O eSport cresceu muito nos últimos anos, chegando a surpreender quem acompanhou de perto a febre dos games competitivos. Se antes as seletivas de eventos como a World Cyber Games — a Olimpíada dos games — eram realizadas em lan houses e shoppings centers, hoje os grandes torneios brasileiros seguem para os estádios de futebol.

Daquela época das primeiras rivalidades para vestir a camisa do Brasil, poucos poderiam falar com o mesmo impacto de Bernardo “PaTo” Rodrigues, um dos poucos jovens brasileiros que puderam sair do país no início do eSport e competir contra as maiores lendas do Warcraft 3.

Bernardo jogou pela equipe europeia mTw, viajou por três continentes para competir e conquistou títulos importantes quando ainda pouco se pensava em jogar video games profissionalmente.

Hoje aposentado e ainda ligado no mundo efervescente das competições, ele contou ao BJ um pouco de sua experiência na época, sua rotina de treinos e a emoção de enfrentar as maiores mentes do mundo. Mas ele não se esquece de comentar as diferenças do eSport antigo para o atual, as saudades das rivalidades de lan house e a incessante vontade de voltar a competir.

PaTo em viagem ao escritório da Blizzard, nos Estados Unidos

BJ: Olá Bernardo! Antes de mais nada, gostaria que você apresentasse ao público do Baixaki Jogos um pouco da sua carreira no mundo dos games e das competições.

Bernardo “PaTo” Rodrigues:  Olá a todos do Baixaki Jogos! Meu nome é Bernardo “PaTo” Rodrigues, tenho 25 anos, sou ex-jogador profissional de Warcraft 3 e possuo alguns títulos na carreira, tais como o tetracampeonato da ESWC Brasil, o bicampeonato da WCG PanAmericana e outros.

BJ: Você já jogou contra grandes nomes do Warcraft 3 mundial, como Manuel "Grubby" Schenkhuizen, Jae Wook "Lucifer" Noh e Olav "Creolophus" Undheim. Qual era a maior dificuldade que você sentia ao enfrentar essas grandes estrelas?

Bernardo: No Warcraft 3, cada erro mínimo podia ser considerado fatal, e os jogadores do topo raramente erravam. Eles tinham uma frieza excepcional na hora de tomar decisões no meio do jogo e um psicológico forte nos campeonatos.

Quando treinava com eles, eu via que tinha condições de bater de frente sempre, mas acho que não era preparado como eles. E enfrentei muitos problemas com lag na época, já que a internet do Brasil era muito pior do que hoje em dia.

BJ: Você já jogou em uma das grandes organizações europeias da época, a mTw, e também era chamado para competir em grandes torneios. Como era sua rotina naquele período?

Bernardo: Dependia muito da motivação, sinceramente. Havia torneios em que estava muito “pilhado”, como o da BlizzCon 2007, em que apenas os seis melhores da "ladder" se classificavam.

Jogava uma média de oito horas por dia, e ficava sempre atento no ranking para conferir se ainda estava entre os seis primeiros. Mas geralmente eu jogava uma média de quatro horas por dia, conciliando o Ensino Médio, que era a prioridade na vida (apesar de levar um pouco nas coxas como qualquer nerd viciado, hahaha!)

BJ: O que você mais valorizava durante seus treinos?

Bernardo: O que mais vejo nas pessoas que querem se tornar profissionais hoje é que não pensam muito depois de cada derrota, apenas apertam o botão de jogar novamente e não analisam o que erraram. Isso era primordial no Warcraft 3. Muitas vezes um treino de duas horas poderia render mais do que um de seis caso se analisasse o porquê de perder e ganhar cada jogo.

PaTo ao lado de outros grandes nomes do Warcraft 3 internacional durante a KODE 5 em 2008. Grubby, XyLigan e Neytpoh (da esquerda para a direita)

BJ: Como era a sua preparação mental para enfrentar um jogador famoso ou entrar em uma grande competição como a World Cyber Games ou a KODE5?

Bernardo: Eu tentava focar o pensamento que podia derrotar qualquer um, que se jogasse o meu melhor jogo e estivesse num bom dia ninguém iria ganhar de mim. Mas na teoria é muito fácil, e na hora é muito complicado manter o foco e a calma. Diria que isso faz um jogador mediano com um bom preparo mental derrotar muitos jogadores excepcionais desestabilizados, e vi muito disso na época em que jogava.

BJ: O Brasil teve excelentes representantes da raça Night Elf, como você, o Rodrigo “MysT” Martins e o Carlos Leonardo “Levin” Cruz. O que mais te agradava nessa raça?

Bernardo: Acho que Night Elf era a raça com o maior leque de estratégias no Warcraft 3, e por isso podia surpreender o oponente sempre. Quase todos os heróis da taverna eram viáveis para a raça.

“O que mais vejo nas pessoas que querem se tornar profissionais hoje é que não pensam muito depois de cada derrota, apenas apertam o botão de jogar novamente e não analisam o que erraram.”

BJ: O Warcraft 3 continuou vivo até o fim da World Cyber Games em 2013 e ainda leva grandes competições na China atualmente, mas as seletivas brasileiras da WCG acabaram em 2008. O que mais prejudicou a comunidade nacional naquela época?

Bernardo: Em 2008, eu já estava quase aposentado devido ao vestibular e, infelizmente, cansado do jogo. Os outros players como MysT e Levin já haviam parado. O DotA, por ser um jogo mais fácil de ser jogado, atraiu muito da massa do Warcraft 3, sendo o início dos MOBA.

Eu acredito que o MOBA matou o RTS.

KiWiKaKi, Levin, PaTo e NilknarfLP na WCG 2006, na Itália

BJ: Do que você mais sente falta dessa época em que o Brasil realizava competições de Warcraft 3?

