De acordo com Boyd Cohen, arquiteto urbanista e especializado em smart cities, uma cidade inteligente consiste em um local que explora tecnologia e inovação com o intuito de usar recursos de forma eficiente, bem como reduzir o tamanho da pegada ecológica e, consequentemente, impulsionar a qualidade de vida dos seus habitantes.

Mas esse conceito foi levado a outro nível com a Smart City Laguna. A cidade, localizada em Croatá, a 60 quilômetros de Fortaleza, no Ceará, prevê não apenas a sustentabilidade e a consequente qualidade de vida por meio do uso de tecnologias inteligentes, mas também (e principalmente) a acessibilidade.

A começar pelos valores das casas disponibilizadas para a venda. Em smart cities comuns, lotes são vendidos a milhares de dólares o metro quadrado. “Essa é especial para o público de baixa renda. Uma casa de 150 metros quadrados sendo vendida por cerca de R$ 130 mil. Esse é o principal diferencial”, afirma Susanna Marchionni, sócia e administradora da SG Desenvolvimento, empresa responsável pelo projeto, em entrevista ao The BRIEF.

E é isso que faz da Laguna a primeira smart city social do mundo. “Globalmente, existem várias smart cities, mas essa é a primeira social”, afirma Susanna. Ela explica que, como outras cidades inteligentes, a Laguna possui a questão de qualidade de vida, mas aqui a ênfase é no social. “Mais importante é o envolvimento social dos moradores, trazer mais cultura, mais segurança, envolver as pessoas na cidade”, completa.

De acordo com a executiva, o desenvolvimento da cidade foi baseado em 4 pilares. O primeiro deles com foco em planejamento urbano e arquitetura, resultando em ruas compostas por calçadas de 2,5 a 7 metros, permitindo que haja espaço tanto para árvores quanto para pessoas, por exemplo.

Comércio e empresas também estão vivendo em harmonia com residências. “A pessoa pode morar perto de lojas e academias, para não precisar passar horas se deslocando. Se o cidadão não possui carro, pode andar a pé por cada canto da cidade”, explica. Além disso, a malha de ciclovias engloba toda a cidade, com pistas protegidas.

Como segundo pilar, há o meio ambiente. Nesse sentido, o planejamento da cidade foi cuidadosamente feito para que tudo funcione de forma sustentável — até mesmo as empresas escolhidas para atuar na região precisam ter políticas contra poluição.

A sustentabilidade também é possibilitada pelo amplo uso de sensores, que são aplicados em diversos locais da cidade, como postes de luz, fazendo com que recursos sejam usados de forma inteligente.

O terceiro pilar é a tecnologia. Esse já está implícito, por ser uma cidade inteligente, mas, além das aplicações na estrutura, a cidade funciona toda por meio de um aplicativo. Assim, todos os moradores da Laguna têm a possibilidade de, por exemplo, verificar e controlar seus próprios gastos.

“Temos parceiros para colocar medidores inteligentes em casas. Por meio do app, a pessoa pode consultar quanto está gastando por mês. Se quer gastar no máximo R$ 150, por exemplo, quando atingir os R$ 120 o aplicativo avisa o usuário”, comenta Susanna.

Além disso, a executiva cita outras facilidades como o botão SOS, em que o indivíduo configura telefones para casos emergenciais. “Você pode gravar uma mensagem para números específicos, e o app automaticamente geolocaliza você [ao apertar o botão], assim amigos conseguem te procurar e te ajudar”, comenta.

O aplicativo também tem objetivo de ser usado como uma ferramenta para a comunidade. Desse modo, se uma pessoa está indo para Fortaleza, por exemplo, pode abrir um grupo e avisar os vizinhos  quem tiver interesse pode combinar de fazer o trajeto em conjunto, em uma espécie de carona compartilhada.

Por fim, mas não menos importante, há o projeto de inclusão social. Esse, aliás, é um dos pilares mais importantes, ressalta Susanna. “A infraestrutura é 50% [do projeto], os outros 50% são o social”, explica, complementando que a ideia é criar um senso de envolvimento e pertencimento nas pessoas. “Os moradores precisam ser protagonistas da cidade”, afirma. “Eles precisam entender que aquilo que é público é deles e tem de ser cuidado”, completa.

A cidade também tem como uma das prioridades disponibilizar iniciativas gratuitas para promover a integração. Nesse sentido, a biblioteca oferece acesso gratuito, bem como algumas sessões de cinema semanais (incluindo grandes títulos). Há também cursos à disposição de todos e serviços como aulas de inglês, academia. “Tudo começa pela educação: a ideia é que ela tenha valor de primeira importância aqui”, aponta Susanna.

As iniciativas sociais são feitas por meio do Instituto Planet, uma organização sem fins lucrativos que fica na cidade e que, neste mês, completará 1 ano de existência.

Tecnologia

Além do aplicativo, a ideia é transformar a cidade em um laboratório, para gerar diversas iniciativas tecnológicas que possam transformar o projeto e a vida dos moradores.

Nesse sentido, a Laguna abriu recentemente um concurso para selecionar interessados que queiram auxiliar na criação de projetos com foco em serviços ligados aos cuidados com ambiente/gestão de rejeitos e da água; serviços de gestão e manutenção das habitações; de âmbito local ligados à família (cuidado com crianças, idosos e animais domésticos); que incentivem a micromobilidade; ou destinados aos segmento de alimentos, educação, lazer e atividade física e cultura.

Os selecionados nessa primeira fase poderão participar do curso de Company Creation, que tem duração de 2 meses e visa possibilitar a prototipação da ideia para aplicação real na cidade. As inscrições podem ser feitas diretamente pelo site e vão até 15 de setembro de 2017.

Já falamos sobre esse projeto aqui.

Levantando as paredes

A escolha por Croatá para receber o projeto piloto não foi por acaso. A cidade está localizada ao longo da BR-222, que também é onde está instalado o Cinturão Digital. Susanna explica que, por isso, por já possuir toda a infraestrutura tecnológica necessária instalada, ela foi selecionada  além da sua localização estratégica próxima ao Porto do Pecém, ZPE e Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) e da Ferrovia Transnordestina, o que faz com que a cidade faça parte de uma importante via comercial e industrial, bem como atraia investimentos.

Até o final do ano, a previsão é de entrega de 90 hectares, e, dentro dos próximos 4 anos, todos os 330 hectares de área residencial, comercial e industrial previstos estarão finalizados. De acordo com Susanna, já há empresas funcionando e, na próxima semana, iniciam as construções das casas. “Nesta semana estamos em festa, porque chegamos aos 1,5 mil lotes vendidos”, comemora a executiva. Ao todo, a cidade terá cerca de 25 mil habitantes.

O principal desafio de uma construção desse porte é provar que a ideia, de fato, funciona e poderá servir de modelo para ser replicado em outras partes do Brasil. “Precisamos primeiro comprovar [que o projeto é viável], que o custo de vida é menor, que aumenta a sustentabilidade e a qualidade de vida. Só assim conseguiremos replicar”, comenta Susanna, quando questionada sobre as principais dificuldades para se reproduzir esse tipo de iniciativa.

A executiva acredita que, provando que o modelo funciona, já em 2018 outras iniciativas do tipo poderão ser implementadas.

Para o levantamento do projeto, 100% do financiamento foi realizado pelos sócios  são 40 pessoas, parte de origem italiana, parte inglesa.