Todo grande evento de tecnologia tem um risco: confundir barulho com sinal. O VTEX Day 2026 teve muito barulho em torno da inteligência artificial, claro. Mas, desta vez, havia sinal também.
A IA não apareceu apenas nos keynotes, nos estandes ou no vocabulário de marketing. Ela apareceu como camada operacional do e-commerce — mexendo ao mesmo tempo na forma como marcas se relacionam com consumidores, na forma como protegem transações e na forma como as compras poderão ser executadas daqui para frente.
Não por acaso, o próprio evento foi vendido como um espaço para discutir o futuro do varejo com foco em IA e experiência do cliente. A edição de 2026 reuniu mais de 25 mil visitantes, mais de 350 palestrantes e mais de 8 mil marcas representadas. O tamanho importa menos que a direção: a IA está deixando de ser um tema lateral e se tornando um dos eixos centrais do comércio digital.
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1. Automação e hiperpersonalização deixaram de ser tese
O canal conversacional já não é só suporte; ele virou canal de receita. E o WhatsApp, no Brasil, associado ao uso crescente de interfaces de chatbot, está no centro dessa mudança.
Conversei com o Mauricio Trezub, CEO da OmniChat, empresa focada em chat commerce. Para ele, o canal de chat está deixando de ser só para suporte e responder perguntas, mas um novo canal de venda, que sugere produtos, ajuda vendedores com contra-argumentação de preço, compara itens e faz vendas.
A implicação é óbvia: se a interface de compra passa a ser uma conversa, personalização e automação deixam de ser iniciativas separadas. Viram a mesma coisa.
Os dados públicos da OmniChat reforçam essa leitura. No Chat Commerce Report 2025, a empresa diz ter analisado 782,7 milhões de mensagens, 42,2 milhões de conversas e 24 milhões de clientes atendidos. O estudo afirma que o WhatsApp já concentra 95% das conversas do varejo dentro da base analisada, que marcas obtiveram 12,5% das conversões totais no canal e que a IA reduziu o tempo de resposta em até 95%, elevando em 4 vezes a capacidade de atendimento e em até 30% as conversões.
O ponto central aqui não é só eficiência. É hiperpersonalização em escala. O varejo passou anos prometendo experiências mais individuais; agora começa a ter uma interface — conversacional, contextual e persistente — capaz de entregar isso sem explodir custo operacional.
Quando a marca conhece histórico, contexto e intenção do cliente no meio da conversa, o atendimento vira recomendação, a recomendação vira conversão e a conversão já nasce como relacionamento.
2. Quanto mais IA no comércio, maior a pressão por identidade e cibersegurança
Se a conversa com a OmniChat mostrou o lado da aceleração, a entrevista com Alex Linhares, Diretor da Único, mostrou o outro lado da equação: toda nova camada de conveniência cria uma nova superfície potencial para fraudes e ataques. E a IA generativa piora bastante esse jogo, porque também dá munição de a ferramentas mais poderosas para os fraudadores.
Na conversa, Alex detalhou como o avanço de deepfakes e fraudes assistidas por IA vem elevando a sofisticação dos ataques justamente nos pontos mais sensíveis da jornada digital: onboarding, autenticação, pagamento e recuperação de conta.
A resposta da empresa passa por múltiplas camadas — detecção de deepfake, análise de dispositivo e câmera, prova de vida, SDKs protegidos e muito treinamento de modelos em cima de dados reais de fraude. A tese é que segurança deixou de ser um atrito necessário e virou condição para manter conversão sem abrir a porteira para golpe.
Se o e-commerce vai depender cada vez mais de automação, então identidade digital deixa de ser uma função de compliance e passa a ser infraestrutura de crescimento. Há um detalhe importante aqui: a próxima disputa do varejo não será apenas por atenção e preço. Será por confiança operacional.
Quem conseguir reduzir fricção para o usuário legítimo e aumentar custo para o fraudador vai capturar mais conversão. Quem tratar segurança como secundária vai perder margem, reputação e talvez o cliente inteiro.
3. O próximo passo é o e-commerce agêntico
Se a automação do atendimento já está em curso e a identidade digital virou gargalo estratégico, o passo seguinte apareceu com clareza numa conversa com José Pereira, Diretor de Produtos e Soluções Digitais na Mastercard Brasil: agentes que compram em nome do consumidor.
A ideia do chamado e-commerce agêntico parece futurista até você ouvir os casos de uso em voz alta. Um agente recebe preferências, filtra opções, recomenda produtos e, com autorização adequada, conclui a transação, finalizando a compra em nome do usuário. Em outras palavras, a jornada de compra deixa de ser apenas assistida por IA e passa a ser executada por ela.
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Na entrevista, a preocupação central não era “se isso vai existir”, mas “como isso pode existir sem virar um caos”. A discussão girou em torno de autorização verificável, uso seguro do cartão, camadas de autenticação, rastreabilidade e mecanismos para garantir que aquele agente realmente pode agir em nome daquele consumidor. Faz todo sentido. O problema do agentic commerce não é fazer a IA escolher um tênis; é provar que ela tinha direito de apertar o botão de comprar.
Essa preocupação também já aparece na comunicação pública da Mastercard. Em janeiro, a companhia publicou que está trabalhando em padrões para agentic commerce com foco em segurança, transparência e controle do consumidor, inclusive com tokens específicos para vincular agentes a usuários e limitar o que pode ser comprado em seu nome.
Traduzindo: a infraestrutura de pagamentos já entendeu que a próxima fronteira não é só checkout mais rápido, mas autorização programável de agentes de IA.
O que o VTEX Day revelou de fato
O sinal mais relevante do VTEX Day 2026 talvez seja este: a IA no e-commerce está migrando de ferramenta de otimização para arquitetura de decisão.
No front, ela personaliza a relação com o consumidor em tempo real, sobretudo nas interfaces conversacionais. No meio, ela redefine a operação comercial, ganha escala e reduz tempo de resposta. No back, obriga o mercado a reinventar identidade, autenticação e prevenção a fraude. E logo adiante, ela passa a agir diretamente na compra por meio de agentes.
Isso muda a pergunta que executivos do varejo precisam fazer. Não é mais “como usar IA no e-commerce?”. Essa pergunta já ficou pequena. A pergunta agora é: qual parte da jornada eu ainda quero que dependa exclusivamente de humanos, e qual parte eu preciso redesenhar para um mundo em que softwares conversam, recomendam, autenticam e compram?
O VTEX Day deste ano sugeriu uma resposta incômoda, mas realista: essa transição já começou. E ela começou pelo lugar que mais importa no varejo — a relação direta entre intenção, confiança e transação.
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