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Data center do TikTok: entenda o projeto bilionário que está em andamento no Ceará

Construção do TikTok no Ceará impulsiona a indústria, mas traz questionamentos sobre meio ambiente e infraestrutura; empresa defende números e uso de energia renovável.

Avatar do(a) autor(a): Nilton Cesar Monastier Kleina

schedule19/03/2026, às 11:50

updateAtualizado em 19/03/2026, às 15:13

O município cearense de Caucaia é conhecido pelas belas praias, ser um polo na prática do kitesurf e local do Parque Estadual Botânico do Ceará. Só que a região agora também está no centro de um projeto que é ao mesmo tempo promissor e polêmico envolvendo o TikTok.

Isso porque o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cepp), entre Caucaia e o município de São Gonçalo do Amarante, foi escolhido para abrigar o primeiro data center da rede social chinesa no Brasil.

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Com o estabelecimento do data center, a plataforma vai abrigar no país uma série de servidores que atuam no tráfego e armazenamento de dados, em especial aqueles envolvendo os usuários brasileiros — atualmente, são cerca de 111 milhões de perfis nacionais ativos na rede social.

Porém, a iniciativa ambiciosa também levanta muitas preocupações, desde a alta demanda energética e impactos ambientais até o desequilíbrio nos investimentos em comparação ao auxílio a comunidades próximas, que inclui uma população indígena.

Como funcionam os data centers?

Os data centers são a base da infraestrutura digital contemporânea, sustentando o processamento e a hospedagem de aplicações que vão de plataformas corporativas até serviços em nuvem, IA e comunicação em larga escala. A instalação deles envolve definições estratégicas não apenas sobre a localização, mas também o tipo desse estabelecimento.

Um data center pode ser instalado dentro de uma organização (Enterprise), com uma infraestrutura compartilhada (Colocation) ou ser operadoras por referências no setor de nuvem (Hyperscale). O data center do TikTok no Brasil é do tipo Hyperscale e dedicado a um único “cliente”, feito sob medida para a plataforma chinesa.

Esse conjunto de servidores se divide também em relação ao sistema de resfriamento que é utilizado para manter os equipamentos em uma temperatura controlada. As principais alternativas são sistemas baseados em ar e em líquido, com diferentes níveis de eficiência, prós e contras. 

O resfriamento a ar é o modelo mais tradicional e usa equipamentos para distribuir ar frio pelo ambiente e criando um fluxo térmico. Já o resfriamento líquido remove calor de forma mais eficiente ao atuar diretamente nos componentes e pode ser feito por múltiplas técnicas, de levar o líquido aos processadores até manter os servidores submersos em líquidos.

O colosso do TikTok no Pecém

O data center da rede social criada pela ByteDance foi aprovado em paralelo a uma série de negociações comerciais bilaterais entre Brasil e China. O projeto era conhecido desde maio de 2025, mas só em dezembro foi anunciado oficialmente e em detalhes. Já as obras na região começaram em janeiro deste ano

  • O empreendimento será gerido por diferentes partes, cada uma atuando dentro da sua especialidade. O fundo Pátria Investimentos, a partir da empresa especializada Omnia, cuidará da construção e operação do data center. Já a companhia geradora de energia renovável Casa dos Ventos é a responsável pela realização de captação e distribuição energética. A própria ByteDance, além do dinheiro, vai participar da fase inicial do desenvolvimento do data center.
  • Ao todo, são dois prédios com mais de 70 mil metros quadrados cada um, com consumo energético estimado de até 300 megawatts (MW);
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O ministro da Educação, Camilo Santana, o presidente Lula e o governo do Ceará, Elmano de Freitas no evento de anúncio do aporte. (Imagem: Governo do Estado do Ceará/Reprodução)
  • O investimento estimado é de R$ 200 bilhões só para o primeiro data center. Deste total, pouco mais da metade (R$ 108 bilhões) será destinado para a aquisição de equipamentos até 2035, enquanto o restante envolve manutenção, expansões e melhorias a partir da próxima década;
  • Caso não tenha novas barreiras regulatórias, o primeiro ambiente com processadores será entregue à ByteDance em setembro de 2027;
  • Além disso, a operação é em uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE), o que significa isenção de vários impostos e redução em outras taxas;

A parceria com o Brasil inclui a promessa da ByteDace de abrir mais quatro data centers na mesma região, em um investimento de R$ 349 bilhões ao todo. O país busca ainda atrair outras empresas para construírem espaços para servidores em outras áreas do território.

