Um dos vídeos mais vistos de 2009 mostra um grupo de amigos reunidos que apontam quatro celulares para alguns grãos de milho e em seguida ligam para os aparelhos. Após alguns instantes de toque, o resultado é impressionante: o milho explode como se estivesse dentro de um micro-ondas e vira uma pipoca.

O vídeo se espalhou de maneira extremamente rápida pela internet, e até hoje é possível encontrar discussões sobre a veracidade ou não daquilo que é apresentado. Diversos vídeos foram realizados por outros usuários na tentativa de provar que o experimento dá certo, em uma tentativa de se aproveitar da popularidade do filme original.

Os celulares capazes de transformar milho em pipoca serviram para reabrir a velha discussão sobre os males que a utilização de aparelhos móveis pode ter para a fisiologia humana. Não demorou a surgir teorias de que, se um simples aparelho era capaz de cozinhar rapidamente um grão de milho, os efeitos no cérebro de uma pessoa que conversa ao telefone o dia inteiro seriam ainda piores.

Mas afinal, tudo isso é verdade ou não passa de uma simples brincadeira para atiçar a curiosidade de outras pessoas? É o que o Baixaki desvenda neste artigo da série Mito ou verdade.

Posso utilizar meu celular como substituto para o micro-ondas?

Apesar dos celulares terem cada vez mais funções, estourar pipoca não é uma delas.A resposta para a pergunta acima é uma só: um celular não é capaz de transformar milho em pipoca como demonstrado no vídeo. Aliás, nem uma centena de celulares reunidos teria poder o suficiente para realizar este feito. Um micro-ondas normal tem potência média de 700 Watts e opera com frequência de 2450 MHz, a mais eficiente para excitar moléculas de água. Mesmo assim, demora cerca de um minuto até que o milho colocado no micro-ondas comece a se transformar em pipoca.

Já um celular GSM tem potência média de 0.25 W, utilizando a frequência de 900 MHz: ou seja, a experiência mostrada no vídeo é simplesmente impossível por pura falta de energia. Sem contar que a maior parte da energia transmitida pelos aparelhos é dissipada antes de chegar ao grão de milho: mesmo que os aparelhos ficassem ligados durante uma hora e os grãos fossem capazes de absorver toda a energia, o aumento de temperatura seria insuficiente para fazê-los estourar.

Ação de marketing viral

Depois de toda a repercussão do vídeo pela internet e especulações de que se trataria de uma ação de marketing viral, a companhia norte-americana Cardo Systems assumiu a sua autoria e reconheceu que se tratava de uma campanha para promover uma nova linha de fones de ouvido que utilizam da tecnologia Bluetooth.

Segundo os representantes da empresa, o objetivo não era causar pânico nos usuários ou alertar sobre possíveis problemas causados pelo uso excessivo de aparelhos celulares, mas sim promover uma ação divertida e que estimulasse as pessoas a tentar reproduzi-la em casa. Sem dúvida a campanha foi bem sucedida neste sentido, basta ver o grande número de vídeos disponíveis no Youtube que tentam fazer a experiência ou até mesmo a parodiam. Porém, nenhum dado aponta para o crescimento da venda de fones de ouvido Bluetooth por causa disso.

Em entrevista para o canal CNN, o CEO da Cardo Systems, Abraham Glezerman, revelou que tudo não passou de um truque feito com a ajuda de softwares de edição de vídeo. A pipoca mostrada nas cenas é real, mas foi feita antes utilizando um micro-ondas: o segredo foi jogar as pipocas nas cenas e depois editar o vídeo para fazer os grãos desaparecerem. Desta forma se criou a ilusão de que os celulares eram responsáveis por fazer a pipoca.

Como reaproveitar um mito antigo

O vídeo mostrando celulares estourando grãos de milho é somente uma versão nova de um mito que circula a internet desde o ano 2000. A diferença é que em vez de fazer pipoca, o mito antigo prometia que dois aparelhos celulares ligados durante uma hora seriam capazes de cozinhar um ovo.

O mito se aproveitava do medo causado por novas tecnologias que utilizam formas de comunicação sem fio para operar, como wi-fi, Bluetooth, fornos de micro-ondas e aparelhos celulares. Por mais que não haja nenhum estudo conclusivo que comprove algum dano que o uso destas tecnologias pode causar a médio ou longo prazo, é muito fácil assustar pessoas espalhando boatos falsos sobre danos causados pelo uso de algum aparelho.

Basta utilizar um pouco o raciocínio e a lógica para ver que a maioria das histórias do tipo não passa de mitos e tem como objetivo espalhar o medo e a desinformação. Afinal, caso um celular realmente fosse capaz de cozinhar um ovo ou transformar grãos de milho em pipoca, imagine o que não seria capaz de fazer com o cérebro ou mesmo a mão de um usuário? Simplesmente tocar em um celular ligado causaria queimaduras graves à pele, tornando o uso destes aparelhos praticamente impossível.