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The BRIEF

De Muros a Pontes: as ferramentas finalmente aprenderam a conversar

Opinião do Colunista — Do cofre que prendia o usuário ao ecossistema que multiplica a criatividade: como as ferramentas finalmente aprenderam a conversar.

Avatar do(a) autor(a): Denis Chamas - Colunista

schedule20/05/2026, às 12:30

updateAtualizado em 20/05/2026, às 12:58

Em 1973, o filósofo austríaco Ivan Illich publicou um livro que quase ninguém no mundo da tecnologia leu, mas que descreve com uma precisão quase incômoda o que está acontecendo agora. Em Tools for Conviviality, Illich propôs uma distinção que deveria ser obrigatória em qualquer MBA: existem ferramentas conviviais, que ampliam a autonomia criativa de quem as usa, e ferramentas industriais, que aprisionam o usuário no desenho de quem as fabricou. Umas ampliam o que você pode fazer. Outras ampliam o quanto você depende de quem as fez.

Illich escrevia sobre hospitais, escolas e estradas. Mas a taxonomia se aplica ao software com uma elegância que incomoda.

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Semana passada, um amigo me contou que começou um projeto em uma ferramenta, levou para uma segunda para refinar a lógica, usou uma terceira para ajustar o design e finalizou numa quarta para publicar. Quatro ambientes diferentes. Nenhum atrito, nenhuma conversão de formato, nenhum arquivo corrompido. O projeto fluiu entre plataformas como uma conversa entre pessoas que falam a mesma língua.

Eu fiquei ouvindo e pensando: isso é novo. Radicalmente novo.

Não a tecnologia em si... mas a mentalidade que a tecnologia finalmente permite.

O cofre como modelo de negócio

Durante décadas, a indústria de software operou sob uma lógica que, vista com alguma distância, parece absurda: a incompatibilidade era o produto. Uma estratégia deliberada de mercado, disfarçada de limitação técnica.

Nos anos 90, o Departamento de Justiça americano documentou uma doutrina que se tornou emblemática: “Embrace, Extend, Extinguish”. Abraçar um padrão aberto, estendê-lo com funcionalidades proprietárias, e usar a incompatibilidade resultante para sufocar a concorrência. Em um julgamento antitruste de 1998, um vice-presidente de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo disse, sem rodeios, que o plano era “matar o HTML estendendo-o”. Em um memorando interno da mesma época, outro executivo escreveu que permitir que seus documentos funcionassem bem em navegadores concorrentes seria “suicídio para a plataforma”.

E não era exceção. Antes disso, fabricantes de hardware já invalidavam garantias inteiras se o cliente plugasse um componente de terceiros. Compradores de música digital adquiriam, na prática, uma licença de uso restrita a um único ecossistema, trancada em formatos com DRM até o final da década de 2000.

O padrão se repetia com uma consistência quase doutrinária: você criava um arquivo em uma ferramenta e ficava preso para sempre. Se tentava importar em algo similar, o resultado era quase inutilizável. Não porque fosse tecnicamente impossível fazer diferente... mas porque fazer diferente significava perder o cliente.

O segredo industrial, nesse contexto, transcendia a proteção de fórmulas ou patentes. Era algo mais estrutural: projetar a dependência dentro da ferramenta. O muro cercava menos a fábrica do que quem usava o que a fábrica produzia.

A insurgência invisível

O open source surgiu como resposta direta a essa lógica. Sistemas operacionais abertos enfrentaram os proprietários. Bancos de dados livres disputaram espaço com os fechados. Navegadores independentes abriram brechas onde antes só havia monopólio. E venceram, de forma silenciosa e profundamente estrutural: hoje, 96% dos codebases comerciais contêm componentes open source. O mercado global de serviços de software open source ultrapassa 37 bilhões de dólares em 2025, com projeção de mais que dobrar até 2031.

Só que o open source venceu uma batalha sem vencer a guerra.

Liberou a infraestrutura, democratizou o fundamento, tornou-se invisível de tão onipresente. Mas o usuário final, aquele que cria, que produz, que combina... continuou operando dentro de interfaces proprietárias e workflows fechados. O código foi liberado... mas o gesto criativo continuou preso.

Faltava uma camada. E essa camada está chegando agora.

Ferramentas que conversam

A mudança que importa aqui tem pouco a ver com engenharia e muito a ver com filosofia.

Em novembro de 2024, a Anthropic lançou o Model Context Protocol (MCP), um protocolo aberto para conectar sistemas de IA a qualquer fonte de dados ou ferramenta. Em menos de doze meses, OpenAI, Google DeepMind e dezenas de outras organizações adotaram o padrão. O que antes era concessão relutante, a interoperabilidade, virou premissa de design. O MCP vai além de uma especificação técnica: funciona como declaração de princípio, a ideia de que sistemas de inteligência artificial devem conversar entre si sem pedir permissão a um intermediário.

Ao mesmo tempo, o “vibe coding”, termo cunhado por Andrej Karpathy em fevereiro de 2025, reorganizou o fluxo de criação de software. Hoje é possível prototipar no Lovable, refinar no Cursor, iterar no Claude Code, publicar em outra plataforma. Tudo intercambiável, tudo fluido. O Collins Dictionary elegeu “vibe coding” como a palavra do ano de 2025. Em 2026, pesquisas indicam que 92% dos desenvolvedores americanos já usam alguma forma de codificação assistida por IA no cotidiano.