Impactos ambientais são incertos, mas existem

O setor de data centers modernos, vários deles utilizados para processamento de sistemas de IA, está em uma fase de questionamentos por setores da sociedade. O motivo é a alta demanda energética desse tipo de local, tanto em consumo de água quanto em eletricidade.

De acordo com a Casa dos Ventos, o data center no Ceará vai utilizar apenas energia renovável eólica e não terá impactos na rede elétrica local, justamente o problema mais comum em pequenas cidades dos Estados Unidos, que tem elevado até tarifas residenciais.

Ainda assim, os valores assustam e mostram o quanto esse setor demanda em termos de infraestrutura energética: 300 MW é o suficiente para abastecer uma cidade de 2,2 milhões de pessoas e, se fosse um município, seria um dos de maior consumo em todo o país.

A obra de grandes proporções ainda preocupa comunidades indígenas que vivem nas proximidades do complexo de Caucaia. Segundo uma reportagem do jornal local O Povo, os anacés já encaram falta de água e luz naturalmente — e agora serão “vizinhos” de um projeto que terá justamente o acesso a ambos em abundância.

Consumo de água e questionamentos regulatórios

Outra questão relativa ao ambiente está no consumo de água. Data centers exigem uma enorme quantidade de líquidos circulando em toda a estrutura, em especial para o resfriamento dos equipamentos. Os servidores operam sob alto desempenho, o que significa também um aumento de temperatura que deve ser controlado.

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Servidores operam de forma ininterrupta e podem chegar a altas temperaturas.  (Imagem: Divulgação/Google)

De acordo com o anúncio oficial do projeto, o data center terá um sistema de resfriamento “baseado em circuito fechado de reuso de água”, que prevê menor consumo e sem perdas por evaporação. 

Além disso, ele utiliza uma tecnologia chamada PG25, que atua diretamente nos chips e reduz a exigência de resfriamento constante. Nessa técnica, a água absorve o calor das máquinas, é resfriada em contato com ar e repete o ciclo para absorver mais calor — um processo em loop que reduz o consumo e a necessidade de reabastecimento.

A operação do data center apresentou um Relatório Ambiental Simplificado (RAS) para obter a aprovação legal que falta para o início das obras. Porém, a licença prévia nacional e da Secretaria de Meio Ambiente do Ceará (Semace) agora é questionada pelo Ministério Público Federal (MPF).

Segundo uma perícia feita no início de dezembro, o projeto tem falhas na apresentação dos dados e omite números importantes que confirmariam problemas relacionados à obra. Em resposta, a ByteDance até o momento defende que o processo é conduzido com aval da legislação e da Semace.

Em versões atualizadas do estudo de viabilidade, o data center confirmou que o consumo hídrico será de 88 m³ diários — quase o triplo do que número citado para a obtenção das licenças, e que pode chegar a sete vezes mais do que o previsto.

Como mananciais subterrâneos serão utilizados no processo e podem não ser o suficiente para atender o data center e a região como um todo, a preocupação sobre eventuais prejuízos para comunidades próximas aumenta.

Comunidades próximas temem a obra

No anúncio do data center, o governador do Ceará, Elmano de Freitas, confirmou que as empresas devem investir R$ 15 milhões por ano "para o desenvolvimento das comunidades que moram no entorno do Complexo do Pecém" como parte do acordo.

As empresas preveem ainda a geração de mais de 4 mil postos de trabalho entre temporários e permanentes, ao menos na primeira fase de operação. Porém, essas promessas não são o suficiente para atender as demandas e denúncias.

A região de Caucaia possui registros de estiagem e seca nas últimas duas décadas e isso pode aumentar em caso de consumo excessivo das fontes próximas.

