Dando continuidade à nossa série de artigos com dicas para overclocking, apresentamos a segunda parte. As dicas são do overclocker profissional Ronaldo Buassali, recordista mundial em diversas categorias.

As dicas de hoje servem em especial para quem trabalha com as plataformas Intel socket 2011, mas a maioria delas serve perfeitamente para as plataformas 1366, 1156, 1155 e a mais recente, 1150. Algumas dessas informações também servem de referência para plataformas AMD mais antigas, contudo, em breve deveremos ter artigos mais específicos para esses sistemas.

Overclocking é uma técnica em que se força os componentes do computador (geralmente processador, memória e placa de vídeo) a rodar acima das especificações originais de fábrica. Esse desempenho extra deixa a máquina mais poderosa, mas é preciso entender que alguns equipamentos podem perder a garantia se utilizados acima dos padrões originais. Como o overclock pode danificar os componentes, antes de realizar qualquer procedimento certifique-se de estar ciente dos perigos.

No artigo de hoje vamos nos aprofundar no elemento processador (CPU), com uma breve introdução ao assunto de memórias.

A maioria das modificações sobre as quais vamos tratar encontram-se na BIOS (Basic Input Output System) da máquina. Para acessar esse painel de controle, você deve pressionar a tecla DEL assim que ligar a máquina. Vale lembrar que alguns componentes trabalham com teclas diferentes, como F2 ou até mesmo F12.

Overclocking do processador

O overclocking do processador se deve ao aumento de frequência em consequência da mudança de um dos dois parâmetros principais de seu funcionamento, o BCLK (FSB), que é a "frequência base", e/ou um multiplicador interno do processador (Ratio). Veja o exemplo:

100 MHz (BCLK) x 34 (ratio) = 3.400 MHz

Aumentando a frequência base de 100 MHZ para 110 MHz e mantendo o multiplicador em 34 teríamos um processador trabalhando em 3.740 MHz.

É claro que nem todos os processadores permitem o aumento desses parâmetros. É por isso que muitos fabricantes identificam os modelos com “multiplicador destravado”, como as CPUs terminadas com o sufixo K da Intel, por exemplo. Algumas placas-mãe também não permitem esse tipo de modificação nos equipamentos, portanto, antes de realizar um overclock é importante pesquisar se a sua máquina tem os requisitos necessários para o processo.

É assim que os profissionais fazem! (Fonte da imagem: Ronaldo Buassali)

Na maioria das vezes, não são necessárias outras alterações que não essas duas (aumento do multiplicador e/ou BCLK) para se conseguir um aumento importante na frequência de trabalho, mas existe um limite. Essa barreira só pode ser ultrapassada com o aumento nas tensões de trabalho.

Abaixo, veja alguns dos principais parâmetros e tensões presentes na BIOS dos computadores. Vale lembrar que, como citamos anteriormente, nem todas as placas-mãe disponíveis no mercado possuem todas essas configurações.

VCC (Tensão da CPU) — É importante verificar junto ao fabricante as recomendações de tensão máximas. Nas plataformas em referência neste tópico, a tensão normal para este item gira em torno de pouco mais de 1,0 V. Tensões abaixo de 1,32 V são bastante seguras e podem promover, dependendo do processador, um excelente aumento de desempenho. Para overclock em um nível mais alto, a indicação é manter abaixo de 1,42 V para utilização dia a dia (apenas como referência). Contudo, dependendo do objetivo do overclock, esse valor pode ser ainda mais alto, chegando 1,60 V ou até mais. Como a tensão do processador é diretamente proporcional à geração de calor, é sempre importante ter um sistema de refrigeração adequado.

VCCIO (VTT) — é a tensão do controlador de memória do processador. A função dela é ajudar a estabilizar o overclocking de memória quando for necessário alterar os seus parâmetros. Dependendo do nível requerido, ela deve ser modificada, mas basicamente deve ser utilizada apenas quando o objetivo seja realizar over nas memórias. Essa configuração pode causar danos aos componentes se não for utilizada com cautela. Caso deseje trabalhar com essa configuração, o ideal é subir gradativamente a tensão (0,02 ou 0,03 volts), conforme for incrementando os parâmetros da memória (maior frequência e/ou menor latência).

