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The BRIEF

Que fim levou a Vasp, a tradicional empresa de aviação de São Paulo?

Companhia aérea foi estatal e privada, chegou a liderar o mercado e teve fim melancólico por dívidas e sucateamento.

Avatar do(a) autor(a): Nilton Cesar Monastier Kleina

schedule28/06/2025, às 09:00

updateAtualizado em 01/10/2025, às 07:42

O Brasil tem uma história já rica na aviação, desde o pioneirismo de Santos Dumont e a formação da Embraer até a fundação de companhias aéreas nacionais que se destacam ao longo das décadas. E, entre todos os nomes do setor, a Vasp foi uma das mais conhecidas.

Fundada em São Paulo e aos poucos expandindo para o território nacional, a Vasp virou um dos sinônimos de transporte de passageiros entre as décadas de 1940 e 2000. Porém, a história da companhia é turbulenta e tem viradas bruscas no comando, até chegar no destino final da companhia. A seguir, saiba o que aconteceu com a empresa e as suas aeronaves.

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A fundação da Vasp

A Vasp foi fundada por um grupo de empresários em 4 de novembro de 1933, sendo o nome uma sigla para Viação Aérea São Paulo. Neste período, o Brasil já tinha algumas companhias no ramo, como a Varig (do Rio Grande do Sul), a Panair do Brasil e a Syndicato Condor (ambas do Rio de Janeiro, mas financiadas por capital estrangeiro).

Os primeiros voos da Vasp foram realizados em um Monospar ST-4, uma aeronave com capacidade para apenas três pessoas. O local escolhido inicialmente foi o Campo de Marte, na zona norte da cidade, com viagens para São José do Rio Preto e a mineira Uberaba.

Aos poucos, ela expande a quantidade de rotas nas viagens comerciais e adquire também aviões com capacidades um pouco maiores para transporte de passageiros.

A era estatal

Só que o início da vida da Vasp não foi nada fácil e ela logo passou por uma mudança radical no comando. Em crise financeira, a companhia se torna estatal em março de 1935, passando a ter o controle do próprio governo de São Paulo.

A alteração marcou um período mais estável dessa trajetória, com a chegada de capital para adquirir equipamentos mais modernos e fazer mais voos. Ela ainda foi a primeira a ocupar o recém-inaugurado Aeroporto de Congonhas, que era chamado de "Campo da Vasp" em seus primeiros anos pela quase exclusividade da companhia.

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Um dos modelos Vickers Viscount da Vasp. (Imagem: Reprodução/DasArtes)

A empresa ainda inaugurou a popular rota comercial entre São Paulo e Rio de Janeiro em 1936, utilizando o modelo Junkers JU-52/3. Isso revolucionou o transporte entre as cidades, com a viagem levando menos de duas horas — isso contra até 15 horas de trem ou mais de um dia usando os carros da época.

No período, a Vasp tinha o domínio do mercado em São Paulo, mas ainda era uma companhia de menor presença nacional. Alguns movimentos que alteraram esse cenário incluem:

  • a compra da paranaense Aerolloyd Iguassú (1939), a Aerovias Brasil (1942) e a Lloyd Aéreo (1962), revendendo a segunda dessas empresas meses depois;
  • a renovação da frota após a Segunda Guerra Mundial com a compra de modelos DC-3 já sem utilidade militar e modelos Scandia;
  • colocar para voar em 1958 a primeira aeronave com motores a turbina da aviação comercial brasileira, o Vickers Viscount 827 PP-SRC;
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Anúncio da Vasp em revista sobre o modelo a jato. (Imagem: Passageiro de Primeira/Reprodução)
  • participar do projeto da Ponte Aérea Rio-São Paulo em 1959, com alta quantidade de voos entre as cidades junto das rivais Varig e Cruzeiro;
  • adquirir modelos a jato BAC 1-11-200 (One Eleven) em 1967, já atrasada em relação às concorrentes, e principalmente dos modernos Boeing 737-200 um ano depois, considerados os modelos de elite da época;

Na década de 1960, a Vasp tinha 25% do mercado nacional de aviação ao ampliar rotas para regiões Norte e Nordeste, mas chegou à liderança do setor em 1975 em número de passageiros transportados.

A crise e os anos privados

Apesar de devidamente modernizada em termos de frota, a Vasp acumulou uma série de problemas na década de 1980, que incluem problemas administrativos e situações que fugiram do controle da companhia.

  • Em 8 de junho de 1982, ocorre um acidente de um Boeing 727-200 da Vasp na Serra da Aratanha, no Ceará. A batida deixa 137 vítimas entre passageiros e tripulantes e, por décadas, foi o maior desastre aéreo do país;
  • Já em 29 de setembro de 1988 um homem chamado Raimundo Nonato Alves da Conceição sequestra um Boeing 737-300 da Vasp em plena viagem, com o objetivo de atingir o Congresso Nacional. O avião pousou em Goiânia e o sequestrador foi detido após horas de ação policial, com o copiloto Salvador Evangelista sendo a única vítima. O caso virou filme em 2023;
  • A Vasp encarou ainda diversas acusações de corrupção envolvendo a gestão estatal, de contratos suspeitos até a manutenção de funcionários fantasmas, manchando a imagem da marca;
  • A própria situação financeira do Brasil também contribuiu para aumentar a dívida da companhia, que gastou muito comprando as aeronaves modernas;

A empresa até ganha uma nova identidade visual em 1985, que acabou sendo a mais reconhecida pelo público até hoje.

