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The BRIEF

SaaSpocalypse: o fim do SaaS ou o começo de algo maior

Opinião do colunista - A IA não é apenas uma ameaça ao modelo tradicional de software. É também o mapa para quem souber se reinventar.

Avatar do(a) autor(a): Felippe Galeb

schedule06/05/2026, às 11:15

Nos últimos meses, dificilmente encontro alguém que trabalhe com software, especialmente SaaS, que não tenha sido questionado, ou que não se tenha questionado, sobre o futuro do setor. O debate ganhou até nome próprio: SaaSpocalypse, junção de SaaS com Apocalypse, cunhada no início de 2026 para descrever o pânico que tomou conta do mercado diante do avanço da inteligência artificial generativa.

Em um único dia de fevereiro, aproximadamente US$ 300 bilhões em valor de mercado evaporaram de empresas de software. Gigantes como Salesforce, ServiceNow, Adobe, Workday e Intuit sofreram quedas entre 7% e 11%. A tese que sustentou essa reação é direta: agentes de IA autônomos tornarão obsoletos muitos softwares de assinatura tradicionais. A IA não está apenas dentro do software. Ela pode substituí-lo.

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Acredito nessa tese? Sim. Mas acreditar nela não significa decretar o fim de todas as empresas de software. O mercado não é uma massa homogênea e pasteurizar esse diagnóstico seria um erro tão grave quanto ignorá-lo. A IA representa, ao mesmo tempo, o maior risco e a maior oportunidade para quem constrói software. E esse balanço se comporta de maneira muito diferente dependendo do tipo de empresa que estamos analisando.

Começo pelo risco, porque ele é real e já está em movimento. O vetor clássico de geração de valor de um SaaS tradicional está indo a zero. Por anos, o modelo foi simples: orquestrar workflows, armazenar dados do cliente e devolver esses dados em visualizações diferentes, cobrado por assentos e camadas adicionais. Esse modelo vai morrer. A queda no custo e a facilidade de criação de software eliminam barreiras de entrada que antes exigiam times técnicos sofisticados. Interfaces para gestão humana de workflows terão vida cada vez mais curta. E pagar para que alguém pegue seus próprios dados e os devolva em dashboards com insights rasos não é valor, qualquer modelo de linguagem faz isso com muito mais sofisticação e por uma fração do custo.

No mês passado, realizamos um hackathon na Olist. Uma das equipes, sem nenhum perfil técnico de desenvolvimento, construiu em poucas horas um pedaço de software e um fluxo de automações que substituiu um SaaS pelo qual pagávamos alguns milhares de reais por mês. O produto substituído entregava exatamente os vetores de valor que mencionei no parágrafo anterior.  Esse tipo de substituição não é exclusivo de grandes empresas, é o mesmo movimento que começa a chegar às pequenas e médias empresas, que historicamente operaram com menos ferramentas por restrição de custo e complexidade.

A questão, então, não é se o modelo tradicional vai se desgastar. É o que vem no lugar. E aqui a mesma tecnologia que ameaça o SaaS abre novos vetores que me parecem centrais para quem quiser continuar relevante. Quero trazer dois exemplos neste artigo.

O primeiro é o que tenho chamado de “network of data”. Existe um ativo que empresas incumbentes possuem e que novos entrantes dificilmente conseguem replicar rapidamente: anos de dados transacionais em escala. Na Olist, acumulamos dados de centenas de milhares de comércios, vendas, canais, preços e dinâmicas competitivas ao longo de muitos anos.

Se a IA barateia a produção de inteligência, o que sobra como ativo real são os dados que a alimentam. E dados acumulados em escala, ao longo de anos, dentro de uma vertical específica, não se replicam do dia para a noite. Para SaaS verticais, esse efeito vai além do produto principal: os dados podem alimentar outras linhas de negócio dentro da mesma vertical, criando profundidade onde antes havia apenas amplitude. Por isso acredito que SaaS verticais têm uma vantagem estrutural enorme frente a novos entrantes.

O segundo vetor é o que o mercado começa a chamar de “service as a software”. O software deixa de ser o meio e passa a ser o próprio resultado. Estruturas agênticas já são capazes de substituir trabalho humano em tarefas que vão muito além da geração de código, como contabilidade, análises jurídicas, tratamento de imagens e vídeos, atividades que hoje dependem de pessoas dentro das organizações. Para as PMEs, isso significa acessar capacidades operacionais e analíticas que antes dependiam da contratação de equipes especializadas, agora disponíveis de forma escalável e sob demanda. É por isso que se ouve cada vez mais a afirmação de que a próxima empresa de um trilhão de dólares será uma empresa de serviços, não de software. No Brasil, já surgem empresas levantando rodadas relevantes com essa tese.

E aqui está a janela para as incumbentes. Quem já está dentro do cliente tem uma vantagem que nenhum novo entrante consegue comprar: o relacionamento. Novos players precisarão construir uma base de confiança do zero, enquanto empresas estabelecidas já têm a presença, o histórico e o contexto operacional. O desafio é que esse privilégio tem prazo. Quem não se mover rápido o suficiente verá essa vantagem ser erodida por competidores que chegam com o modelo novo sem o peso do legado.

O SaaSpocalypse não é o fim do software. É o fim de um modelo específico de geração de valor que funcionou bem por décadas e que agora encontrou seu limite natural. Para quem souber ler esse momento como uma reinvenção, e não como uma sentença, a tecnologia que ameaça o modelo antigo é exatamente a mesma que abre o caminho para o próximo.

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