Quase duas centenas de personagens moldados em 2D em dimensões de 12x12 pixels. Seriam os primeiros 176 emojis capazes de expressar todas as nuanças das expressões humanas? Felicidade, tristeza e até frustração; uma linguagem nova parecia estar sendo criada. Talvez a intenção de Shigetaka Kurita, criador dos “emoticons orientais”, não tenha sido refletir sobre nada de mais.

Mas a promessa de uma comunicação digital eficaz colocou algumas questões em xeque e gerou, assim, efeitos e reflexões multifacetadas. Há quase 20 anos, o Windows 95 era lançado. O evento, na época, significou uma verdadeira revolução. E não apenas inovações de hardware e software pairaram sobre aquele cenário; foi compromisso também otimizar a comunicação digital e integrá-la, de alguma forma, ao cotidiano das pessoas.

A expressão amarelada das emoções humanas. (Fonte da imagem: Reprodução/Corujeira)

A popularização das mensagens SMS e dos emails no Japão causou uma espécie de “corrida tecnológica”. Era preciso saciar a juventude oriental, que implorava por ferramentas e técnicas mais rápidas de comunicação. E foi esse o desafio aceito pela Docomo, empresa de telecomunicação responsável por desenvolver os conceitos esboçados por Kurita.

Codificando a mensagem em forma de carinha

O idioma japonês é bastante conhecido mundo afora pela sua complexidade. Qualquer palavra dita com mais ou menos ênfase e qualquer traço mais espesso feito durante a escrita podem dar à mensagem emitida diversos significados. Esses pormenores de linguagem, por assim dizer, foram praticamente reduzidos a símbolos que, de acordo com Kurita, “eram capazes de reproduzir rostos” (sim, a 12x12 pixels).

Logo, um grande emaranhado comunicacional foi criado. Ainda como observa o próprio criador dos emojis, “se alguém escreve ‘wakarimashita’ é difícil saber o real significado disso; é possível entender um ‘sim’ ou identificar a demonstração de um sentimento ‘frio’, mas nunca saberemos o que se passa realmente na cabeça do escritor”. Ao contrário de uma conversa “quente ou morna” (pessoal ou por telefone), algumas demonstrações singelas de emoção acabam sendo limadas quando as carinhas são usadas.

Ainda assim, a ideia de compilar uma gama ínfima de emoções em representações de personagens pixelados foi levada a cabo. O mercado – e sobretudo o público adolescente japonês dos anos 1990 – estava sedento por formas rápidas e eficientes de comunicação. E foi assim que os emojis surgiram finalmente: a partir de uma série de esboços inspirados em mangás, Kurita e uma pequena equipe de designers criaram, primeiramente, 176 carinhas.

Consistência e variações de contexto

Com a popularização dos serviços de SMS, e também a partir da constante integração entre os meios digitais de comunicação, a criação de Kurita ganhou o mundo. Os direitos de criação dos bonequinhos não pertenciam mais apenas à Docomo; mais tarde, outros conjuntos de emojis foram elaborados por diversas empresas (hoje, alguns dispositivos chegam a exibir até 800 figurinhas pixeladas – baseadas, ainda, no conceito primário de Kurita).

O que elas realmente significam? (Fonte da imagem: Reprodução/Columan)

Há também variações de contexto, um “nuance local” no uso desses recursos. De acordo com o criador desses rostos demasiadamente expressivos, “o que as pessoas querem dizer e até que ponto os emojis são usados ainda são uma questão delicada”.

Por fim, e em entrevista ao The Verge, temos um diálogo interessante. Enquanto Jeff Blagdon, o repórter, se levanta para demonstrar o fim da entrevista, uma última pergunta é feita: “O que um ‘coraçãozinho’ significa quando uma menina o envia a você?”. Shigetaka Kurita, esboçando um riso no rosto, responde: “Eu não sei se ela gosta ou não de mim. Mas acho que foi algo bom”.

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