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Segurança

O governo do Brasil consegue bloquear a internet igual ao Irã?

O TecMundo conversou com o diretor de tecnologia Thiago Ayub e o advogado especialista em direito digital Luiz Augusto D’Urso para explorar o tema.

Avatar do(a) autor(a): Felipe Payão

schedule13/01/2026, às 16:00

updateAtualizado em 13/01/2026, às 16:37

O povo iraniano está há mais de 84 horas sem comunicação via telefone e vive um apagão de internet, segundo a ONG Netblocks. Os cortes nas conexões teriam sido feitos pelas autoridades locais para conter a expansão das manifestações.

Os protestos mais recentes tiveram início em dezembro de 2025 e foram motivados pela desvalorização da moeda nacional, o rial, que vem perdendo valor e reduzindo o poder aquisitivo da população iraniana. A ONG Direitos Humanos no Irã afirma que milhares de pessoas já morreram nos atos e outras milhares foram presas.

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Líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei acusa os manifestantes de agirem em nome do presidente norte-americano Donald Trump e alertou que não vai tolerar “mercenários de estrangeiros”. Em resposta, Trump deixou claro que pode agir “duramente” se Teerã intensificar a repressão a quem participa dos protestos.

Para contornar o bloqueio de internet, o povo iraniano tem usado aplicativos de comunicação baseados em Bluetooth e o serviço de internet da SpaceX, o Starlink, segundo agências de notícias locais.

Olhando para o Brasil, o país entra em 2026 mirando as eleições. E isso significa que a internet será o principal motor de troca de informações — verdadeiras e, infelizmente, mentirosas. Povo na rua e ânimos exaltados, ainda com o histórico de bloqueios pontuais sobre aplicativos de comunicação, o Brasil teria a capacidade de realizar um movimento parecido ou igual ao do Irã? O TecMundo explorou o tema.

Cenário exploratório de um apagão de internet no Brasil

Em seu artigo “Quão distante o Brasil está do Nepal?”, de setembro de 2025, Thiago Ayub, que é diretor de tecnologia e colunista do TecMundo, afirmou que apesar de geologicamente a distância ser gigantesca, há uma aproximação lenta no que toca à censura na internet. 

“Embora a internet tenha sido desenhada para resistir a falhas em sua infraestrutura, não tem nada em seu desenho que a proteja de ordens de autoridades”, comenta Ayub.

Durante 2025, pudemos sentir em alguns momentos como um apagão de internet em alguns serviços impactaria o nosso dia a dia. No último trimestre, as falhas que envolvem Cloudflare e AWS deixaram diversos sites e serviços completamente inacessíveis.

Mas, deixando as falhas de lado, com uma posição ativa de censura e bloqueio, como um governo poderia gerar um apagão de internet no Brasil?

“Todas as empresas que fazem parte da cadeia produtiva do acesso à internet são registradas no órgão regulador de cada país. No Brasil, quem faz esse papel é a Anatel. Essa agência possui basicamente dois mecanismos que ela poderia utilizar para fazer um apagão nacional da internet do Brasil”, explica Ayub.

“No primeiro, ela possui o contato de email de todo o centro de operações dessas empresas. Então, ela já costuma mandar comunicados por email determinando o bloqueio de certos conteúdos. Ela poderia utilizar essa mesma lista para determinar o desligamento da rede. Como a internet, ela é global, visivelmente acessível. Existe algo chamado tabela global de roteamento, que são as listas de todos os endereços e preços acessíveis pela rede. Depois de mandar uma ordem de retirada da internet brasileira dessa tabela global de roteamento, ela poderia verificar quais empresas cumpriram a ordem ou não”.

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Thiago Ayub

Também existe uma segunda maneira, chamada de “lacre virtual”, que poderia ser usada em casos maiores. O diretor de tecnologia explica:

“A outra forma é de um mecanismo criado em princípio para bloquear sites de pirataria, que se chama lacre virtual, em que a agência possui um acesso remoto aos principais roteadores das principais empresas que provêm acesso ao Brasil. Então, nesse caso, ela não está meramente fiscalizando a atuação das empresas, ela está operando esses roteadores. A Anatel consegue mandar comandos remotos para esses roteadores para bloquear endereços. Ela poderia muito bem bloquear o endereço 0.0.0/0 com endereço especial que significa toda internet”.

Bloqueios de internet no mundo

A Cloudflare também levantou dados sobre as quedas de internet do mundo. O resultado é preocupante: quase metade dos incidentes foram determinados por governos. 

