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Vertu: o histórico misterioso da marca de celular utilizada por Virgínia

O Agent Q, celular que aparece em fotos da Virgínia, é um topo de linha com ficha técnica confusa; em contato com o TecMundo, a Vertu confirmou a parceria com Virgínia e deu detalhes dos celulares da marca.

Avatar do(a) autor(a): Igor Almenara Carneiro

schedule27/05/2026, às 22:00

updateAtualizado em 28/05/2026, às 10:46

A influenciadora Virgínia Fonseca (@Virginia, no Instagram) apareceu em Dubai com um celular caríssimo, um Agent Q Stitched Calfskin, em uma publicação feita em 19 de maio deste ano. O aparelho rapidamente chamou a atenção nas redes sociais após a influenciadora publicar fotos segurando o dispositivo de grife. 

O Agent Q Stitched Calfskin é um celular Android da Vertu, uma marca de nicho cujo portfólio é composto exclusivamente por celulares de luxo. A fabricante é pouco conhecida internacionalmente devido ao seu público alvo extremamente restrito, uma vez que seus celulares custam vários milhares de dólares – como o Agent Q de Virgínia, vendido por US$ 5.380 (cerca de R$ 27,3 mil na cotação atual).

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O que é o celular Agent Q da Vertu?

O Agent Q foi lançado pela Vertu em novembro de 2025. Segundo a empresa, o aparelho é pensado para "fundadores solo ou startups enxutas", já que pode lidar com diferentes atividades por conta própria – comprar passagens de avião, marcar reuniões, analisar a concorrência e lidar com comunicação rápida – usando um agente de inteligência artificial próprio.

Abaixo, confira a ficha técnica do Agent Q:

  • Tela: AMOLED de 6,02", Full HD, 120 Hz;
  • Processador: Qualcomm Snapdragon 8 Elite Supreme (3 nm);
  • Memória: 16 GB de RAM;
  • Armazenamento: 1 TB;
  • Câmeras: Principal 50 MP (sensor IMX906), Ultrawide 50 MP, Telefoto 64 MP com OIS, Frontal 32 MP;
  • Conectividade: 5G, Wi-Fi 7, Bluetooth 5.4 e NFC;
  • Bateria: 5.564 mAh com recarga rápida de 65 W;
  • Extras: Chip A5 para criptografia, alto-falantes duplos DTS Ultra.

Nessa composição, há inconsistências bastante evidentes. Embora o chipset mais moderno da Qualcomm realmente seja o Snapdragon 8 Elite (e suas variantes), o modelo Snapdragon 8 Elite Supreme não foi anunciado em nenhum momento, e não há nenhum outro aparelho conhecido que afirme ter o mesmo componente.

Existe a possibilidade de a Vertu ter desenvolvido uma variante exclusiva do Snapdragon 8 Elite para seus celulares, como a Samsung fez com o Snapdragon 8 Elite for Galaxy nos Galaxy S26. Contudo, não existe documentação que registre essa colaboração, diferente do Snapdragon 8 Elite for Galaxy, cuja existência é amparada pela própria Qualcomm.

Há também detalhes estranhos na composição. No site oficial da Vertu – na página dedicada ao aparelho e no material para imprensa –, as especificações de câmeras aparecem formatadas de forma inconsistente: a abertura da câmera ora é descrita com "F" maiúsculo, ora com "f/".

Ainda sobre câmeras, as especificações são bem abaixo do esperado para um topo de linha. O sensor IMX906 da câmera principal é o mesmo componente presente em celulares intermediários muito mais baratos, como o antigo Galaxy A55.

Visualmente, o celular tem design bem exótico: laterais curvas, bordas de tela bastante evidentes – incomum entre flagships –, câmeras dispostas em fila horizontal, mas com um dos sensores na parte central. O modelo na mão de Virgínia parece ter a traseira de couro.

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O Agent Q tem um visual incomum entre flagships, contando com borda espessa e detalhes em couro. (Fonte: Vertu/Divulgação)

A descrição do aparelho ainda menciona 200 agentes de IA proativos, lentes com "zoom mecânico" que simula a perspectiva humana e um botão lateral "Ruby Talk" para acionar o assistente virtual.

O youtuber de tecnologia Marques Brownlee publicou um review do aparelho no YouTube em janeiro deste ano. O analista ressalta características questionáveis do dispositivo, incluindo software mal acabado, bordas de tela extremamente evidentes e até a inexistência de recursos prometidos, como a abertura variável na câmera principal.

