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The BRIEF

O mercado secundário de tecnologia no Brasil: antes tarde do que mais tarde…

As operações secundárias saem do papel e injetam fôlego e liquidez no ecossistema de tecnologia nacional.

Avatar do(a) autor(a): Julia De Luca - Colunista

schedule09/09/2025, às 18:00

updateAtualizado em 17/02/2026, às 08:19

O mercado global de tecnologia passou por uma transformação silenciosa, mas profunda, nos últimos vinte anos. Se no início dos anos 2000 uma startup levava menos de quatro anos, em média, para abrir capital, hoje essa janela se estende para algo próximo a 16 anos.

Nesse intervalo, mais de US$ 2 trilhões foram direcionados a mercados privados, criando um universo de empresas altamente capitalizadas que permanecem privadas por longos períodos. Com as janelas de IPO e M&A cada vez mais estreitas e imprevisíveis, os secundários — a compra e venda de participações já existentes — deixaram de ser vistos como um sinal de fraqueza e passaram a ser encarados como um instrumento essencial de governança, alinhamento e liquidez.

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Eles permitem melhorar cap tables, dar liquidez a funcionários e, sobretudo, permitir que fundadores sigam construindo sem precisar esperar uma década para materializar parte de seu valor.

Esse movimento, que começou como exceção em mercados como Estados Unidos e Europa, consolidou-se como prática comum. Hoje, a venda de uma pequena parcela por parte dos fundadores ou colaboradores já não é um tabu, mas sim um mecanismo de estabilidade: estabiliza o lado pessoal de quem lidera empresas inovadoras e torna as stock options algo concreto para os times.

Como resume Paulo Veras, cofundador da 99, citado no relatório State of the Startup Secondaries Market in Brazil 2025 feito pela Spectra Investment e Beacon Founders, quando estruturadas dentro de limites razoáveis, as transações secundárias conseguem equilibrar interesses de fundadores, companhias e investidores ao mesmo tempo.

O Brasil, por sua vez, parece ter finalmente entrado de vez nessa nova fase. Segundo o estudo, 52% das startups brasileiras realizaram alguma operação secundária em 2025. O dado mais relevante é que, em 82% dos casos, os fundadores venderam menos de 10% de sua participação. Ou seja: não se trata de uma saída disfarçada, mas sim de um ajuste de risco pessoal que preserva o alinhamento de longo prazo.

Liquidez aqui não é fuga, mas fôlego. E o efeito não para por aí: 91% dos empreendedores que realizaram vendas reinvestiram os recursos no próprio ecossistema, seja como anjos, LPs ou investidores diretos. Esse ciclo de capital e conhecimento realimenta o sistema, criando uma engrenagem virtuosa.

Os números também mostram uma mudança estrutural. Os descontos em secundários, que chegavam a 55% em 2023, recuaram para apenas 13% no segundo trimestre de 2025. Isso sinaliza maior eficiência na formação de preços e crescente demanda por ativos de qualidade.

Não por acaso, 42% dos fundadores afirmam que sua execução melhorou após a venda parcial, e nenhum reportou queda de motivação. Do lado comprador, fundos de venture capital seguem dominantes, enquanto os family offices se concentram em empresas mais maduras, acessando-as por meio de fundos ou SPVs. Mais impressionante: 85% dos investidores ativos pretendem ampliar a exposição nos próximos doze meses.

Esse cenário, longe de ser um modismo, é consequência direta da evolução do ecossistema de tecnologia brasileiro. À medida que o mercado amadurece, torna-se inevitável a criação de mecanismos que permitam reciclar capital, redistribuir risco e alinhar interesses em ciclos mais longos.

O que antes parecia distante — operações secundárias robustas e recorrentes — hoje começa a se tornar rotina. A expectativa é de crescimento de cerca de 40% nesse mercado até o fim de 2025, com projeção de impacto relevante na economia real: até 2% do PIB já em 2026, quando startups devem usar os recursos para expandir, contratar e inovar.

Em outras palavras, o Brasil não está apenas alcançando a tendência global, mas pode assumir a dianteira na América Latina. O que começou como um paliativo, um “quebra-galho” em momentos de janelas fechadas, agora se transforma em pilar estrutural de um ciclo de venture mais saudável e dinâmico.

O mercado secundário deixa de ser exceção para se tornar regra — e essa é talvez a maior prova de que o ecossistema brasileiro amadureceu de fato.

Perguntas Frequentes

O que são operações secundárias no mercado de tecnologia?
Operações secundárias referem-se à compra e venda de participações já existentes em empresas privadas. Elas são usadas para melhorar a governança, alinhar interesses e proporcionar liquidez aos acionistas, sem a necessidade de abrir capital ou realizar fusões e aquisições.
Por que as operações secundárias se tornaram importantes no Brasil?
As operações secundárias ganharam importância no Brasil porque permitem que fundadores e colaboradores realizem parte do valor de suas participações sem precisar esperar por um IPO ou M&A, que são cada vez mais imprevisíveis. Isso traz estabilidade e liquidez ao ecossistema de startups.
Qual é o impacto das operações secundárias para os fundadores de startups?
Para os fundadores, as operações secundárias permitem a realização de parte do valor de suas participações, proporcionando liquidez pessoal e estabilidade financeira. Isso os ajuda a continuar focados na construção de suas empresas sem a pressão de esperar por uma década para materializar seu valor.
Como as operações secundárias afetam os colaboradores das startups?
Para os colaboradores, as operações secundárias tornam as stock options mais concretas, permitindo que eles realizem parte do valor de suas opções de ações. Isso pode aumentar a motivação e o engajamento, pois os colaboradores veem um retorno tangível de seu trabalho.
Qual é a percepção atual sobre a venda de participações por fundadores no Brasil?
Atualmente, a venda de uma pequena parcela de participações por parte dos fundadores não é mais vista como um tabu no Brasil. Em vez disso, é considerada um mecanismo de estabilidade que ajuda a equilibrar interesses pessoais e profissionais, sem indicar uma saída disfarçada da empresa.
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