Era sábado cedinho quando comecei a receber várias mensagens no celular. Já estava tudo combinado: eu passaria na concessionária da BMW para conferir os modelos elétricos da marca e, em seguida, daria um pulo na loja da Land Rover para pegar uma Range Rover Evoque para testar durante o fim de semana – e a ideia de passar dois dias a bordo de um SUV/crossover de mais de R$ 200 mil já era bem maneiro.

Veio a primeira notícia: a Evoque não estava lá, não foi retornada a tempo. Sendo assim, teríamos que achar outro modelo. A Discovery foi cogitada, mas sugeri também a Range Rover Sport... Nada, elas não estavam lá. A assessora me pediu 10 minutos.

“Igor, consegui uma Vogue SE, pode ser?”. Eu não sabia o que responder, mas digitei mesmo assim.  “A Vogue? Aquela de 700 conto?”. Pra minha felicidade, sorte, azar e euforia, todos misturados, sim, era essa mesmo.

Carros com etiqueta na casa dos seis dígitos não são necessariamente uma novidade pra mim: já andei num Audi R8, em algumas BMWs e alguns outros carros que a preparação alcançou cifras estratosféricas. Mas andar numa Range Rover de R$ 700 mil é completamente diferente, é outro patamar.

Cheguei na concessionária da Land Rover tentando fazer o meu melhor para parecer digno de andar num veículo desses – não pelo valor, mas pela tradição da marca. Ora, a montadora é conhecidíssima por produzir verdadeiros tanques sobre rodas, picapes e utilitários que são capazes de enfrentar os lugares mais inóspitos sem perder sua elegância britânica e com absoluto conforto. É como atravessar o Saara sem derrubar o chá da sua xícara nem os biscoitinhos que acompanham.

Pois bem, a monstruosa Vogue foi estacionada em frente à porta, ostentando seus 5 metros de comprimento, 2 metros de largura e 1,8 metro de altura. Ela é titânica, a ponto de fazer eu me questionar se realmente caberia na garagem do prédio – ou em qualquer vaga de qualquer lugar que eu estou acostumado a ir, na verdade.

Peguei a chave, que nunca precisou sair do meu bolso porque conta com sensor de proximidade, e entrei no imenso SUV. Meu Deus, os bancos de couro eram simplesmente espetaculares: extremamente confortáveis, pareciam os assentos de um jatinho particular – não que eu tenha andado em um, mas imagino que seja assim – e eram infinitamente melhores que o sofá lá de casa. Não que precise de muito pra isso, mas eu entendi que não iria ficar cansado de passar muito tempo na Vogue (e isso foi ótimo).

Os ajustes, obviamente, são elétricos. E são muitos: ajuste de lombar, altura do encosto de cabeça, abertura ou fechamento do suporte do quadril, extensão e inclinação da parte de baixo do assento... Leva um tempo até se acostumar com tudo que você pode fazer.

Foi aí que tomei coragem de apertar o botão de Start/Stop e acordar o motor V8 biturbo de 4.4 litros que, alimentado por diesel, gera 339 cavalos de potência. Isso pode não parecer muito para um veículo das dimensões e peso da Vogue, mas o segredo está em outro número: o torque.

São 74 kgfm disponíveis já nos 1.750 RPM e que, quando combinados ao câmbio de oito marchas muito bem escalonado, fazem a mansão sobre rodas se deslocar com força suficiente pra fazer você grudar no banco.  

A questão é que essa performance é um “plus” na experiência, porque a finalidade da Vogue não é ser rápida e, sim, confortável – e, meus amigos... Bota conforto nisso. Com o carro ligado, hora de parar de parecer o cara que nunca havia andado de carro na vida e ir me divertir com o SUV em outro lugar e descobrir o que era capaz de fazer.

Além dos bancos que eu citei, tudo no modelo transpira luxo e conforto: quase não se vê plástico no interior. Os acabamentos são dos mais diversos materiais, como o couro nos bancos, o aço escovado nas peças do console central (que conta com muitos botões) e o acabamento do próprio console em folha de madeira. Diga-se de passagem, quase tudo isso pode ser customizado na hora da compra.