Brownlee também mencionou a experiência confusa, demorada e cheia de erros ao usar o assistente virtual nativo. O processo de compra de uma simples camisa foi mais demorado do que uma compra convencional e aconteceu inteiramente por chat.

Vertu é uma fabricante "incomum"

Outro youtuber famoso internacionalmente, Arun Maini (Mrwhosetheboss), investigou o histórico da companhia. Ele apurou que a Vertu nasceu como parte da Nokia em 1998, sendo um braço voltado para aparelhos de luxo. Na época, um dos destaques seria a montagem inteiramente feita à mão no Reino Unido.

A empresa passou por graves problemas financeiros, layoffs e o fechamento da fábrica britânica original. Em 2018, reapareceu sob nova gestão com operações concentradas na China.

Durante sua investigação, Maini percebeu características curiosas da Vertu:

  • O site da Vertu é inteiramente ilustrado com fotos renderizadas e com erros de edição evidentes;
  • A empresa mantém artigos sobre celulares com pouco rigor factual. Em um texto citado pelo youtuber, a marca menciona o "Galaxy Z Flip 7 Ultra" como principal opção da categoria – um celular que não existe, sugerindo conteúdo gerado por IA sem revisão;
  • A Vertu divulga produtos no TikTok em vídeos para viralizar, mas com erros de digitação, perfil sem verificação e uso indiscriminado de emojis.

O celular também não é totalmente fiel à publicidade, segundo o youtuber. Ao testar o serviço de concierge para reservar um hotel, Maini percebeu indícios de que o assistente é atendido por humanos – com erros de digitação e inconsistências nas respostas. 

O software também levanta dúvidas: investigando a estrutura do sistema, Maini encontrou referências à ZTE nos nomes de processos internos, sugerindo que a plataforma não é proprietária.

Como um Vertu Agent Q chegou à Virgínia?

A Virgínia não entrou em detalhes sobre o celular nas publicações em que ele apareceu. As fotos, porém, colocam o dispositivo em evidência, com a influenciadora segurando o aparelho ou falando ao telefone.

No momento da publicação desta matéria, a influenciadora já utiliza um iPhone 17 Pro Max laranja, assim como nas publicações que antecederam a viagem a Dubai.

Não é possível confirmar que houve um acordo comercial entre Virgínia e a Vertu, mas é fato que as fotos serviram para colocar a marca na mídia nacional e na atenção do público brasileiro. Em pouco tempo, o dispositivo figurou em diferentes veículos, cujas reportagens não mencionam as estratégias suspeitas da marca ou as inconsistências do Agent Q, focando apenas no preço cobrado pelo celular de grife.

O que diz a Vertu?

O TecMundo entrou em contato com a Vertu por e-mail e a empresa deu detalhes sobre sua operação. Primeiro, a marca explicou que o chipset Snapdragon 8 Elite (apesar de o site oficial chamar o processador de Snapdragon 8 Elite Supreme) não é um hardware exclusivo.

“Escolhemos esta plataforma de ponta porque sua maturidade nos permite lidar com cargas de trabalho ‘agênticas’ — como a coordenação de tarefas orientada por IA e videoconferências de longa duração — sem a limitação de desempenho frequentemente encontrada em hardwares não otimizados”, pontua a companhia de luxo.

O Snapdragon 8 Elite  é o mesmo chipset que está presente no modelo dobrável Alphafold, que foi anunciado oficialmente nesta quinta (28) e que custa a partir de US$ 6.880 (R$ 34,8 mil).

Em relação a IA presente nos celulares, a Vertu comentou que o chamado Hermes Agent “foi projetado como uma ‘Camada Operacional Executiva’ em vez de um chatbot independente”. A IA funciona em mais de 70 apps de terceiros e tem 64 funções nativas nos celulares da marca. 

Na parte técnica, a Vertu comentou que a IA tem arquitetura híbrida: combina hardware (chip criptográfico A5 que foi projetado pela Vertu), que tem “um classificador de privacidade que gerencia dados sensíveis e a custódia de chaves localmente”, e nuvem, já que “tarefas mais complexas são executadas em nossos Serviços de Plataforma Vertu (VPS)”. A marca garante que essa operação tem "nível de segurança empresarial".

Por último, a Vertu pontuou que não possui parceria ou colaboração comercial com a influenciadora brasileira Virgínia Fonseca. “É muito comum vermos dispositivos Vertu com ícones globais e personalidades de destaque; nossos produtos são frequentemente adquiridos organicamente por aqueles que valorizam a combinação de uma marca de luxo artesanal, privacidade e status. Ficamos muito felizes que ela tenha escolhido a Vertu como seu dispositivo pessoal”, finalizou a empresa.

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