Bernardo: Sinto muita falta da competitividade, da adrenalina que os campeonatos geravam, dos amigos que fiz na época... E sinto falta do jogo também!

BJ: O cenário de Warcraft 3 se encontrava muito nas lan houses para seletivas de grandes torneios. Você tinha alguma rivalidade ou alguma boa história que você lembre dessa época?

Bernardo: No Brasil, uma história muito boa foi quando o MosKa, que jogava de Night Elf, já estava com um jogo ganho contra o GosuOnline, que era Orc. Os dois viviam se xingando na internet. O MosKa estava no segundo andar e desceu pra zuar o GosuOnline e pedi-lo pra sair do jogo, hahaha.

Internacionalmente, agradeço ao falecido Deadman por ter brigado com seu manager Ownitsch e ser eliminado do Star Wars, que seria na China. Como fiquei na repescagem, ganhei do Giacomo e consegui a vaga no torneio!

mTw Team (NilknarfLP, KiWiKaKi, CanucK, PaTo, LongWalk). Classificatória da BlizzCon em 2007, San Diego

BJ: Você tem planos de investir a fundo em mais algum jogo com o crescimento dos eSports no Brasil e no mundo?

Bernardo: Já pensei muito nisso, mas acho que não aguentaria o ritmo de ter que dedicar tantos fins de semana aos jogos. Depois que passar em um concurso bom e obter estabilidade, e se algum jogo novo solo surgir, é uma ideia a se pensar.

BJ: Na sua opinião, o que o Warcraft 3 te despertava que nenhum outro jogo conseguiu?

Bernardo: Gostava que no Warcraft 3 cada jogo tinha uma situação única. Um monstro roubado, um item diferente, uma rota diferente... Cada jogo te fazia agir de uma maneira diferente. Não senti isso no Starcraft II, por exemplo, achei o jogo ultra robótico e muito chato de treinar.

“Eu acredito que o MOBA matou o RTS.”

BJ: Você comentou que atualmente está acompanhando o cenário de eSport e presenciando quanto o cenário nacional está fervendo com o League of Legends. Qual a maior diferença que você vê das competições atuais com as da sua época?

Bernardo: Acho que hoje as coisas estão se profissionalizando, como várias teorias já diziam em épocas anteriores. Jogadores coreanos morando no Brasil. Nunca se imaginou isso antes. O Twitch foi uma revolução que ajudou diversos progamers a se dedicarem e poderem viver do jogo.

Anteriormente isso tudo era um sonho, e pouquíssimos tinham a chance de se sustentar através dos games.

Participação no Star Wars 2007, China.

BJ: Alguns dos jogadores que te acompanharam no Warcraft 3 profissional seguiram para o League of Legends, como o caso do Levin, que está jogando pela ND e-Sports. Não te desperta uma vontade de voltar ao mundo competitivo e investir no League of Legends?

Bernardo: Joguei bastante League of Legends até agosto de 2014, chegando a Diamante 1. Me considerava de um nível “ok”. Mas jogos de equipe são muito complicados pra mim, pois não consigo tolerar muito o erro dos outros. E, pela grande quantidade de “trashtalkers”, também faz o jogo ser uma coisa mais estressante do que divertida.

Ainda mantenho contato com vários amigos da epoca de Warcraft 3 e Starcraft II que jogam LoL hoje, como Levin, Matta, Lamp e Gaf.

BJ: A Blizzard está mostrando um apoio muito grande ao cenário competitivo, ajudando e organizando enormes competições de Hearthstone, Starcraft e outros títulos na BlizzCon. O Hearthstone é um dos jogos a que você anda dedicando seu tempo, mas ele te motiva a competir com a mesma vontade de antigamente?

“Aos jogadores de hoje, digo que sinto inveja de vocês! A estrutura atual em relação aos eSports está muito maior que antigamente, então a abracem.”

Bernardo: Hearthstone é um jogo que me agrada e muito e acho que poderia competir tranquilamente, mas ainda tenho que ter todas as cartas do competitivo (hehe). Se eu tivesse mais amigos do meu círculo social que jogassem, acho que estaria motivado para treinar pesado, já que o jogo não precisa de tanto treino assim.

BJ: Muito se tem falado — e cobrado — para que a Blizzard faça uma sequência da série Warcraft. Na hipotética situação de um Warcraft 4, quais mudanças você gostaria que fossem aplicadas com relação ao Warcraft 3?

Bernardo: É difícil dizer. Acho que a Blizzard, ou qualquer outra empresa, vai ter que se desdobrar para fazer um RTS que faça sucesso novamente. A época dos RTS acabou. Starcraft II foi o último suspiro, e hoje acho que podemos considerar que o jogo é um fracasso aos padrões da Blizzard.

Mas, se existisse Warcraft 4, por mim seria só com Horda e Aliança — mas se você escolhesse Aliança, por exemplo, iria evoluindo no jogo em direção a uma raça só, como gnomos, elfos ou humanos.

BJ: Muito obrigado pela entrevista! Gostaria de deixar algum recado final aos fãs de eSport e aos saudosos jogadores de Warcraft 3?

Bernardo: Queria mandar um abraço grande a todos que eram da época de Warcraft 3 que proporcionaram momentos incríveis em minha vida e histórias que levarei para sempre.

Aos jogadores de hoje, digo que sinto inveja de vocês! A estrutura atual em relação aos eSports está muito maior que antigamente, então a abracem. Se acham que devem dar uma chance ao jogo além de apenas diversão, tentem e persistam. Posso dizer que devo muito ao que aprendi na vida por causa dos jogos.

Via BJ

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