VCCSA (System Agent) — É uma tensão que deve ser alterada com cuidado. Ela ajuda quando o usuário quer forçar o aumento do BCLK e da memória (consequentemente o aumento do BCLK causa a elevação da frequência da memória). As observações de implementação de voltagem são as mesmas para o VCCIO (VTT), ou seja, subir as tensões de forma gradativa.

VCC PLL (Phase-Locked Loop) — é uma voltagem interna do gerador de frequência da CPU. Tem muita importância no controle de temperatura. Se você a diminuir, vai diminuir a temperatura final. Em situações em que a temperatura é limitante, é possível conseguir alguns MHz a mais diminuindo esse parâmetro. Porém isso pode custar (ou não) a estabilidade do sistema.

Também, por vezes, o seu aumento pode causar maior estabilidade para o overclocking. Cada CPU tem um comportamento particular com esse parâmetro, cabendo ao usuário achar o melhor ponto de equilíbrio entre o calor e a estabilidade do computador em função deste valor. Como sempre, a recomendação é aumentar ou diminuir a tensão em passos pequenos para evitar problemas.

Refrigerar os componentes adequadamente é importante. (Fonte da imagem: Ronaldo Buassali)

DRAM Voltage — É a voltagem da memória. Para aumento de frequência e/ou diminuição de latência, essa configuração influencia a estabilidade do sistema. Não existe um valor exato, pois cada chip possui propriedades únicas. 

Algumas memórias são fabricadas com tensões bastante baixas (1,35 volt por exemplo), mas a maioria das memórias modernas opera de 1,50 a 1,65 volt. Os valores máximos de aumento dependem do nível de aumento exigido e da qualidade do chip, mas, dependendo do objetivo da modificação e dos equipamentos, é possível chegar a 2 volts.

LLC - Load Line Calibration — Quando um processador é requerido, a sua tensão cai (drop). O LLC é um recurso que produz uma "alimentação extra" para impedir BSOD, falhas e travamentos. Esse parâmetro deve seguir o mesmo nível de alteração dos outros itens, ou seja, overclocks maiores exigem tensões maiores.

PCH (Voltagem do South Bridge) — pode ser deixada no automático para overclock usual. Somente em casos de overclocking extremo justifica-se sua alteração.

Clock Skew (relógio de inclinação) — É um "ajuste fino" para obter o máximo do overclock após os valores máximos terem sido alcançados. É mais usado com refrigeração extrema (abaixo de 0 °C). A função do Skew é deslocar o ponto de partida do gerador de clock, alinhando esse com o sintetizador de frequência da CPU.

Transientes elétricos, ruído da fonte, capacitância e até a distância entre os componentes (CPU, RAM) podem interferir no gerador de clock. Quando aumentamos os valores do multiplicador (ratio) ou do BCLK, os índices de transferência de dados também se alteram, de forma que a margem de transferência — em condições de estabilidade — vai se deteriorando. Então, avançamos ou atrasamos o Skew (em picossegundos), com objetivo de mudar o tempo de chegada das informações, alinhando o relógio do CPU com o sintetizador de clock. O mesmo ocorre com o Skew da memória. É algo bastante sensível e detalhado, para tentar extrair os últimos MHz possíveis.

IGPU — Se usar o gráfico integrado, você deve mexer no IGPU, mas não falaremos neste momento de GPU integrada.

A BIOS do sistema também apresenta algumas configurações extras que podem ser modificadas para se atingir melhores resultados. Veja quais são elas:

  • Hyper Threading: ativa ou desativa os núcleos virtuais ativos do processador;
  • CPU Core: permite habilitar o número de núcleos físicos que você deseja utilizar;
  • Spectrum: espalhamento espectral (interferências) — não tem utilidade para o overclocking, logo, recomenda-se desabilitar este recurso;
  • Virtualization: serve apenas para quem for utilizar virtualização (mais de um sistema operacional rodando simultaneamente). Para overclocking, a recomendação é desativar essa opção;
  • Internal PLL: Habilitar para overclocks mais agressivos;
  • C1E: estado de diminuição de atividade — não tem utilidade para overclocking e deve ser desativado;
  • C State: são modos de energia — não têm utilidade para overclocking e podem ser desabilitados;
  • Turbo Boost: deve-se ativar esta opção para não limitar o overclock;
  • Intel Speed Step (EIST): esse recurso serve para baixar a tensão do processador quando este estiver em Idle (repouso). Não tem utilidade para overclocking e pode ser desabilitado;
  • Hardware Prefetcher: busca fluxos de dados e instruções da memória para o cache de segundo nível. Deve ficar habilitado;
  • Adjacent Prefetch: aciona duas linhas de 64 bytes de cache (128 bytes), aumentando a utilização do BUS e consequentemente processando mais informações. A recomendação é habilitar essa opção;
  • Power Saving Mode: economia de energia — não tem utilidade para overclocking e deve ser desabilitado;
  • Execute Disable Bit: protege a máquina contra de códigos maliciosos na memória — não altera as condições de overclocking;
  • Thermal Monitor: é um sistema de proteção do sistema e deve ser desativado em caso de overclocks mais agressivos.

