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Várzea: Onde Nasce o Futebol, série da Netflix, mostra bastidores do futebol amador paulista

Crítica - Nova série da Netflix mira em dar palco para o futebol amador, mas não dá tanta atenção para as raízes da várzea.

Avatar do(a) autor(a): Mateus Mognon

schedule17/06/2026, às 00:01

updateAtualizado em 17/06/2026, às 00:03

A Netflix entrou no clima da Copa do Mundo com diversas produções envolvendo futebol, desde a série dramática Brasil 70 até documentários de jogadores famosos, como Ronaldinho Gaúcho. Seguindo a onda, a empresa também lança neste sábado (20), a série documental Várzea: Onde Nasce o Futebol, que mostra outro lado do esporte no nosso país.

A produção tem como objetivo mostrar a bola que é jogada longe dos grandes estádios, em campos improvisados, no meio das favelas e comunidades. Em três episódios, acompanhamos equipes amadoras de São Paulo na disputa da Copa Pionner, o caneco mais cobiçado por jogadores da várzea paulista.

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Dirigida por Alec Cutter, que também fez “Baila, Vini”, a série documental mostra um lado pouco explorado do futebol na mídia, mas é bom ir com as expectativas alinhadas. Afinal, o recorte trazido pela produção mostra a humildade das equipes e atletas, mas também dá palco para a divisão mais profissional do futebol amador.

Times da periferia paulista ganham palco em nova série da Netflix

A série documental acompanha os bastidores das finais da Copa Pionner, a competição mais organizada e badalada do futebol amador de São Paulo. Durante os três episódios, o público é apresentado para clubes de comunidades da região, como o Raça Ruim, o Milianos, o Asa e o Maranhão Esporte Clube, conhecido como MEC.

Além de mostrar as entranhas de cada time rapidamente, o documentário segue algumas das estrelas das equipes para mostrar sua realidade fora do campo. Aqui, a série realmente mostra sua força, dando vez e voz para astros como Sujão, comissões técnicas improvisadas e a luta para manter os grupos vivos no fim de cada ciclo.

Enquanto somos acostumados a ver jogadores como Vini Jr e Neymar em festas e mansões, a realidade das estrelas da várzea é diferente. Mesmo com a presença de patrocínios e serviços de apostas nos uniformes dos clubes, até mesmo os jogadores mais cobiçados do futebol amador raramente conseguem viver da bola.

Séries traz relatos de grandes estrelas e também da violência

A produção também dá espaço para Cafu, que levantou a taça do penta, e o jogador da seleção brasileira Raphinha, que possuem conexão com os campos de terra. Ambos saíram do futebol amador das comunidades e acabaram ganhando espaço no esporte globalmente.

Os relatos de grandes estrelas do futebol moderno enriquecem o material, mostrando que a várzea também rende grandes craques, é palco para sonhos e que vai além de partidas que engajam comunidades locais. O documentário também não deixa de tocar em um assunto polêmico, o crime nas favelas, e dá voz para os astros falarem sobre o assunto.

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Raphinha, jogador da seleção brasileira, fala sobre tempos de várzea na série documental. 

Raphinha, que está jogando a Copa do Mundo nos Estados Unidos e é atacante do Barcelona, comentou sobre os seus tempos de futebol amador. “Acho que não teve nenhum estádio que eu senti tanta pressão como na várzea”, disse o atleta, “por ver o pessoal do lado de fora com arma, ameaçando a gente ou até brigando enquanto o jogo rola.”

Documentário deixa várzea de lado para explorar o ápice do futebol amador

Entre as disputas da Taça Pionner, a série mostra a vida simples dos jogadores da periferia, bem como as dificuldades enfrentadas pelas equipes e a violência que cerca esse tipo de competição nas favelas. O documentário também deixa claro como essas equipes são importantes para suas respectivas comunidades, mas acaba não dando tanto espaço para o que cerca a competição.

Nesse aspecto, temos a maior falha da produção: abandonar as raízes da várzea, que estão no próprio título da série, para dar espaço a uma competição “premium”. Enquanto vemos atletas realizando o sonho de ganhar a taça em São Paulo, a série não dá tanto espaço para personagens e histórias interessantes.

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Quando a série deixa de lado a comunidade para dar mais espaço para xingamentos durante a partida e homens gritando que vão cometer atos violentos, o futebol amador acaba sendo retratado como mais um estereótipo da favela. Com isso, a série da Netflix acaba perdendo a verdadeira magia da várzea, que é o amor pelo futebol.

E falo isso por experiência própria. No interior do Rio Grande do Sul, muito antes de virar jornalista, cresci jogando bola em campos de terra e participando de competições com o Internacional de Lagoa Vermelha, clube fundado pelo meu bisavô em uma vila da cidade.

Logo após o churrasco de domingo, meu já falecido pai, João Cesar dos Santos, pegava seu Gol quadrado branco e rodava a cidade em busca de jogadores peculiares para fechar um time e disputar os campeonatos locais. Certa vez, o clube ganhou até uma ovelha como premiação, que ficou vivendo na casa dos meus avós por anos.

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Em entrevista ao jornal Folha do Nordeste no ano de 2009, meu avô, Moisés Fonseca dos Santos, definiu bem como é a experiência de manter um time de várzea: “um ato de heroísmo”, disse ele, na época. “É preciso se doar de corpo e alma, o que exige uma dose cavalar de sacrifício. Não raras vezes, tirar dinheiro do próprio bolso. E quantos se dispõem a isso? Alguns poucos abnegados.”

Esse espírito da várzea é pincelado na série da Netflix com histórias rápidas das organizações, seu nascimento e impacto. No entanto, personagens interessantes da periferia paulista perdem espaço na narrativa para os “melhores momentos” de jogos da Copa Pionner. Quem sabe, em uma segunda temporada, a série possa revisitar o passado e o presente da várzea sem muito apego ao lado “profissional” do futebol amador.

Vale a pena assistir?

Várzea: Onde Nasce o Futebol chega na Netflix em um momento oportuno. Se você está em busca de algo para ver durante a Copa do Mundo no streaming, a série documental pode servir como uma solução rápida para alimentar a fome de bola.

A produção consegue entreter com personagens interessantes e histórias que ajudam a entender a importância da várzea para milhares de pessoas. Os depoimentos de atletas, dirigentes e ex-jogadores profissionais enriquecem a narrativa e mostram como o futebol amador continua sendo uma porta de entrada para sonhos que muitas vezes parecem impossíveis.

Ao mesmo tempo, Várzea: Onde Nasce o Futebol parece mais interessada em retratar o ápice do futebol amador paulista do que suas raízes. A Copa Pionner surge como um espetáculo, mas acaba ocupando o espaço que poderia ser dedicado às comunidades, aos campos improvisados e aos personagens anônimos que mantêm essa cultura viva todos os fins de semana.

Ainda assim, a série documental merece ser assistida. Mesmo sem capturar toda a essência da várzea que existe Brasil afora, a produção abre uma janela para um universo raramente explorado pela televisão e pelos serviços de streaming. Fica a sensação de que existe uma história ainda maior para ser contada — e que talvez uma segunda temporada possa finalmente mostrar onde o futebol realmente nasce.

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