Linha de produção da Foxconn na China. (Fonte da imagem: Reprodução/Daily Mail)

Se você viu o filme “Tempos Modernos”, escrito, dirigido e estrelado pelo cineasta e ator britânico Charles Chaplin, então já tem uma ideia aproximada de como é a rotina de um trabalhador de uma grande fábrica de eletrônicos.

Em alguns países asiáticos nos quais são produzidos diversos tipos de eletrônicos para diferentes grandes marcas, a vida imita a arte de Chaplin. E a arte de Chaplin, aliás, já imitava a vida, pois sua obra, lançada em 1936, faz uma forte crítica às condições de trabalho nas linhas de produção após a Revolução Industrial.

Mais de 75 anos depois, a realidade de trabalhadores em algumas partes do mundo não é tão diferente daquela criticada pelo cineasta britânico. Rotinas exaustivas, assédio moral, salários baixos e más condições de alimentação e moradia são algumas das características básicas em complexos industriais enormes que se espalham pela China.

“Você só precisa obedecer”

Um traço marcante dos grandes complexos industriais que produzem eletrônicos é a imposição da autoridade, algo que beira o militarismo. Em setembro de 2012, a agência de notícias chinesa Shangai Evening Post enviou um repórter infiltrado à linha de produção da Foxconn, a maior fabricante de eletrônicos do planeta e principal fornecedora da Apple, para descobrir mais sobre a rotina dos trabalhadores.

Nos oito dias em que permaneceu lá dentro, o jornalista (que não teve a sua identidade revelada) tirou fotos e sentiu na pele a rotina de trabalho de um funcionário da companhia. A pressão para cumprir a meta de produção anual de 57 milhões de iPhones é reforçada o tempo todo com um regime que lembra muito o de um treinamento militar.

Rotina de operários da Foxconn lembra a do personagem de Chaplin no cinema. (Fonte da imagem: Reprodução/Tempos Modernos)

Segundo a reportagem chinesa, o supervisor do novo grupo de funcionários do qual fazia parte o repórter infiltrado deixou bem clara a relação entre ambos ali logo de cara: “Quando deixa o laboratório, não há tecnologia avançada, você precisa apenas obedecer às instruções”.

Vale lembrar que as sedes da Foxconn são verdadeiras cidadelas cravadas em várias partes da China. Elas contam com alojamentos, cozinhas, enfermarias e até mesmo algumas opções de entretenimento para as horas vagas — ou seja, o funcionário permanece no complexo mesmo fora de seu horário de trabalho. Ao todo, a companhia emprega na China cerca de 1,4 milhão de pessoas.

Regime militar

A cartilha de instruções da Foxconn para seus novos trabalhadores também dá um peso grande às punições: enquanto conta com apenas 13 políticas de recompensa, apresenta incríveis 70 políticas de penalização para punir qualquer tipo de “deslize” que um funcionário venha a cometer.

O programa de televisão francês “Envouyé Especial” mostrou um pouco da realidade das fábricas da Foxconn também por meio de pessoas infiltradas — a empresa não autoriza a entrada de jornalistas.

A reportagem, que ganhou o sugestivo título de “e-Germinal: no inferno das usinas chinesas”, uma referência ao romance “Germinal”, escrito pelo francês Émile Zola e que retratava as péssimas condições de trabalho nas minas de carvão da França no século XIX, afirma que “insultos são cotidianos e os dormitórios, insalubres”.

Camas dos alojamentos da Foxconn não parecem nada confortáveis. (Fonte da imagem: Reprodução/Daily Mail)

O que confirma as revelações feitas pelo jornalista chinês infiltrado: em uma foto publicada por ele, é possível ver “triliches” de ferro amontoados nos alojamentos, todos equipados com colchões que mais se parecem com uma fina folha de madeira.

O instrutor que guia os funcionários em seus primeiros dias na companhia teria afirmado que o tratamento duro dispensado a eles seria algo benéfico. “Vocês podem se sentir desconfortáveis com a maneira como nós os tratamos, mas tudo isso é para o seu próprio bem”.

Pressão psicológica

Além das más condições de alojamento, de sofrer insultos, de morar em quartos com grades nas janelas e de ter que trabalhar por 10 horas todos os dias, a pressão psicológica se abate como um todo sobre os trabalhadores da Foxconn, que também é responsável pela fabricação dos consoles Xbox 360, da Microsoft.

O jornalista chinês infiltrado na companhia relata que o laboratório onde os trabalhadores produzem o iPhone conta com um aviso. Nele, lê-se que a demissão é imediata caso o detector de metais identifique anéis, brincos, câmeras, MP3 players ou qualquer outro dispositivo metálico.

Quartos com grades: alojamentos se parecem com uma prisão. (Fonte da imagem: Reprodução/Daily Mail)

Quando o assunto é a saúde, a pressão não é muito diferente. Segundo o repórter infiltrado, a enfermaria da planta na qual ele se encontrava contava com apenas um médico, que cuidava de quatro a cinco pacientes de uma só vez. Ao questionar a enfermeira sobre o auxílio-medicamento ao qual ele teria direito, ela apenas respondeu de modo grosseiro: “Pergunte ao seu chefe”.

O cinismo por parte dos supervisores também deve causar algumas reações negativas em meio aos trabalhadores. Quando a parte traseira do iPhone 5 chegou às mãos dos montadores do setor no qual o repórter chinês estava trabalhando, o supervisor ressalta que eles “deveriam estar honrados com a oportunidade” de produzir o novo smartphone da Apple.

