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Lançado oficialmente no Brasil nesta semana, Pokémon GO pode facilmente ser considerado o maior fenômeno mobile do ano. Basta andar nas ruas de uma cidade como Curitiba (que é casa de uma das sedes da NZN) para encontrar desde jovens com uniformes de colégio até engravatados com seus 30 e poucos anos de idade atentos à tela do smartphone em busca de novas criaturas e pokéstops.

Bastante cético com os materiais divulgados pela Niantic, comecei a experiência sem muito entusiasmo e, poucos dias depois, me vejo aproveitando os momentos de descanso para conferir se há algum monstro na região. Embora eu entenda que há fãs de longa data que acreditam que o jogo “perde a essência da série” e por isso não é uma experiência válida, me vejo forçado a discordar.

É casual, mas isso é algo bom

Pokémon GO em nenhum momento teve pretensões de substituir a série principal de jogos disponível na linha de portáteis da Nintendo. Desde o início ficou clara a ideia do game de ser uma experiência mais casual, que foi desenvolvida propositadamente para ser mais simples e acessível.

Embora agrade fãs de longa data da série, o título não é feito exatamente para eles. O grande sucesso do jogo surge do fato de que ele consegue agradar quem cresceu vendo o desenho e brincando com os bonecos e pelúcias associados à série, mas nunca teve a oportunidade de contar com um GameBoy Color ou um Nintendo DS — ou simplesmente nunca quis fazer isso.

O game é uma experiência mais casual, mas isso não é algo ruim

Para o público em geral, pouco importa se os jogos clássicos envolviam passar longas horas fazendo “grind” e montando uma equipe balanceada. Para a maioria das pessoas, isso não é divertido nem viável em um espaço de tempo de 5 minutos na fila de um banco — em compensação, é prazeroso saber que há uma grande chance de eu conseguir capturar uma criatura nova logo após tirar o celular do bolso.

Concordo: atualmente a experiência oferecida pela Niantic é um tanto rasa, principalmente no que diz respeito às batalhas. Infelizmente, sequer é possível aproveitar direito os combates nos ginásios devido ao fato de a maioria estar dominada por trapaceiros que usam sistemas como o fakegps para inflar o nível de seus monstros.

No entanto, mesmo quando a empresa resolver esses problemas e incorporar o sistema de confrontos diretos entre jogadores, espero que em nenhum momento eles se tornem iguais ao que vemos nos portáteis da Nintendo — tanto por não precisar disso quanto pelo fato de isso fugir completamente da proposta de acessibilidade do universo mobile.

A experiência agrega valor à marca

Quem critica Pokémon GO porque ele não apresenta a experiência clássica vista anteriormente parece não entender que não é preciso uma repetição do que vimos no passado. Esses dois universos podem existir muito bem e, inclusive, fortalecer um ao outro no processo — algo que Reggie Fils-Aime, presidente da Nintendo of America, explica bem melhor do que eu poderia.

“Você pode ter a analogia de um petisco, você pode ter a analogia de uma refeição completa. O que descobrimos é que na hora de entregar uma refeição, ainda é melhor fazer isso em um sistema portátil dedicado. Você tem o poder de processamento, todos os controles e botões. Então, para essas experiências robustas, um sistema dedicado faz sentido”, explicou ele ao The Washington Post em 2015.

Os jogos para 3DS devem ser considerados como o "prato principal" da franquia

“Para coisas mais parecidas com petiscos, um pouco mais leves e que consomem menos tempo, é aí que vemos muitos games para dispositivos inteligentes, seja ele um smartphone ou tablet. Acreditamos que, feito do jeito certo, podemos introduzir nossas propriedades intelectuais aos consumidores através desses gadgets. Conforme eles veem o que é divertido em Mario, eles podem querer a refeição completa e obter sua versão real em nosso portátil dedicado ou em nosso sistema doméstico”.

A comparação entre petisco e refeição completa se encaixa muito bem no universo de Pokémon GO, por mais que o jogo não tenha sido desenvolvido completamente pela Nintendo. O que vemos aqui é somente uma versão simplificada do que os RPGs lançados pela empresa japonesa construíram nos últimos anos — e isso não é algo ruim.

