Dispositivos eletrônicos portáteis e versáteis têm sido usados para executar várias tarefas. Alguns dos hábitos mais tradicionais admitidos pelas sociedades ao longo dos séculos são abarcados, naturalmente, pelas novas tecnologias. A leitura de obras, dessa forma, tem sido feita por meio de smartphones, tablets e eReaders dos mais variados tipos.

E é verdade: carregar centenas de livros debaixo dos braços é uma possibilidade tentadora aos amantes do mundo literário. Mas a facilidade de leitura aliada à quantidade de obras que podem ser concluídas a partir de alguns toques sobre telas de aparelhos móveis significa, de fato, que esses novos leitores retêm boa parte do conteúdo lido?

Publicado pelo periódico The Guardian nesta semana, um estudo afirma que leitores que fazem uso de aparelhos eletrônicos não apresentam as qualidades de memorização manifestadas por aqueles que relutam em arredar os olhos das tradicionais letras impressas.

Realizada pela Universidade de Stavanger (Noruega), a pesquisa avaliou 50 pessoas. Todos os entrevistados leram uma história de 28 páginas: metade deles fez a leitura por meio de um Kindle; outros 25 fizeram a leitura da mesma obra impressa em papel.

Retenção de conteúdo

Conduzida pela professora Anne Mangen, a análise revelou a existência de diferenças em termos de imersão junto à história e retenção de conteúdo em ambos os grupos avaliados. “Verificamos que os ‘leitores de papel’ têm níveis maior de empatia, imersão e de coerência narrativa quando comparados aos ‘leitores digitais’”, nota a pesquisadora.

A reconstrução da história contada pela obra lida não foi feita com sucesso por quem usou um eReader. “Os leitores que usaram um Kindle demonstraram uma performance notavelmente pior durante a ação de reconstrução de 14 eventos listados pela história em ordem correta”, registrou também Anne. Mas, afinal, por que a retenção de conteúdo foi feita desta forma?

Método de memorização

Uma das hipóteses que justifica a menor retenção de conteúdo feita pelos “leitores digitais” é justamente a forma como o cérebro retém informações. “Em um livro, você pode sentir a pilha de papel que ainda está por vir. Há um progresso tátil em adição ao progresso visual. As diferenças se dão em função da falta de flexibilidade em um aparelho como um Kindle”, explica a professora.

Outro fundamento da memorização diz respeito à disposição de conteúdo. “Muitas vezes nos lembramos de trechos de histórias que estão descritos em determinados locais das páginas”, observam ainda estudiosos em entrevista à revista Scientific American. Este processo é descrito como o “palácio da memória” ou método loci, técnica de memorização que depende das relações espaciais estabelecidas para que um conteúdo determinado seja retido.

Significa, em suma, que a experiência física estabelecida entre leitores e obras impressas é mais intensa – o que, por estimular mais sentidos, resulta em uma maior retenção de conteúdo. Mas Anne Mangen observa: as constatações feitas pelo estudo não crucificam os “leitores digitais”, que podem, naturalmente, apresentar boas performances durante a leitura de obras em aparelhos móveis. Contudo, a professora insiste: “A pesquisa realizada com estudantes mostrou que eles preferem ler em papel”.

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