Quase tudo na Vogue é feito por botões. Ligar o carro? Botão. Ajuste dos bancos? Botão. Abrir o porta-luvas? Botão. Abrir o teto panorâmico? Você já sabe. Porta-malas? Um botão para abrir e outro para fechar automaticamente

Quase tudo na Vogue é feito por botões. Ligar o carro? Botão. Ajuste dos bancos? Botão. Abrir o porta-luvas? Botão. Abrir o teto panorâmico? Você já sabe. Porta-malas? Um botão para abrir e outro para fechar automaticamente, sem necessidade de bater nada. Ah, por falar em bater: ela tem um sistema de sucção que permite que você simplesmente encoste a porta na carroceria, sem necessidade de força, e ela é “sugada” para o seu devido lugar, fechando adequadamente. Elegância britânica, mais uma vez.

Vale apontar que o utilitário tem três ajustes de altura: uma para terrenos acidentados, outra mais baixa para o uso normal e uma mais baixa ainda, que só é mantida até 30 km/h, que é para permitir que as pessoas entrem com mais facilidade no veículo. Esse ajuste também é feito apenas pressionando um botão no console.

O sistema multimídia funciona bem através de uma tela touchscreen ou dos comandos feitos diretamente no volante. Esse display, inclusive, conta com uma função que faz com que o motorista consiga ver uma imagem e, através de uma bruxaria maluca, o passageiro veja outra coisa na mesma tela em função da mudança de ângulo.

O sistema de som foi projetado pela empresa de engenharia de áudio Meridian e conta com alto-falantes posicionados estrategicamente para fornecer a melhor experiência auditiva... E que experiência!

É nesse display também que é possível acompanhar o que se passa ao redor do veículo, através das quatro câmeras disponíveis: uma na frente, uma atrás e duas, uma de cada lado, que auxiliam na hora de estacionar o confortável mamute sobre rodas, que também conta com a ajuda de diversos sensores espalhados que fazem bastante barulho pra evitar que você rale em qualquer lugar.

Isso significa que, enquanto você dirige, pode olhar para a tela e acompanhar o GPS enquanto o passageiro assiste TV (sim, tem TV). Para quem gosta de som, a Vogue também é um deleite: o sistema de som foi projetado pela empresa de engenharia de áudio Meridian e conta com 19 alto-falantes e 16 canais, todos posicionados estrategicamente para fornecer a melhor experiência auditiva... E que experiência!

Vale apontar que o sistema de infotainment da Land Rover permite o espelhamento de iPhones e, para outros celulares, tudo é feito de forma simples via Bluetooth mesmo.

Além de todas as funções por botão, boa parte das ações comuns do veículo, como acendimento de faróis e acionamento dos limpadores do para-brisa são feitos de forma automática – o que era de se esperar.

Foi depois de escurecer, inclusive, que percebi que a Vogue tinha um sistema de iluminação de ambiente, com uma faixa suave de luz contornando as laterais do console central e outros pontos de iluminação nos compartimentos das portas. A melhor parte? Através do sistema de infoentretenimento, você pode personalizar a cor da iluminação em uma paleta com 10 opções. É um mimo, claro... Mas é um mimo bacana pra caramba, não tem como negar.

Experiência surreal

Depois de explorar incansavelmente tudo que a Range Rover Vogue tinha pra oferecer, me foquei em aproveitar a experiência de dirigir – e é aqui que vem a parte bacana. Entre as minhas andanças, por várias vezes tive aquela lembrança repentina de que estava sentado em um veículo de R$ 700 mil e que, portanto, era algo MUITO especial.

Eu estava andando num carro igual ao que a Rainha da Inglaterra tem – uma versão mais barata, mas ainda assim...!

Isso foi particularmente marcante quando passei ao lado de um Porsche 911 Carrera 4S no centro de Curitiba e me dei conta de que o carro em que eu estava custava quase 200 mil reais a mais... Era insano. Simplesmente insano, porque eu sabia que é quase impossível eu ter acesso a esse tipo de coisa como um ser humano normal.

