A 21ª edição da LABACE, maior feira de aviação de negócios da América Latina, aconteceu esta semana no Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo, com números que colocam o Brasil num patamar curioso: somos donos da segunda maior frota de aviação executiva do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com 11.375 aeronaves. Os pousos e decolagens do setor cresceram mais de 12% nos últimos doze meses, e a feira reúne 55 aeronaves em exposição com expectativa de superar os US$ 150 milhões em negócios fechados. São números de mercado aquecido, sim, mas o mais interessante não é o tamanho da festa. É o que ela revela sobre para onde a inovação aeronáutica está indo: autonomia, conectividade e eletrificação.
Comecemos pela autonomia. Boa parte das novidades técnicas da LABACE gira em torno de sistemas de segurança que, até pouco tempo, eram exclusividade de jatos premium e agora migram para categorias mais acessíveis. A Synerjet apresentou o turboélice Pilatus PC-12 PRO com a suíte Garmin G3000 PRIME, que traz telas touchscreen de 14 polegadas com suporte a dez toques simultâneos — piloto e copiloto podem interagir com a mesma tela ao mesmo tempo. Mas o destaque real é outro: o Garmin Autoland, capaz de assumir o controle total da aeronave caso o piloto fique incapacitado, avaliando combustível, condições climáticas e aeroportos próximos para pousar sozinho, sem intervenção humana.
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O mais relevante, porém, é a democratização dessa tecnologia. No Cirrus SR22T G7+, o sistema batizado Safe Return chegou pela primeira vez a um monomotor a pistão de série — ou seja, um avião de entrada, não mais restrito a jatos de ponta. Qualquer passageiro pode apertar um botão no teto da cabine para que a aeronave navegue sozinha até o aeroporto mais próximo, evite mau tempo e obstáculos, converse com o controle de tráfego aéreo e pouse sem qualquer intervenção humana.
Na eletrificação, o marco veio da Líder Aviação, maior empresa de aviação executiva da América Latina, que fechou parceria exclusiva com a americana Beta Technologies para trazer ao Brasil aeronaves 100% elétricas: o eCTOL CX300, de decolagem e pouso convencionais, e o eVTOL Alia 250, de decolagem e pouso verticais, sem sistema tilt-rotor, o que reduz a complexidade mecânica do equipamento. Já foram encomendadas três unidades, com opções de compra para mais 50, mirando voos shuttle entre aeroportos, transporte aeromédico, cargas e voos corporativos sob demanda. A certificação pela FAA e pela ANAC está em fase final, com homologação prevista para o começo de 2027.
Enquanto isso, na aviação comercial…
O avanço recente no “mundo real” da aviação comercial foi de distância, não de velocidade. No fim de julho, um A350-1000ULR de testes da Airbus completou o maior voo já realizado por uma aeronave comercial, ligando Melbourne a Toulouse sem escalas: 23.075 km em 24 horas e 24 minutos, superando o recorde que pertencia a um Boeing 777-200LR desde 2005. A aeronave é a versão de ultra-longo alcance desenvolvida para o Projeto Sunrise, da Qantas, que pretende operar voos diretos entre a Austrália e cidades como Londres e Nova York a partir do ano que vem.
Mas a distância resolvida escancara o problema que resta: a velocidade. Desde a aposentadoria do Concorde, em 2003, voamos praticamente na mesma velocidade dos jatos das décadas de 1960 e 70 — cerca de 900 km/h. A aposta para mudar isso é o Overture, da Boom Supersonic, projetado para cruzar a Mach 1,7 com 100% de combustível sustentável e uma tecnologia batizada de “Boomless Cruise”, que tenta eliminar o estrondo sônico no solo. A United Airlines já encomendou 15 unidades, mas o protótipo em escala real só deve aparecer em 2027, e a certificação da FAA esbarra na proibição histórica de voo supersônico civil sobre terra nos Estados Unidos. Se tudo correr bem, a operação comercial não deve começar antes de 2029 ou 2030.
O retrato que fica é o seguinte: perto do chão, a aviação já aprendeu a se cuidar sozinha e a rodar sem motor a combustão. Longe dele, ainda estamos presos à mesma velocidade de 70 anos atrás. A inovação, aparentemente, avança em camadas — e cada uma tem seu próprio relógio.
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