O segundo trimestre de 2026 entrou para a história do venture capital. O principal responsável foi a SpaceX, que realizou o maior IPO já registrado, levantando US$ 75 bilhões e alcançando uma avaliação inicial de US$ 1,77 trilhão. Dias depois, a companhia anunciou a aquisição da Anysphere, criadora do Cursor, por US$ 60 bilhões — a maior compra de uma startup da história.
Mas, por trás dos recordes, existe uma história mais importante: a concentração. Segundo a Crunchbase, o venture capital global movimentou US$ 510 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026 — mais do que todo o ano de 2025. O mais impressionante, porém, é que OpenAI e Anthropic sozinhas captaram US$ 217 bilhões, o equivalente a 43% de todo o capital investido no mundo no período.
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A inteligência artificial já representa mais de 70% de todo o funding global. Nunca houve tanto dinheiro disponível, mas ele está chegando a um grupo cada vez menor de empresas. O mesmo movimento aparece na liquidez. O trimestre registrou recordes em IPOs, M&A e valor total de exits. Após anos de um mercado praticamente fechado, finalmente há sinais concretos de reabertura. A questão é que essa liquidez parece tão concentrada quanto o funding. Boa parte dos ganhos está restrita aos poucos fundos que conseguiram entrar cedo em empresas como OpenAI, Anthropic e SpaceX.
Enquanto isso, a América Latina vive uma realidade bem diferente. A região mostrou recuperação no volume investido, mas com uma dinâmica mais pragmática: menos rodadas, cheques maiores e um foco muito maior em eficiência operacional. A concentração também existe por aqui — a rodada de US$ 300 milhões da Kavak respondeu por quase um terço do capital investido no trimestre —, mas em uma escala incomparavelmente menor.
Outro aspecto importante é que parte relevante do que aparece como venture capital na região não é equity tradicional. No Brasil, por exemplo, uma parcela significativa dos recursos vem por meio de FIDCs, dívida estruturada e veículos híbridos, algo que muitas análises internacionais costumam ignorar. A IA também está presente, mas sob uma lógica diferente da observada no Vale do Silício. Em vez de construir modelos fundacionais, as empresas latino-americanas usam inteligência artificial para aumentar produtividade, reduzir custos e melhorar margens em setores como fintech, logística e serviços. É menos chamativo — e talvez mais sustentável.
Minha principal conclusão é que hoje existem dois mercados de venture capital. O primeiro é o mercado de frontier AI, concentrado entre São Francisco e Seattle, onde poucos players absorvem volumes de capital sem precedentes. O segundo é todo o restante do ecossistema, incluindo a América Latina, onde os investidores continuam ativos, mas exigem muito mais disciplina, governança e eficiência.
O capital voltou, mas estamos falando de mercados muito diferentes. Em alguns lugares, abundância de recursos continua sendo a regra; em outros, cada dólar exige mais evidências, disciplina e execução do que nunca.
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