A porcentagem ficou da seguinte maneira:

  • Bloqueios determinados por governo: 48%
  • Blecaute: 14%
  • Ruptura de cabo: 11%
  • Problemas técnicos: 8%
  • Desconhecido: 7,5%
  • Incêndio: 2,9%
  • Evento climático: 2,9%
  • Ataque cibernético: 1,7%
  • Desastre natural: 1,1%
  • Erro de configuração: 1,1%
  • Problema de rede: 0,57%
  • Manutenção: 0,57%
  • DNS: 0,57%

Em um cenário exploratório, em que as comunicações comuns fossem cortadas, seria possível manter algum tipo de contato com outros cidadãos? VPNs, aplicativos criptografados, comunicação via Bluetooth. Os caminhos atuais são diversos, mas eles funcionariam?

O diretor de tecnologia Thiago Ayub adiciona que a burla depende muito do conhecimento e do investimento que cada internauta tem de descobrir, abrir e implantar formas alternativas. “As autoridades brasileiras já estão atentas ao potencial das VPNs para burlar as ordens de bloqueio”, comenta.

“E no Irã, a gente tem tido relato de internautas do país que mesmo o uso da Starlink, que pretensamente é mais resistente aos bloqueios das autoridades, mesmo com o apoio de Elon Musk, provendo serviço gratuito em alguns casos, tem sido bloqueado pelas autoridades iranianas de maneira consideravelmente bem sucedida através do jamming, uma técnica que gera interferência no mesmo sinal utilizado pelas antenas para comunicação e a interferência acaba prejudicando tanto o sinal que ele fica basicamente inutilizado”.

Aplicativos que se valem de Bluetooth para comunicação também cresceram em downloads nos últimos meses. Entre eles, está 0 B-Chat, uma promessa que figura em países como Uganda.

Ayub explicou um pouco mais ao TecMundo sobre como o app opera: “Há uma inovação, uma promessa nessa área, o B-Chat, um novo protocolo e aplicativo de comunicações que não utiliza internet e sim o sinal de Bluetooth para troca de mensagem entre os aparelhos. Ele não permite a navegação na internet, o acesso ao conteúdo é meramente, de forma rudimentar, a troca de mensagens, para que as pessoas continuem se comunicando mesmo com uma autoridade bloqueando a internet nacionalmente”.

“E todos os olhos da comunidade técnica internacional estão em Uganda, pois lá, por conta do processo eleitoral agora em janeiro de 2026, a autoridade local prometeu bloquear não só a internet, como é de praxe no país, mas também bloquear o BitChat, e quem vai ganhar essa disputa eleitoral e tecnológica é algo que estamos atentos para acompanhar. Será que Uganda vai ser capaz de colocar o obstáculo não tentado antes contra o sinal do BitChat através do Bluetooth? É o que veremos até o final do mês”, finaliza.

Atualmente, é possível o Brasil bloquear a internet?

Colocando os pés no chão, um cenário como este no Brasil é praticamente impossível. O advogado especialista em Direito Digital, Luiz Augusto D’Urso, reforça ao TecMundo que a Constituição Federal não autoriza esse tipo de suspensão de garantias e direitos.

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Advogado Luiz Augusto D'Urso

“Caso essa situação fosse no Brasil, em primeiro lugar, vale lembrar que isto não pode acontecer pelo poder executivo. A própria Constituição não autoriza esse tipo de suspensão de garantias e direitos do próprio cidadão. Inclusive, isso só poderia acontecer em situações absolutamente excepcionais, como estado de defesa ou estado de sítio”, comenta D’Urso.

O advogado acrescenta que “em qualquer outra situação em que a ordem prevaleça, o poder executivo não pode suspender. Isto porque o acesso à informação, à comunicação, livre manifestação do pensamento, etc., são garantias fundamentais protegidas pela Constituição Federal e previstas na Carta Magna. Vale dizer, o governo não tem esse poder, porque isso é direito absoluto do cidadão”. 

Contudo, sem fugir de uma “hipótese absurda”, nota o advogado, “o brasileiro com certeza iria reagir, provocando o poder judiciário no Supremo Tribunal Federal e também procurando momentaneamente acessos paralelos, como, por exemplo, o acesso via Starlink de Elon Musk, no sentido de um uso direto com os seus satélites sem que o governo conseguisse controlar. Mas, sem dúvida nenhuma, isso seria rapidamente judicializado e o Supremo determinaria a devolução do serviço à população”.