Até que chega o momento de uma mudança já esperada. Com US$ 750 milhões na época em dívidas, a Vasp é privatizada em 1990. O empresário Wagner Canhedo, já com experiência no setor de transportes, vira o maior acionista com 60% da marca por US$ 43,7 milhões e passa a administrar a companhia.

Uma CPI chegou a ser montada para investigar possíveis irregularidades no processo, mas não trouxe resultados. No comando, Canhedo ampliou as rotas internacionais e comprou mais companhias aéreas regionais e aeronaves. Ele ainda criou um serviço de logística e encomendas usando aviões — a VASPEX, que seria rival do SEDEX dos Correios.

Porém, todas as investidas só pioraram a situação financeira delicada da Vasp, que começou a atrasar salários, reduzir rotas e se tornar inadimplente com fabricantes internacionais, que passaram a aumentar o valor de leasing (aluguel temporário de aeronave para a frota) como garantia.

O que aconteceu com a Vasp?

Mesmo estando afundada em dívidas, a Vasp terminou a década de 1990 com uma alta quantidade de voos nacionais e internacionais. Porém, a situação era cada vez mais insustentável, com a solução sendo cancelar rotas (incluindo todas as estrangeiras) e devolver aeronaves.

Canhedo chegou a ser preso por falta de pagamentos e tentou vender a Vasp sem sucesso. Em 2004, ela perdeu ainda mais aviões quando modelos já defasados tiveram o uso impedido por questões de segurança, além de encarar greves de funcionários.

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Aeronaves abandonadas da Vasp após a falência. (Imagem: GettyImages)

No ano seguinte, ela encerra definitivamente os voos domésticos e só em 2008 teve a falência decretada em São Paulo pela primeira vez — o caso se arrastou na Justiça e foi confirmado apenas em 2013. Só dois anos depois os funcionários começam a receber (ainda parcialmente) os pagamentos devidos.

Com o tempo, boa parte da frota da Vasp foi desmontada para venda de peças ou comprada e enviada para exibição diversas cidades do Brasil. Até hoje, a massa falida da empresa busca uma indenização de ao menos R$ 9,5 bilhões pelo período em que foi estatal, o que a obrigava a operar com valores tabelados pelo governo, em um caso que se arrasta há anos nos tribunais.

Quer saber o que aconteceu com a Embratel, a antiga estatal de telefonia do Brasil e dona do slogan "Faz um 21"? Confira esse especial do TecMundo!

Perguntas Frequentes

O que foi a Vasp e qual a sua importância na aviação brasileira?
A Vasp (Viação Aérea São Paulo) foi uma das companhias aéreas mais tradicionais do Brasil, fundada em 1933. Ela teve papel fundamental no desenvolvimento da aviação comercial no país, sendo pioneira em rotas como São Paulo–Rio de Janeiro e na introdução de aeronaves modernas, como o Vickers Viscount 827. Chegou a liderar o mercado nacional em número de passageiros transportados em 1975.
Quando e por que a Vasp se tornou uma empresa estatal?
A Vasp se tornou estatal em março de 1935, apenas dois anos após sua fundação, devido a uma crise financeira. O governo do estado de São Paulo assumiu o controle da companhia, o que permitiu a estabilização das operações e investimentos em infraestrutura e frota, como a ocupação do recém-inaugurado Aeroporto de Congonhas.
Quais foram os principais marcos tecnológicos e operacionais da Vasp?
Entre os marcos da Vasp estão a inauguração da rota aérea São Paulo–Rio de Janeiro em 1936, a introdução do primeiro avião com motores a turbina da aviação comercial brasileira em 1958 (Vickers Viscount 827), e a participação na Ponte Aérea Rio–São Paulo em 1959. Também adquiriu modelos a jato como o BAC 1-11-200 e o Boeing 737-200 nos anos 1960.
O que levou à crise da Vasp nas décadas de 1980 e 1990?
A crise da Vasp foi causada por uma combinação de má gestão administrativa, escândalos de corrupção, acidentes aéreos de grande repercussão e o agravamento da situação econômica do Brasil. A empresa acumulou dívidas elevadas, mesmo após modernizar sua frota, e enfrentou dificuldades para manter suas operações.
Como foi o processo de privatização da Vasp?
A Vasp foi privatizada em 1990, quando o empresário Wagner Canhedo adquiriu 60% da companhia por US$ 43,7 milhões. Apesar de ampliar rotas e criar serviços como a VASPEX (logística aérea), a gestão privada agravou os problemas financeiros, levando à inadimplência, atrasos salariais e redução de voos.
Quando e como a Vasp encerrou suas atividades?
A Vasp encerrou seus voos domésticos em 2005 e teve a falência decretada pela primeira vez em 2008, com confirmação judicial apenas em 2013. A empresa já havia perdido aeronaves por questões de segurança e enfrentava greves e tentativas frustradas de venda. Parte da frota foi desmontada ou usada como exposição em cidades brasileiras.
O que é a VASPEX e qual era sua proposta?
A VASPEX foi um serviço de logística e encomendas criado pela Vasp durante a gestão privada de Wagner Canhedo. A proposta era competir com o SEDEX dos Correios, utilizando a frota de aviões da companhia para transporte rápido de cargas e encomendas.
A Vasp ainda busca algum tipo de compensação judicial?
Sim. A massa falida da Vasp ainda busca uma indenização de pelo menos R$ 9,5 bilhões, alegando prejuízos causados pelo período em que a empresa foi estatal e obrigada a operar com tarifas tabeladas pelo governo. O processo segue em andamento na Justiça.
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