Para o caso da nova plataforma 1150, temos ainda a possibilidade da alteração de diversos recursos do North Bridge, que pode trazer uma significativa melhora no desempenho do sistema. Veja quais são eles:

  • VRin: tensão do VRM (alimentação) — valores como 2,4 volts para referência de máxima tensão no ar (2,9 V LN2);
  • CPU Ring: tensão do cache — valores como 1,35 volt para referência de máxima tensão no ar (1,6 V LN2);
  • VCCIO — neste caso, com parâmetros analógico e digital — (+0,2 V ar ~ +0,5 V LN2);
  • PCH Voltage: tensão do PCH — 1,15 V ~1,20 V ar/LN2;
  • VCCSA: tensão do System Agent — +0,23 V para referência de máxima tensão no ar e +0,28 V LN2;
  • DRAM Voltage: nos CPUs Haswell, dependendo-se do chip e do nível de overclocking, podem ser necessárias tensões maiores (acima de 2,0 V), mesmo em refrigeração normal. Limite para LN2 > 2,2 V.

(Fonte da imagem: Reprodução/Wikimedia)

    Outras dicas importantes

    Para fazer os núcleos trabalharem sem "parking" (diminuição ou parada de atividade) e garantir um melhor desempenho em benchmarks multithread e, em especial, os softwares 3D mais modernos, você pode executar a seguinte configuração:

    Core Parking:

    Dentro do Windows, vá até o registro do sistema e procure pela chave:

    0cc5b647-c1df-4637-891a-dec35c318583

    Mude todos os valores mínimos ou máximos que aparecerem com o número 64 para 0 (zero).

    O número 64 indica que todos os núcleos podem ser paralisados, e o número zero o contrário, ou seja, todos os núcleos devem permanecer ativos.

    Outra dica importante para quem possui placas de vídeo da NVIDIA é instalar o NVIDIA Inspector, um software que permite a visualização e a realização de configurações avançadas na placa de vídeo.

    Como sabemos, o overclocking pode resultar em falhas no funcionamento da máquina. Muitas vezes os problemas encontrados são informados pelo próprio Windows, com as suas "famosas" telas azuis da morte (BSOD = Blue Screen Of Death).

    Veja abaixo uma lista dos principais códigos de erro que aparecem quando algo está errado e suas recomendações:

    • 0×124 = aumentar ou diminuir a tensão do Vcore or VTT;
    • 0×101 = aumentar tensão do Vcore;
    • 0x1E = aumentar tensão do Vcore;
    • 0x3B = aumentar tensão do Vcore;
    • 0xD1 = aumentar tensão do VTT;
    • 0x9C = aumentar a tensão do VTT (ocasionalmente pode requerer aumento do Vcore);
    • 0X109 = aumentar a tensão da RAM;
    • 0×50 = erro nos timings/frequência da RAM (adicionar voltagem à RAM ou VTT);
    • 0x0A = aumentar tensão do VTT;
    • 0x1A = erro do gerenciador de memória e pode ser ocasionado por um pente defeituoso. Teste os pentes de memória e, se não houver problemas, tente aumentar a voltagem da RAM. Outra possibilidade é a falta de tensão no South Bridge;
    • 0×19  = erro de tensão nas memórias.

      O objetivo desse artigo é mostrar um pouco mais dessa emocionante atividade que é o overclocking. Contudo, como já dissemos antes, toda e qualquer modificação sugerida aqui é de inteira responsabilidade do usuário, pois trabalhar com os componentes acima dos parâmetros originais de fábrica pode resultar em danos irreparáveis aos equipamentos.

      Artigo produzido por Ronaldo Buassali (rbuass) e Jacson Schenckel (schenckel bros).

      Não deixe de conferir a primeira parte desse artigo que contém informações preciosas para quem está começando na área do overclocking.

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