigas entre máfias e assuntos muito pesados como a vida cruel e triste de moradores de rua, profissionais do sexo e criminosos, além de seus sonhos e, em alguns casos, total falta de esperança por um futuro melhor.

Um herói sem seus companheiros não é nada

Yakuza

Os elementos de RPG e as citações de Dragon Quest tornam o sistema de combate do título totalmente diferente de seus antecessores. Nosso protagonista conta com um sistema chamado Human Power, parâmetros de personalidade que envolvem características com gentileza, estilo, paixão, inteligência, entre outros, e que ao serem aumentados através de minigames, opções de diálogos e lendo livros oferecem resistência contra certos debuffs.

As batalhas são bem intuitivas e por turnos, sendo possível utilizar ataques básicos, habilidades especiais com seu MP, e até mesmo gastar dinheiro para invocar Summons com seu celular, que são chamados de Poundmates, uma grande vibe Final Fantasy, mas de uma forma muito irônica e engraçada, incluindo ataques de lagostas, galinhas ou até um yakuza vestido de bebê.

Contudo, o lado inusitado não para por aí. As “magias” do mundo real incluem uma revoada de pombos, bafejar fogo nos inimigos usando cachaça barata e um isqueiro e até mesmo um canhão congelante de champanhe.

Além disso, a imaginação fértil de Kasuga faz com que os inimigos e aliados mudem de aparência na hora da luta, ganhando armaduras, vestindo sacos de lixo e até mesmo uma versão hilária de pervertidos que usam apenas cueca e sobretudo e atacam dando “bundadas”.

Temos outros elementos básicos também, como certos tipos de ataques sendo mais fortes ou totalmente ineficazes dependendo da fraqueza ou resistência dos vilões. Por isso, é bem importante identificar os padrões dos adversários e também aproveitar as chances de derrubá-los para causar mais dano.

Ver uma aventura de role play completamente adaptada para o cotidiano é engraçado e interessante demais, sendo uma excelente sacada para aproveitar tudo o que o estilo pode oferecer sem perder a sensação que a série Yakuza trouxe até aqui.

Em si, o novo sistema é bem fácil de entender, porém, demora um pouco para o jogo introduzir todas as mecânicas disponíveis, como é o caso da opção de criar e reforçar armas e equipamentos e o sistema de Jobs - literalmente trabalhos que nossos personagens podem aprender e que oferecem diferentes tipos de golpes dependendo de suas aptidões e sexo, podendo incluir funções como Idol, Cozinheiro, Xamã e muito mais. E caso você não goste de uma profissão, sempre dá para voltar para antiga, o único problema é que isso requer voltar até a agência Hello Work todas as vezes para trocá-la.

Outra coisa bem legal de Like a Dragon é que temos algo bem parecido com os Social Links de Persona, aqui chamado de Bonds, trazendo histórias dos membros da nossa party. É muito recompensante ver as diferentes personalidades do nosso grupo de azarões interagindo, as dificuldades que eles passaram e os laços que vão se formando conforme avançamos, o que traz uma profundidade muito maior ao mundo do game.

Trabalhar é preciso, e se divertir também!

Infelizmente, até um herói com as melhores das intenções necessita de dinheiro para alimentar a si mesmo e seu grupo, além de precisar de equipamentos e armas melhores para combater o mal que assola sua cidade.

Yakuza

Para sorte de Ichiban e seus amigos, uma boa forma de conseguir uma graninha é realizar todas as missões disponíveis no Part-time Hero, que consistem em tudo que um grande salvador deve fazer: proteger cidadãos desafortunados de figuras mal-intencionadas, tirar fotos de estátuas, resgatar gatinhos fujões e até conseguir papel higiênico para alguém preso em um banheiro público no meio de um parque (uma quest super heróica não?).

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E para quem quiser mostrar que é bom de administração, o Company Management é um simulador de empresa que dá ao nosso protagonista a árdua tarefa de ajudar uma loja de biscoitos a evitar a falência, sendo preciso conquistar funcionários, enfrentar acionistas em uma espécie de jogo de cartas e ainda por cima nos traz uma aliada inusitada para combates, a galinha Omelete.

Os dois recursos são muito divertidos e engraçados, sendo excelentes para juntar um “pé de meia” polpudo para nossos eventuais gastos dentro do jogo.

Yakuza

Mas nem só de trabalho vive um homem, aprender também é muito importante! E é aí que entra a Vocational School, uma instituição na qual nosso ex-mafioso pode realizar testes de proficiência variados e aumentar seus atributos, afinal o carisma é importante, mas o aprendizado pode te levar mais longe, não é mesmo?

Mas vale lembrar que cada prova não é barata e tem um tempo cronometrado para responder as perguntas, então não se esqueça de juntar todo seu conhecimento sobre os mais diversos assuntos, ou ficar com o celular apostos para não tirar nota vermelha.

Depois dos estudos, nada como relaxar e se divertir com ótimos minigames mais tradicionais como karaokê, dardos e Pachinko, ou até mesmo enfrentar ovelhas do sono no cinema de filmes antigos de Yokohama, competir com sem-tetos para coletar a maior quantidade de latinhas no melhor estilo Velozes e Furiosos, ou enfrentar os melhores motoristas da cidade no Dragon Kart, uma espécie de corrida bem parecido com Mario Kart, mas com toda a excentricidade que só a série Yakuza pode trazer.

E falando em inspirações em outros games e muita bizarrice, agora você terá um motivo muito importante para enfrentar todos os valentões que aparecerem na sua frente, completar a sua Sujidex: uma “enciclopédia” muito parecida com a Pokédex, mas no lugar de Pokémon, você coleta informações sobre figurões perigosos para o Professor Sujimon, um cara tão estranho quanto o próprio pedido. Então pode cair na porrada e não se esqueça que “temos que pegar!”.

Dá para ver por tudo que citei acima que Like a Dragon pode render diversas horas de muito divertidas de jogatina com todos os seus recursos, e vale a pena explorar tudo que a Ryu ga Gotoku trouxe para o título, seja melhorando seu cart, aprendendo mais sobre as pessoas da cidade, sendo louvado por seus companheiros ao tirar uma nota alta em uma prova ou soltando a voz com seus companheiros no bar. É um mundo extremamente rico e que merece ser conhecido!

Vale a pena?

Yakuza Like a Dragon também tem seus problemas, como as câmeras que travam em alguns momentos do jogo e alguns bugs em batalha que chegam ser hilários, mas nada disso ofusca a experiência incrível que ele tem para oferecer.

A troca do estilo beat ‘em up pode ter deixado muitos fãs receosos, mas a mudança para a mecânica de RPG por turnos deixou o game ainda mais incrível, pois traz ainda mais profundidade para a história, e ter um grupo de azarões lutando por seus ideias nos faz torcer cada vez mais por eles, porque encontramos um pouco de nossa própria vivência e problemas em sua jornada.

Além disso, a trama dessa vez foi muito intensa, iluminando os cantos obscuros da sociedade que muitas vezes não queremos ver ou optamos por ignorar, e mesmo com muita emoção, rende diversas gargalhadas.

Eu fui completamente surpreendido pelo sétimo título desta franquia, que veio para mostrar que às vezes é bom mudar as coisas, recomeçar e construir uma nova realidade.

Yakuza Like a Dragon foi gentilmente cedido pela Xbox pare realização desta análise.

Nota: 95

“Yakuza Like a Dragon é uma experiência viciante, com um herói atrapalhado e carismático que promete ganhar o coração de muitos jogadores”

Fontes

Yakuza: Like a Dragon prova que reinvenção não é defeito