O game para smartphones não foi construído somente para quem já tem uma memória afetiva com a série no universo dos jogos, mas também para aqueles que conhecem Pokémon como parte de um fenômeno cultural mais amplo. Querer criar essa “redoma de vidro” em volta da propriedade e dar a entender que a novidade é “ruim” porque não replica todos os elementos do passado é não entender quais são os verdadeiros objetivos dela.

As batalhas são mais rasas, mas o propósito do game nunca foi ser muito complexo

Provando de que ambos os meios são capazes de conviver em paz, o lançamento de Pokémon GO também pode ser ligado a um crescimento de 222% nas vendas do 3DS e de 234% do 2DS, além de um aumento na comercialização dos jogos mais recentes da série. Ou seja, o trabalho na Niantic não está afastando as pessoas dos meios mais tradicionais, mas sim estimulando novos e velhos fãs a procurar a experiência mais robusta oferecida pela Nintendo.

Estímulo social ainda maior

Vamos ser sinceros: em todos os capítulos da série Pokémon, a Nintendo tentou estimular que jovens saíssem de casa e conhecessem pessoas. Seja oferecendo conectividade através do finado cabo link ou apelando para gadgets como o PokéWalker (dos remakes de Gold e Silver), a empresa sempre procurou dar um caráter social aos seus jogos.

No entanto, por mais populares que o GameBoy, o DS e o 3DS sejam, eles nunca chegaram ao patamar de adoção que os smartphones atuais. Acessíveis nas mais diferentes faixas de preço e tamanho de telas, os dispositivos são uma porta de entrada muito mais convidativa ao universo de Pokémon do que um portátil dedicado.

Essa é uma cena comum em países que já contam com o game

E vamos ser sinceros: ao menos no Brasil, é muito mais socialmente aceito andar com um celular na mão do que com um portátil, especialmente pelas faixas de idade mais altas. Essa acessibilidade, somada ao apelo das criaturas de bolso, está fazendo com que muitas pessoas tímidas e com diferentes graus de ansiedade social saiam de casa e interajam com outras em seu caminho para recarregar pokébolas ou capturar um Squirtle.

É até estranho pensar que coube à Niantic, uma companhia mais ligada a mapas do que a jogos, conseguir um objetivo que a Nintendo tentou durante anos. Conseguir conciliar um jogo divertido (mesmo que raso em comparação a outras experiências da série) a interações com outras pessoas (confie em mim, você vai saber quando outros jogadores estiverem na área) e exercícios é algo extremamente difícil que a desenvolvedora conseguiu fazer com maestria.

O game serve como estímulo para que muitos superem doenças e ansiedades

O game inclusive já está sendo usado em algumas unidades hospitalares como forma de melhorar o tratamento de pacientes. O C.S. Mott Children’s Hospital, por exemplo, usou o jogo como ferramenta para convencer que crianças deixassem seus leitos e interagissem com outros pacientes, fazendo com que elas se esquecessem durante certo tempo de suas condições.

“Deixa os meninos brincar”

Pokémon GO pode nunca ter a profundidade dos capítulos da franquia principal para os portáteis da Nintendo, mas discutir se isso é bom ou ruim sequer faz sentido quando levamos em consideração que essa nunca foi a sua proposta. Se para você o importante é ter em sua “carteirinha gamer” a experiência de ser líder de ginásio e treinar IVs ou EVs, tudo bem — isso não significa que a existência de experiências diferentes diminua o valor daquilo de que você gosta.

Acreditar que o game da Niantic falha por não ser algo que nunca propôs ser é no mínimo estranho

Acreditar que o game da Niantic falha por não ser algo que nunca propôs ser é no mínimo estranho, e me parece até certo fruto de desconhecimento de sua proposta. Obviamente, ninguém vai obrigá-lo a gostar de uma experiência que não lhe agrada — afinal, não curtir algo é sempre seu direito —, mas isso não justifica tentativas de transformá-la em algo que vai fazê-la perder a essência.

Nem que seja falando estritamente de marketing, Pokémon GO parece uma experiência que só tende a fortalecer a marca, especialmente entre o público que não se considera “hardcore” e só quer um jogo divertido ou participar de um evento social. Resta esperar somente que seu sucesso não faça a Nintendo desistir da experiência que criou em seus dispositivos portáteis, mas sim aposte no convívio pacífico entre as duas opções e qualquer projeto futuro envolvendo os monstros de bolso.

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