Mas o dado mais revelador talvez não seja nenhum desses, e sim o que está por trás de todos eles: o valor de uma ferramenta deixou de estar na capacidade de reter e passou a estar na capacidade de conectar. Ferramentas que prendem estão perdendo espaço para ferramentas que conversam. E quem projeta software hoje, se está prestando atenção, sabe disso.

Illich, cinquenta anos atrás, chamaria esse movimento de vitória da convivialidade. A ferramenta convivial, na definição dele, é aquela que “dá a cada pessoa que a usa a maior oportunidade de enriquecer o ambiente com os frutos da sua visão”. A ferramenta industrial faz o oposto: permite ao designer determinar o significado e as expectativas de quem a opera.

Passamos décadas cercados por ferramentas industriais que se apresentavam como conviviais. Interfaces amigáveis que escondiam grades. Agora, pela primeira vez... as ferramentas parecem estar ficando conviviais de verdade.

A prova chinesa

A China oferece um caso revelador dessa inversão. O ecossistema shanzhai de Shenzhen, que o Ocidente reduziu por anos à palavra “cópia”, operava na prática com uma lógica de design compartilhado: placas-base públicas (gongban) que qualquer fabricante podia modificar, componentes open source, ciclos de iteração de semanas em vez de meses. Enquanto grandes corporações protegiam patentes, milhares de pequenas fábricas competiam por velocidade de aplicação. Em janeiro de 2025, o DeepSeek, uma startup chinesa, treinou um modelo de IA com desempenho comparável ao dos melhores do mundo, sob licença MIT, por uma fração do custo. Yann LeCun, cientista-chefe de IA da Meta, observou na ocasião que não se tratava da China ultrapassando os Estados Unidos, mas do modelo aberto ultrapassando o proprietário. A restrição de chips americanos, em vez de enfraquecer a inovação chinesa, forçou eficiência algorítmica. A escassez, em vez de paralisar, gerou criatividade.

A mentalidade que ficou para trás

Só que a mudança mais profunda nem passa pela tecnologia. Passa pela cabeça de quem a usa.

O Ponemon Institute rastreia atitudes sobre privacidade e compartilhamento há mais de uma década. Gerações mais jovens caem consistentemente nas categorias que os pesquisadores chamam de “privacy complacent”. Não porque sejam ingênuas, mas porque a relação delas com informação é estruturalmente diferente da geração anterior. O Oliver Wyman Forum identificou que 88% da Gen Z aceita compartilhar dados pessoais em troca de experiências mais relevantes, contra 67% dos adultos mais velhos. E, ao mesmo tempo, são a geração que mais usa navegadores anônimos e criptografia. Não são descuidados, são seletivos. Compartilham quando percebem valor no compartilhamento, protegem quando percebem risco real.

Projete essa mentalidade para o mundo corporativo e a tensão fica nítida. Enquanto executivos ainda negociam acordos de confidencialidade antes de abrir um PowerPoint, uma geração inteira publica o código-fonte do MVP no GitHub antes de ter o primeiro cliente. Em 2024, foram 518 milhões de contribuições em repositórios públicos. Ninguém combinou isso em assembleia... virou hábito.

A McKinsey, no estudo “True Gen”, identificou que 66% da Gen Z acredita que comunidades se formam por causas e interesses, não por barreiras econômicas ou educacionais. Eles fluem entre grupos com uma naturalidade que gerações anteriores acham desconcertante. E quando a cultura operacional de uma geração inteira trata a abertura como ponto de partida, não como concessão, o segredo deixa de funcionar como vantagem competitiva e passa a funcionar como atrito.

Sigilo ainda tem função em contextos específicos. Mas como estratégia dominante, perdeu sustentação. O Hugging Face, plataforma que se tornou o GitHub da inteligência artificial, vale bilhões sem nunca ter escondido nada. Clément Delangue, seu fundador, construiu o negócio na tese de que confiança e posição no ecossistema formam um fosso mais durável que qualquer segredo. A abertura, no caso dele, não teve nada de generosidade... foi arquitetura competitiva.

A ponte exige mais

Há uma tentação de ler tudo isso como progresso linear. De celebrar a abertura como destino inevitável. Seria ingênuo.

Algumas das ferramentas de IA mais interoperáveis de hoje podem se tornar os jardins murados de amanhã. O fato de o MCP ser um protocolo aberto não é acidente, é uma escolha deliberada contra esse risco. E escolhas deliberadas, como qualquer pessoa que trabalha com futuros eventualmente aprende, precisam ser defendidas continuamente.

A questão de fundo, na verdade, nunca foi se a abertura venceria. O que mudou foi o locus da competição.

Durante décadas, a pergunta estratégica era: o que eu consigo esconder? Qual informação, qual formato, qual funcionalidade posso trancar para que o cliente não tenha escolha?

Essa pergunta ainda funciona em alguns contextos. Mas é cada vez menos a pergunta que define quem ganha.

A que define agora é outra: o que eu consigo combinar? Qual repertório, qual leitura de mundo, qual capacidade de conexão entre coisas aparentemente desconexas me torna singular... quando as ferramentas, os dados e os modelos estão disponíveis para todos?

O muro sempre protegeu mais quem tinha pouco a oferecer além dele. A ponte, por outro lado, só funciona para quem carrega repertório suficiente para cruzá-la.

E repertório exige criatividade. Exige leitura de mundo. Exige a disposição de operar num território aberto, sabendo que a vantagem não mora mais no cofre trancado, e sim na sofisticação com que você recombina o que está ao alcance de qualquer um.

Quem ainda esconde, nesse cenário, talvez esteja apenas disfarçando a própria fragilidade.

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