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Hypertransfer: a cápsula que pode tirar o transporte terrestre do século passado [Coluna]

Como será deslocar-se a 1.000 km/h em um trem, evitando trânsito e outros obstáculos e ainda diminuindo danos ao meio ambiente?

Avatar do(a) autor(a): Igor Lopes - Colunista

schedule10/07/2025, às 20:00

updateAtualizado em 18/07/2025, às 09:57

Imagine acordar em Milão, tomar um espresso, entrar num trem futurista e, 25 minutos depois, estar almoçando um carbonara às margens dos canais de Veneza. Parece roteiro de filme romântico, mas está cada vez mais perto da realidade. Bem-vindo ao mundo do hyperloop – ou hypertransfer, como está sendo chamado na Itália –, a tecnologia que promete tirar o transporte terrestre do estacionamento onde ele parou nas últimas décadas.

Porque sejamos honestos: nossos meios de transporte estão meio… parados no tempo. Os aviões mudaram, sim, mas não exatamente para melhor – hoje o passageiro viaja praticamente encaixotado. Os trens continuam quase os mesmos e as rodovias viraram pistas de testes de paciência. Mas agora surge uma inovação que combina o melhor dos mundos: velocidade de avião com eficiência ferroviária.

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O hyperloop é basicamente um trem maglev (aquele que levita sobre trilhos por campos magnéticos) viajando dentro de um tubo a vácuo. Sem resistência do ar e sem atrito com os trilhos, ele atinge velocidades de até 1000 km/h. Para efeito de comparação: Milão a Veneza de carro leva 6 horas; de trem convencional, 4 horas; de avião, 1h15. Com o hyperloop? 25 minutos. Dá nem tempo de terminar aquele podcast de true crime.

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O protótipo de uma estação do Hypertransfer. (Fonte: Hypertransfer/Divulgação)

Além de rápido, ele é muito mais limpo. O túnel é coberto por placas solares, que geram mais energia do que o sistema consome. A pegada de carbono é praticamente zero. E se der ruim, tipo um buraco no tubo? Calma. Caso entre ar, o atrito faz a cápsula ir freando até chegar a 5 km/h. Nesse ponto, as rodinhas descem automaticamente e levam você até a saída de emergência mais próxima, sem explosões hollywoodianas.

O primeiro trecho prático será construído entre Padova e Veneza, mas a grande estreia de passageiros deve conectar Milão a Veneza. E quem está por trás dessa tecnologia não é só um monte de engenheiro europeu engravatado — tem brasileiro nesse rolê. Rodrigo Sá, mineiro, é um dos cofundadores do projeto Hypertransfer. Ele explica que, diferentemente dos maglevs ativos (como os que já operam no Japão e na China), que precisam de energia constante para manter a levitação, o sistema desenvolvido pela Hypertransfer praticamente não consome energia para levitar enquanto acelera. Resultado: menos consumo elétrico, menos ruído e muito mais eficiência.

“É um sistema híbrido, mas ainda assim precisa de muito menos energia elétrica e gera praticamente zero pegada de carbono”, explica Rodrigo. Ele conta que, quando Elon Musk publicou o primeiro paper sobre o Hyperloop, em 2013, várias empresas começaram a desenvolver projetos mundo afora. Mas o Hypertransfer avançou mais rápido graças a colaborações globais – uma empresa cuida da cápsula, outra do propulsor, outra da estrutura dos túneis. Hoje, grandes nomes como Deutsche Bahn e Airbus já têm departamentos dedicados ao tema.

Rodrigo é sócio da Hyperloop Itália (agora chamada Hyperworks), a empresa que fornece a tecnologia para o consórcio italiano que irá construir o Hypertransfer. Esse grupo envolve algumas das maiores empresas da Itália, como a Webuild, a maior construtora do país, e a Leonardo, a mais importante empresa italiana de defesa.

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O sistema é apresentado em evento em Dubai. (Fonte: Hypertransfer/Divulgação)

A previsão é que esse trecho Milão-Veneza esteja operando até 2031. Primeiro, será feito um túnel de teste de 10 km entre Padova e Veneza, já parte do trajeto total, para homologar a tecnologia e comprovar sua segurança. Depois, o caminho até Milão completa o circuito.

