Oitenta e seis milhões de reais. É o valor que pagaram por uma cartinha de Pokémon num leilão recente. O recórde (ou récorde?) foi confirmado pelo Guinness World Records como a carta de Pokémon mais cara já vendida. Mas não é uma carta qualquer. É uma “foil”, ou seja, tem brilhinho.
Comprar treze Ferraris Purosangue, quatrocentos e trinta colares de diamante da HStern ou abrir vinte e quatro McDonald’s? Para quê, se há a possibilidade de ter uma carta graduada nota dez?
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Mas de onde vem tanto valor? Por que o humano valoriza tanto algo que intrinsecamente não tem qualquer valor, enquanto em outros aspectos há uma desvalorização tão brusca e cortante quanto layoffs em big techs?
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Paradoxal. Em um momento do mundo onde tudo parece estar perecendo por conta da desvalorização do trabalho humano proporcionada pela inteligência artificial, cartas feitas de papel com ilustrações artísticas feitas por humanos — bom, é o que me disseram — parecem estar em descompasso com a lógica fria da automação e da eficiência algorítmica que domina o mercado digital.
E antes que me acuse de usar travessão (coisa de IA!) no LinkedIn e me xingar usando alguma hashtag do tipo #foracolunistasdeia, abra o primeiro livro que escrevi em um sebo qualquer e verá que sou adepto desse sinal de pontuação.
Inclusive, estou escrevendo esta coluna usando a minha antiga Olivetti Lettera 82. Esta parte é ironia.
Abundância e desvalorização
A questão é que IA torna imagem, texto, vídeo (e o caramba a quatro) muito abundante. Veja: a minha mãe fez uma cartinha minha desenhada com o Pikachu. Achei um absurdo. E quando tudo pode ser gerado tão rapidamente quanto fazer um miojo, o que passa a ter valor é o que é limitado, certificado e raro. Por esse motivo, o princípio da escassez é um dos mais poderosos quando falamos de psicologia do consumo.
É por isso que figuras de coleção (bonecos, ok?) como os da Hot Toys e Iron Studios quase sempre terão mais valor que um simples G.I. Joe produzido por um robô qualquer da fábrica da Hasbro. A não ser que seja um Snake Eyes, lacrado da primeira tiragem de 1982. A danada da escassez.
O Pikachu nota dez, que era do wrestler Logan Paul, não vale pelo papel (valor intrínseco), mas pelo selo, pela escassez e pelo status social (valores extrínsecos). É o valor simbólico que sustenta o preço e ele pode alimentar tanto o colecionismo quanto a especulação. Enquanto a produção se torna infinita, o desejo se desloca para o finito.
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Agora, se somos tantos designers, desenvolvedores, arquitetos, advogados… por que teríamos valor, se a inteligência artificial pode fazer em massa aquilo que muitas vezes ralamos noites para entregar?
Criatividade é a nossa grande virtude?
Quando tudo se torna abundante, o mercado passa a valorizar o que é escasso. E escasso não é mais produzir, mas interpretar, fazer melhores escolhas, dar sentido, ligar os pontos de forma única como nós, humanos, ainda sabemos fazer. Ainda.
A cartinha vale quase tanto quanto o patrimônio de Rodrigo Faro não porque é impressa num papel esplendoroso e metalizado, mas porque é rara e certificada. O único exemplar conhecido a receber a graduação PSA 10. O profissional continuará tendo valor não porque sabe apertar botão, mas porque sabe decidir qual botão vale a pena apertar.
No fim, talvez a pergunta não seja se a IA vai nos substituir. Mas se o que fazemos é tão comum quanto um G.I. Joe de prateleira ou tão raro quanto um Snake Eyes lacrado de 1982.
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Por esse motivo, eu genuinamente acredito que a criatividade seja uma das virtudes humanas que poderá nos manter fortes e ativos em nossas posições, sejam elas as mesmas, ou transformadas por esse mercado de futuro impensável. Eu, inclusive, apostaria a minha trading card do Litleo, que mal vale cinquenta reais, que aquele que souber conectar repertórios improváveis, enxergar padrões onde ninguém viu e transformar excesso de informação em significado continuará tendo espaço, relevância e valor.
Inclusive, a carta de oitenta e seis milhões tem como arte um Pikachu Illustrator, um monstrinho amarelo segurando um pincel de pintura. Talvez esse seja um pequeno sinal de que os artistas e criativos sejam o futuro da humanidade.
Bem, não sou lá supersticioso, mas talvez os próximos tempos sejam realmente dos criativos. Não porque a IA acabou com eles, mas porque a abundância artificial aumenta o valor do raro humano.
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