A questão aqui é que chega a ser difícil de explicar o porquê, mas você entende o motivo de uma Range Rover como a Vogue custar tanto. Ela nem é a mais cara da linha: ainda existem a SVA e a SVAutobiography, que, além de passar fácil da marca de R$ 1 milhão, tem em sua lista de donos ninguém menos que a Rainha Elizabeth. Eu estava andando num carro igual ao que a Rainha da Inglaterra tem – uma versão mais barata, mas ainda assim, o mesmo carro!

Voltando: não se trata da ostentação e do glamour de andar em uma Range Rover com bancos em couro estupidamente confortáveis, acabamento impecável, motor potente... É a experiência de dirigir. Tudo no veículo é feito e projetado para tornar o seu tempo dentro dele mais rico e extremamente mais proveitoso, além de fazer com que você se sinta especial.

Sabe aquele restaurante caro no qual o garçom fica constantemente perguntando se está tudo certo e faz de tudo para fazer com que tudo saia perfeito? É essa mesma impressão que você tem ao andar numa Vogue: você não tem que se preocupar com absolutamente nada a não ser o puro ato de dirigir.

Uma posição desconfortável é contornada com um ajuste no banco, uma temperatura muito alta ou muito baixa é ajustada de forma individual em quatro áreas diferentes do veículo, de forma que todos os ocupantes se sintam bem... Chega a ser absurdo.

Andei praticamente o dia todo com a Vogue pelas ruas de Curitiba e passei facilmente da autonomia de 200 km que estava no indicador do computador de bordo – o mesmo que me mostrou um consumo médio de 5,5 km/L durante todo o fim de semana. Falando nele: a Vogue tem aquela função maneira que projeta informações essenciais (como velocidade e tal) no para-brisa, para que você não precise desviar o olhar.

Domingo foi dia de mais voltas por aí e mais testes de outras funcionalidades, como o caso da baliza automática que funciona perfeitamente e é algo surpreendente pra um SUV com as dimensões da Vogue. Ah, foi o dia das fotos e também o dia dos paradoxos: em vez do escargot e da champanhe caríssima, fui comer um sanduíche de 15 pilas numa lanchonete perto de casa.

Minha experiência com o SUV foi como conhecer um cara muito gente boa e que estava constantemente preocupado com a minha satisfação e meu bem-estar. Eu não consigo criticar o fato de o veículo bebe mais que o tiozão do churrasco ou o fato de ele custar o que custa, porque a Vogue faz você se sentir especial. Mais precisamente “700 mil reais” especial.

É simplesmente uma questão de ele fazer parte de uma realidade que eu e 99% do restante do mundo não estamos inseridos – e essa é outra coisa que é estranha de entender: por que temos que pagar tanto para que um veículo faça com que a gente se sinta especial dessa forma? Sem resposta fácil pra isso, infelizmente, se é que existe uma.

O ponto aqui é que existem duas formas de encarar toda essa coisa de como é andar em uma Range Rover de R$ 700 mil: você pode ser o cara que se apega ao status e dá mais importância ao fato de que a Vogue vale o que vale, ou, se você realmente é um cara apaixonado por carros e pela experiência de dirigir, entender que, independente do valor, é sobre isso que o ato de dirigir tem que ser – deve ser especial, deve ser agradável e fazer você se sentir bem.

Eu, honestamente, tive que seguir pela segunda linha. Foi o ponto mais alto da minha (até agora) curta carreira como jornalista automotivo, mas o mais baixo da minha vida pessoal porque entendi que talvez eu nunca mais vá ter uma experiência tão f*da dessa forma – desculpem a expressão, mas é que “legal”, “alucinante” e outros adjetivos não fazem jus ao que realmente é estar ao volante de um veículo assim.

Você não precisa ir ao restaurante caro, você não precisa ir na balada... Você só precisa dirigir pra se sentir especial, e todo mundo deveria ter o privilégio de sentir isso.

No fim das contas, a Vogue foi como um novo grande amigo que eu conheci ali e a gente se deu super bem logo de cara – e, tendo se tornado esse novo amigo, a despedida foi difícil, porque eu sabia que dificilmente teria outro fim de semana assim. Talvez tenha sido por isso que, ao entregar a chave na segunda-feira, a única coisa que eu conseguia pensar era: “Valeu pelo final de semana incrível, cara”.

O veículo foi cedido por empréstimo para testes pela concessionária Euro Import.

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