Práticas recorrentes

Mas nem só de produtos da Apple se alimentam as péssimas condições de trabalho das fabricantes de produtos eletrônicos. Além do fato da Foxconn também produzir equipamentos da Microsoft, outras companhias do gênero — também presentes na China ou em Taiwan — passam pelo mesmo problema.

A Samsung é alvo recorrente das críticas de órgãos que observam as condições de trabalho em grandes fábricas. A China Labor Watch (CLW), uma dessas instituições, denunciou no final de 2012 que empregados de fornecedoras da empresa sul-coreana trabalhavam até 16 horas por dia, com apenas uma folga mensal.

Rotinas degradantes de trabalho não é exclusividade da Foxconn. (Fonte da imagem: Reprodução/Daily Mail)

De acordo com um relatório da CLW que envolvia dez fábricas que trabalham para gigantes da tecnologia como IBM, Dell, Philips, Microsoft, Apple, HP e Nokia, divulgado em julho de 2011, os funcionários de tais fábricas recebiam baixos salários, o que lhes obrigava a realizar horas extras para complementar a renda.

“O número de horas extras cumpridas mensalmente pelos operários varia entre 36 e 160”, sendo que “nenhuma fábrica cumpre estritamente a legislação de trabalho da China”, que limita a 36 horas extras a quantidade máxima a ser realizada por um trabalhador. Além disso, as jornadas de trabalho que vão de 10 a 14 horas, que podem variar de acordo com a necessidade de incrementar a produção.

Baixos salários e suicídios

Em janeiro de 2012, uma notícia surpreendente dava conta de que 300 funcionários da Foxconn, da linha de produção do Xbox 360, ameaçaram suicídio coletivo caso seus salários não fossem aumentados. Após terem negado o pedido de aumento, o grupo se dirigiu ao topo do prédio e permaneceu lá por dois dias, mas foi convencido a não levar o ato adiante pelo prefeito da cidade.

Em 2010, de acordo com uma matéria publicada pelo site italiano Linkiesta, 14 funcionários da Foxconn cometeram suicídio em protesto contra a baixa remuneração e as condições de trabalho degradantes a que estavam submetidos.

A empresa prometeu rever suas políticas salariais e de horas de trabalho, mas, de acordo com a Sacom (sigla em inglês para Estudantes e Acadêmicos Contra o Mau Comportamento Corporativo), a promessa não foi cumprida. A Sacom realizou mais de 120 entrevistas com trabalhadores da Foxconn, que garantiram “continuar sendo obrigados a fazer hora extra” ao mesmo tempo em que o “estilo militar de gerenciamento” continuava.

E no Brasil?

O Brasil vem se destacando no cenário econômico mundial e, com isso, nosso enorme mercado de eletrônicos atrai grandes fábricas de eletrônicos. A controversa Foxconn é uma delas, mas outras empresas de capital asiático também começam a instalar fábricas por aqui.

Um estudo divulgado no final de 2011, realizado em conjunto pelo sociólogo Ricardo Antunes e pelo procurador do trabalho José Fernando Ruiz Maturana, joga um pouco de luz sobre as condições de trabalho nesses locais. Segundo a dupla de pesquisadores, o emprego de tecnologia nas linhas de produção não significa necessariamente melhoria das condições de trabalho.

Fábrica da Foxconn em Judiaí, São Paulo. (Fonte da imagem: Folhapress)

“Não é verdade que o incremento tecnológico traz melhores condições de trabalho. Frequentemente ele intensifica, frequentemente ele precariza. A tecnologia introduzida no mundo produtivo e de serviços visa ao aumento de produtividade e acaba tendo uma tendencialidade para ou desempregar ou intensificar ou precarizar [o trabalho]”, garante Antunes, que é professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

E Maturana, da Procuradoria Regional do Trabalho (PRT) da 15ª Região, complementa: “A tecnologia está aí para desenvolver o aspecto econômico da atividade. Nós não estamos tendo uma tecnologia sendo desenvolvida para a melhoria da saúde e a segurança do trabalho ou para o conforto do trabalhador”.

Um problema vindo da Ásia

Para Jair Santos, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região, o problema das más condições está diretamente relacionado ao aumento dos casos de doenças do trabalho. Ele ainda afirma que os problemas ocorrem principalmente com empresas vindas da Ásia para o Brasil.

“Eles [empresários oriundos de países asiáticos] vêm de uma realidade em que o trabalhador não tem nenhum direito, só tem deveres. A legislação só protege a indústria. E, quando chegam ao Brasil, querem implementar a filosofia de produção, como querem trabalhar nas mesmas condições de legislação e salário que têm nos seus países de origem”.

(Fonte da imagem: Gizmodo)

Em Jundiaí (SP), local onde foi instalada uma fábrica da Foxconn com 6 mil funcionários, a companhia também recebe críticas. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, os trabalhadores locais da companhia realizaram protestos por questões que iam de transportes superlotados a jornadas de trabalho longas e falta de planos de carreira.

Um funcionário da prefeitura de Jundiaí garante que os protestos por parte dos trabalhadores são novos na região. “Greves não são comuns por aqui. O problema parece envolver apenas a Foxconn”, relatou à publicação.

A legislação trabalhista no Brasil é, de longe, bem mais rígida do que é na China, o que garante — ou deveria garantir — melhores condições de trabalho. Mas é claro que casos isolados podem acontecer, bem como problemas de ordem pessoal no ambiente de trabalho. De qualquer modo, dá para afirmar que no Brasil não há (pelo menos por enquanto) um problema generalizado nesse sentido.

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