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A escola indígena anacé do Cauípe: estrutura da população local é precária. (Imagem: Paulo Anacé/Facebook)

O The Intercept também aponta os questionamentos de moradores de comunidades rurais vizinhas sobre o consumo de água e outras etapas da regulação, como a aprovação para construir uma ponte em uma área de proteção permanente da região.

Além disso, denúncias nos EUA apontam que a concentração de nitratos na água potável de uma cidade dos EUA que abriga um grande data center pode estar relacionado até ao aumento de câncer e abortos entre a população — o que acende um sinal de alerta nesse tipo de operação, mesmo que a correlação ainda não tenha sido confirmada.

Inclusive, o TecMundo entrevistou o líder indígena Roberto Anacé para entender a perspectiva do povo originário em relação às obras. Confira, abaixo, a matéria completa.

Data center cearense tem propostas e benefícios

Ao entrar em operação plena, projeto tem a proposta de ser o maior data center de um único cliente do Brasil e o primeiro voltado para a exportação, ou seja, tratamento de dados de outras regiões.

Ao todo, as atividades podem gerar exportação média de R$ 16 bilhões ao ano, sem contar receitas tributárias locais. Além disso, ele pode reforçar o Ceará como polo de tecnologia e inovação, atrair demanda por serviços locais, mesmo que pontual, em áreas como construção, logística, segurança, manutenção e TI. Ao todo, são esperados mais de 20 mil postos de trabalho diretos e indiretos.

"Desde o início, estruturamos o projeto com base em uma relação transparente e colaborativa com o entorno e com o estado. Nosso objetivo é construir, junto aos parceiros locais, uma operação sólida, sustentável e alinhada às necessidades da região, gerando valor de longo prazo para o Ceará”, defende o CEO da Omnia, Rodrigo Abreu.

Em defesa dos possíveis impactos ambientes, que é uma preocupação constante envolvendo o tema. as empresas organizadoras argumentam que há iniciativas de sustentabilidade e impacto reduzido no projeto, como a já citada tecnologia de circuito fechado e a energia renovável eólica como principal geradora.

Quer saber quais foram os principais acontecimentos de 2025 no mundo da IA? Confira a nossa retrospectiva!

Perguntas Frequentes

O que é o projeto do data center do TikTok no Ceará?
O projeto do data center do TikTok no Ceará envolve a construção de um complexo de servidores no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, entre Caucaia e São Gonçalo do Amarante. Este será o primeiro data center da rede social chinesa no Brasil, destinado a abrigar servidores que processam e armazenam dados, especialmente de usuários brasileiros.
Quais são as preocupações ambientais relacionadas ao data center?
As preocupações ambientais incluem o alto consumo energético e de água, além do impacto potencial nas comunidades locais, como a população indígena anacé. O data center utilizará energia renovável eólica e um sistema de resfriamento de circuito fechado para minimizar o consumo de água, mas ainda há incertezas sobre os impactos ambientais.
Como o data center do TikTok será alimentado energeticamente?
O data center será alimentado por energia renovável, especificamente energia eólica, fornecida pela empresa Casa dos Ventos. Isso visa evitar impactos na rede elétrica local e minimizar o impacto ambiental do projeto.
Qual é o investimento total previsto para o data center do TikTok no Ceará?
O investimento total previsto para o primeiro data center é de R$ 200 bilhões, com mais da metade desse valor destinado à aquisição de equipamentos até 2035. O restante será usado para manutenção, expansões e melhorias futuras.
Quais são os benefícios esperados para a região com a construção do data center?
Os benefícios esperados incluem a geração de mais de 20 mil empregos diretos e indiretos, o fortalecimento do Ceará como polo de tecnologia e inovação, e a potencial exportação de R$ 16 bilhões ao ano. Além disso, as empresas envolvidas se comprometeram a investir R$ 15 milhões por ano no desenvolvimento das comunidades locais.
Quais são as críticas e desafios enfrentados pelo projeto?
As críticas incluem preocupações com o impacto ambiental, o consumo excessivo de água e a falta de transparência em algumas etapas do licenciamento ambiental. O Ministério Público Federal questionou a legalidade do licenciamento, apontando falhas na apresentação de dados e omissões importantes.
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