Imagine-se sentado jogando um jogo de tiro, corrida ou simulação próximo à televisão ou ao monitor por cerca de uma hora. A câmera balança constantemente e passeia pelo cenário, enquanto os efeitos de luz mudam a cada hora. De repente, você começa a sentir enjoo, suor, sensação de vômito, dores de cabeça — algo que normalmente aconteceria em longos passeios de carro ou em uma montanha-russa.

Não se assuste nem chame a ambulância: os jogos podem ser realmente culpados por causar um efeito que afeta a visão, o cérebro e o equilíbrio. E, acredite se quiser, isso é um efeito passageiro que afeta muito mais gente do que você imagina.

Qual o diagnóstico, doutor?

O nome disso é cinetose (ou motion sickness, em inglês). Trata-se de um "bug" no nosso sistema vestibular, que não tem nada a ver com a prova para entrar na faculdade. Ele é formado pelos órgãos que compõem o ouvido interno, responsáveis por manter o equilíbrio. Nesse espaço, estão canais semicirculares que são tubos ósseos cheios de líquido, a endolinfa.

Quando você faz um movimento, a endolinfa mexe no sentido contrário, algo que cria uma reação em cadeia que chega até o sistema nervoso central, "avisando" que o seu corpo não está parado.

Se você está em um carro (ou seja, parado, mas dentro de uma estrutura em movimento), a endolinfa não envia estímulos, mas o seu corpo está em deslocamento e seus olhos confirmam isso, o que dá um nó nos seus sentidos. Além disso, o cérebro percebe a discrepância e conclui que há algo errado, como a ocorrência de um envenenamento ou alucinação, e tenta resolver o caso ao eliminar possíveis toxinas do corpo — daí a sensação de vômito e as náuseas.

O que meu jogo tem a ver com isso?

O cenário criado por um jogo, especialmente nos de primeira pessoa, tenta simular exatamente algo que seria capturado pelo olho e processado pelo cérebro. O problema é, no game, você faz movimentos frenéticos para os lados com a câmera, corre a altas velocidades e pula de alturas inimagináveis — enquanto a realidade é que você está praticamente imóvel.

Mas não é só isso que está em jogo. A taxa de quadros exibidos por segundo também influencia bastante. Um jogo em 60 frames por segundo (fps) parece mais dinâmico, fluído, de maior qualidade graficamente — não "em câmera lenta" ou com rastros de objetos que se mexem na tela, algo comum quando essa taxa cai ou é naturalmente baixa.

O problema é que esse aumento de velocidade contribui para os enjoos, já que tudo fica acelerado demais, sendo que o seu cérebro não estava acostumado com tudo isso. Quando ele está lento demais, também é um problema, já que há alteração na agilidade normal (ou, neste caso, a falta dela).

Blur

O efeito de motion blur, que causa desfocamento e simula a movimentação rápida de objetos, também pode contribuir para a cinetose. Isso porque monitores com baixa taxa de atualização demoram até processar um movimento muito rápido, deixando borrões na tela e deixando seu cérebro ainda mais confuso.

Acima, uma taxa de refresh de 60 Hz. Abaixo, em 120 Hz, note como os rastros ficam muito menores.

Um monitor com taxa de 1 milissegundo e atualização (refresh rate) de 60 Hz é considerado comum, mas taxas maiores também podem ser a solução — além de aumentarem ainda mais sua experiência e precisão em games de tiro, por exemplo.

FoV

O problema também pode estar no campo de visão (field of view, ou FoV). Quando esse valor é muito pequeno, detalhes das bordas do cenário aparecem de menos na tela e você tem a sensação de claustrofobia, que agrava a cinetose.

Jogos como Titanfall trazem ângulos satisfatórios de câmera e um campo de visão o mais aberto possível, para evitar esse tipo de efeito. Isso indica que as desenvolvedora sabem do problema e buscam amenizá-lo em títulos mais recentes.

E aí, tem cura?

Não há um jeito milagroso de acabar com um efeito do cérebro de uma hora para a outra. Só que isso não significa que alguns cuidados possam ser tomados para ao menos diminuir o efeito desse problema e poder jogar por mais tempo e em paz com o corpo.

Confira algumas dicas:

  • Ajustar campo de visão nas opções gráficas do game para deixá-lo mais largo (90 é um bom valor);
  • Procurar um  monitor de no mínimo 60 Hz;
  • Jogar em maior quantidade os games que causam tonturas para "treinar" o cérebro, porém com intervalos de descanso após cerca de meia hora;
  • Deixe alguma luz ligada enquanto você joga, nem que seja uma fonte fraca apontada para o teto;
  • Consuma uma quantidade regular e mais saudável de alimentos antes e durante a jogatina;
  • Coloque um ponto preto no centro da TV, nem que seja um pedaço de papel pintado, para criar um ponto de referência para o cérebro;
  • Existem medicações que combatem os enjoos causados pelo movimento, mas evite remédios desnecessários e sempre consulte um médico antes.

Agradecimentos ao leitor Diogo Otavio, que relatou o problema e sugeriu o artigo. Esperamos que a dúvida esteja solucionada!

Via BJ

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