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The BRIEF

Adeus complexo de vira-lata: a estética brasileira já virou moda global, falta o Brasil acreditar

O que os Estados Unidos, Coreia do Sul e França têm em comum? Se por um acaso, você falou Soft Power, acertou.

Avatar do(a) autor(a): Derek Keller

schedule14/05/2026, às 17:23

O que os Estados Unidos, Coreia do Sul e França têm em comum? Se por um acaso, você falou Soft Power, acertou. O Soft Power – ou poder suave em tradução livre – é a capacidade de um país influenciar outras áreas ao redor do globo, principalmente em cultura. 

Caso você seja fã de música coreana, tem vício em doramas ou sempre quis visitar Hollywood, isso é culpa do Soft Power. Mas, e o Brasil: onde entra nesta história? Este foi o tema da palestra “A Cultura Pop como elemento de poder suave (soft power)", que aconteceu durante o São Paulo Innovation Week, evento que reúne líderes de grandes companhias brasileiras e globais, empresas e startups para falar de inovação. 

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Felipe Vassão, criador de conteúdo, produtor musical e vencedor do Grammy Latino conversou com Gianzão, sócio e diretor de produção do Grupo Flow sobre como o Brasil pode influenciar o mundo com tudo que já tem. 

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Fonte: Derek Keller / TecMundo

“A gente se acostumou com a nossa genialidade”

Felipe Vassão abriu a conversa comentando sobre o Brasil ter um número tão grande de talento cultural que chegou a naturalizá-lo, o que, na prática, significa desperdiçá-lo. “A gente se acostumou com a nossa genialidade”, disse o produtor. 

O exemplo que ele usou para ilustrar foi DJ americano Diplo, que chegou ao funk brasileiro, gravou alguns beats com aquela influência e bombou internacionalmente com o estilo. O Brasil criou, o mundo usou, e lucrou.Vassão comenta que o K-pop, hoje um fenômeno global com bilhões de fãs, não nasceu organicamente, mas sim de uma crise. 

Depois do colapso econômico do final dos anos 90, o governo coreano montou um projeto estratégico para construir uma indústria cultural do zero: financiou o K-pop, os doramas e o cinema, mandou músicos para orquestras internacionais, criou corpos de balé e até lançou um programa chamado “Learning from Hollywood”, enviando profissionais coreanos para Los Angeles para aprenderem o funcionamento da indústria do entretenimento americana.“São asiáticos muitas vezes fazendo cosplay do gueto americano”, disse Vassão. 

“A música coreana muitas vezes é algo fabricado. O Brasil não precisa fabricar nada, é só organizar.”

O povo que abraça e domina a internet

Gianzão trouxe um ângulo diferente para a conversa: para ele, o soft power brasileiro não está só na música ou no cinema, mas sim nas pessoas. “A gente é um povo que abraça muito”, disse. Em contraste com a dificuldade de fazer amizades em países como Portugal, o brasileiro diz que somente o brasileiro tem este calor contagiante.Esse calor humano, na visão de Gianzão, reflete diretamente no comportamento digital do país. “O Brasil domina a internet”, afirmou. 

Como evidência, citou exemplos inusitados: escolas no Vietnã e na Rússia que usam músicas brasileiras em aulas, vídeos com referências culturais do país que viralizam em cantos inesperados do mundo. “O Brasil online tem uma força inacreditável.”

O mesmo vale para o mercado de shows ao vivo. Gianzão lembrou de uma conversa que teve com o organizador do festival Lollapalooza, que disse que o Brasil é considerado o melhor público de shows do mundo, mas que essa grandiosidade às vezes “atrapalha” a logística das world tours, simplesmente porque o país demanda uma estrutura tão grande que os artistas precisam planejar como vir para a América do Sul. “É muita abundância de cultura, mas cada um num caminho, mesmo sendo um lugar riquíssimo culturalmente.”

Um incentivo que não precisa ser dinheiro

Vassão defendeu um modelo de apoio governamental que não passe necessariamente por repasse financeiro direto. O exemplo que ele usou foi o do filme Top Gun: Ases Indomáveis. O filme americano que glorificou a aviação militar e catapultou o recrutamento das Forças Armadas dos EUA nos anos 80 foi produzido com apoio logístico do governo americano – aviões de guerra reais foram alugados por preços simbólicos para as filmagens. É dinheiro público funcionando como soft power sem virar polêmica.

“A gente precisaria de um incentivo do Ministério da Cultura sem ser dinheiro”, resumiu Vassão.

Ele também citou um caso mais recente em que participou diretamente: um projeto privado na China que realizou song camps – encontros intensivos de composição – para desenvolver o C-pop, a versão chinesa da indústria musical globalizada. A proposta era criar sons com identidade genuinamente chinesa dentro de estruturas sonoras contemporâneas. “Esses são exemplos objetivos que o Brasil devia seguir.”

A autocatequese brasileira

Vassão falou sobre sua própria trajetória de reconexão com a música brasileira. Por anos, ele admitiu ter sido o que chamou de “paga pau de gringo”, consumindo e valorizando principalmente referências internacionais. Foi o trabalho com artistas brasileiros que mudou isso.Ao produzir o álbum Amarelo, do Emicida, ele tomou a decisão de todos os samples usados no disco serem exclusivamente de discos brasileiros. Nada de jazz americano, soul ou black music internacional. 

“Me autocatequizei a valorizar o que a gente já fez aqui”, disse. “Se a gente quer sobreviver como soberania, a gente precisa se educar, difundir e provocar.”

O exemplo do novo álbum da Anitta, Equilibivm, veio como exemplo dessa lógica. Gianzão contou que a cantora tentou por anos conseguir uma apresentação no The Tonight Show with Jimmy Fallon – um dos maiores palcos do entretenimento americano – e nunca conseguiu. 

Quando ela decidiu focar num álbum voltado ao público brasileiro, o convite do Fallon chegou. “É doido o brasileiro achar que tem que ter um aval de fora”, comentou Vassão.

A estética brasileira virou moda

Gianzão trouxe uma observação após conversas com convidados internacionais do Flow: que a percepção do Brasil lá fora está mudando, e para melhor. “No geral, gostam do Brasil, mesmo sabendo dos problemas que tem”, disse. “A estética brasileira tá virando algo almejável.”

A crise do complexo de vira-lata está sendo corroída aos poucos, segundo ele, especialmente entre as gerações que cresceram na internet. O mundo quer mais Brasil. O desafio, como Vassão resumiu bem, é convencer o próprio brasileiro disso primeiro

“A gente precisaria criar um movimento que catequiza a gente mesmo pra entender o quão poderoso isso é.”

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