Unindo forças na busca da inclusão racial no mercado corporativo

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Novembro é um mês de reflexão sobre a história e a construção da sociedade brasileira, é o reconhecimento da influência e da luta dos descendentes africanos na cultura e na economia do país. Dia 20 é mais do que relembrar a morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, assassinado em 1695, é também falar sobre o legado, a liberdade, o respeito e os direitos humanos. Vamos refletir juntos sobre por que os outros 11 meses deveriam representar a continuação dessa conscientização?

De acordo com os ativistas negros Stockley Carmichael e Charles V. Hamilton, 'o racismo é onipresente, subliminar e permeia toda a sociedade'

De maneira resumida, os autores citam a reprodução das condições de subclasse à população negra, contribuindo para a manutenção das mesmas formas racistas que afetam as instituições que, apesar de buscarem formas de erradicar a discriminação social, trabalham fundamentadas em fatores racistas, apesar de, às vezes, não os reconhecerem.

A diversidade étnico-racial do Brasil no mundo corporativo ainda enfrenta obstáculos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 54% da população do país se autodeclara negra (pretos ou pardos), porém não vemos essa representatividade nos ambientes organizacionais. A situação é ainda mais grave em cargos de liderança, em que somente 6,3% dos cargos de gerência e 4,7% dos cargos executivos são compostos por negros. Há ainda o agravante de que apenas 1,6% dos cargos de gerência é ocupado por mulheres negras, segundo levantamento realizado em 2016 pelo Instituto Ethos, que se refere às 500 maiores empresas do país.

Inclusão racialFonte: Shutterstock

Outros dados relevantes levantados pela empresa Vagas.com em 2020 mostram que pessoas que se declaram negras ocupam 47% das posições operacionais e 11% das posições técnicas, em percentuais superiores aos relatados por brancos, indígenas e amarelos, porém apenas 0,7% tem cargo de diretoria.

Devido a esse quadro, é primordial a implementação de políticas de inclusão racial que tragam propostas concretas para o estreitamento do abismo social existente nessas relações e ajudem na reparação histórica necessária à equidade racial no nosso país. Em passos lentos, em termos de inclusão social, vêm sendo apontadas algumas iniciativas no mundo corporativo que incitam a promoção da diversidade nas equipes.

A ativista e filósofa americana Angela Davis tem uma frase bastante poderosa: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, e ser antirracista é tomar ações que ajudem no combate ao racismo. No ambiente organizacional, existem diversos exemplos de ações que podem e devem ser implementadas em prol da diversidade racial, como o engajamento de lideranças a fim de reconhecer a importância da prática inclusiva para o crescimento e a evolução da empresa; a educação antirracista que consiste em abranger toda a equipe em programas de sensibilização e informação; as ações afirmativas para a contratação de candidatos mais diversos, treinamento de vieses inconscientes e contratação inclusiva para tomadores de decisão; além de buscar fornecedores com práticas de promoção de diversidade ou, melhor ainda, comprar diretamente de pessoas que se autodeclaram negras.

É também possível aprimorar uma linguagem muito mais prudente e inclusiva, estabelecer condutas saudáveis de comunicação interna por meio de capacitação, treinamento, mentoria humanizada e pautada na diversidade.  É necessário compreender que, além das contratações, temos de reverter o quadro internamente, gerando consciência e conhecimento.

Na Intel, por exemplo, essas práticas já estão tomando lugar de maneira fluida e engajada. São grupos de afinidades e comitês de diversidade que discutem o planejamento de ações para gerar mais equidade e inclusão para a empresa. São parcerias com organizações que lutam pela promoção da inclusão racial e superação do racismo, como a Faculdade Zumbi dos Palmares, que coordena a Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, a qual representa a articulação entre empresas  com um desempenho ainda mais significativo na abordagem do tema, estabelecendo um espaço de diálogo do empresariado brasileiro em torno de dez compromissos, entre eles a promoção e a valorização da diversidade étnico-racial, o respeito e o tratamento justo a todas as pessoas, a promoção de ambientes seguros e saudáveis e a sensibilização e a educação dos funcionários para o tema.

É de extrema importância que as empresas formem grupos de afinidade, contratem palestrantes externos e busquem conhecimento com quem entende do tema, a fim de criar uma camada de força e luta contra o racismo e a uma sociedade mais justa, colocando o tema de diversidade e inclusão racial na agenda do negócio o ano inteiro, não apenas no mês da consciência negra.

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Telma Gircis é líder de RH da Intel para América Latina e Canadá.

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