E o Brasil? O Rodrigo revelou que já existiram conversas para implementar o sistema em Contagem, Minas Gerais, ligando áreas industriais e transportando minério e passageiros. Mas, como sabemos, projetos de longo prazo no Brasil enfrentam um obstáculo peculiar: eleições a cada quatro anos. A cada troca de governo, volta-se à estaca zero para convencer novamente sobre a viabilidade da tecnologia.

Mesmo assim, ele não desistiu. Há estudos para rotas como São Paulo a Campinas, São Paulo a Guarulhos, ou Belo Horizonte a Confins – ligações que, vamos combinar, resolveriam boa parte dos nossos dramas de trânsito e conexões aéreas. Rodrigo diz que este ano ainda pretende retomar conversas com autoridades e empresas interessadas no país. Afinal, não custa sonhar em trocar aquele engarrafamento eterno da Marginal por um tubo de vácuo de 5 minutos.

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Protótipo do hypertransfer. (Fonte: Hypertransfer/Divulgação)

Enquanto isso, a Europa discute o hyperloop como o futuro natural dos trens. Em Dubai, o projeto foi apresentado recentemente e despertou interesse imediato. Faz sentido: trens já têm toda uma regulamentação e aceitação social. É mais fácil apresentar o hyperloop como evolução do trem do que como uma revolução maluca saída de um episódio de Black Mirror.

Por aqui, seguimos esperando. Enquanto o hyperloop não chega, resta continuar reclamando do trânsito, dos assentos apertados no avião e sonhando com o dia em que o Brasil vai parar de perder o trem da inovação – ou melhor, a cápsula.
 

Perguntas Frequentes

O que é o Hypertransfer e como ele funciona?
O Hypertransfer, também conhecido como hyperloop, é uma tecnologia de transporte terrestre que utiliza uma cápsula levitante (maglev) viajando dentro de um tubo a vácuo. Sem resistência do ar e sem atrito com trilhos, o sistema permite atingir velocidades de até 1.000 km/h, combinando a velocidade de um avião com a eficiência de um trem.
Quais são as vantagens ambientais do Hypertransfer?
O Hypertransfer tem uma pegada de carbono praticamente zero. Seu túnel é coberto por placas solares que geram mais energia do que o sistema consome. Além disso, o sistema híbrido desenvolvido consome muito menos energia elétrica e gera menos ruído em comparação com outros trens maglev ativos.
É seguro viajar em um tubo a vácuo?
Sim. Em caso de falha, como a entrada de ar no tubo, o atrito faz a cápsula desacelerar até 5 km/h. Nesse ponto, rodas descem automaticamente e conduzem os passageiros até a saída de emergência mais próxima, sem riscos de explosões ou acidentes graves.
Qual será o primeiro trajeto do Hypertransfer na Itália?
O primeiro trecho prático será entre Padova e Veneza, com um túnel de teste de 10 km para homologar a tecnologia. A estreia com passageiros está prevista para o trajeto completo entre Milão e Veneza, com previsão de operação até 2031.
Quem está por trás do desenvolvimento do Hypertransfer?
O projeto é liderado pela Hyperworks (antiga Hyperloop Itália), que fornece a tecnologia para um consórcio italiano formado por grandes empresas como a Webuild e a Leonardo. O brasileiro Rodrigo Sá, cofundador do projeto, destaca a colaboração global como fator-chave para o avanço da iniciativa.
Existe a possibilidade de o Hypertransfer ser implementado no Brasil?
Sim, já houve conversas para implementar o sistema em Contagem (MG), com foco em transporte de minério e passageiros. Também há estudos para rotas como São Paulo-Campinas, São Paulo-Guarulhos e Belo Horizonte-Confins. No entanto, a instabilidade política e as mudanças de governo dificultam a continuidade dos projetos.
Como o Hypertransfer se diferencia dos trens maglev já existentes?
Diferente dos maglevs ativos que operam no Japão e na China, o sistema do Hypertransfer praticamente não consome energia para manter a levitação durante a aceleração. Isso resulta em menor consumo elétrico, menos ruído e maior eficiência operacional.
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