Afegãos apagam redes sociais com medo de perseguição do Talibã

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Imagem: Reprodução/Andy Kim
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Após a recente tomada de poder do grupo Talibã no Afeganistão, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento – sigla USAID em Inglês – enviou um e-mail orientando seus parceiros a removerem "fotos e informações que podem tornar indivíduos ou grupos vulneráveis" na internet. A decisão gerou uma onda nas redes sociais afegãs em que usuários estão apagando conteúdos com medo de perseguição e represália.

A embaixada estadunidense em Kabul, que agora está fechada, também recomendou a cautela na última sexta-feira (13), pedindo para que funcionários eliminem materiais e itens que "podem ser usados em esforços de propaganda".

Segundo o jornalista Frud Bezhan, da Radio Free Europe/Radio Liberty, membros do Talibã estão indo de porta em porta em busca de trabalhadores do governo, soldados, policiais e até afegãos que tenham apenas colaborado com governos exteriores e ONGs. De acordo com as fontes do profissional, os combatentes estão realizando "buscas e apreensões" nas casas, confiscando documentos e armas, além do registro de nomes e endereços.

Já Monica Campbell, editora do The World, anunciou que afegãos ligados às forças dos Estados Unidos estão escondendo documentos que apontam para essa parceria e que são necessários para o processo de evacuação do país.

Um dilema perigoso e sem muitas orientações

"O desafio é como você consegue balancear o acesso à informação, como o que está acontecendo em aeroportos ou se pessoas estão procurando o seu contato, com a eliminação de evidências que podem ser usadas pelo grupo para incriminá-lo e torná-lo como exemplo", disse Welton Chang, Oficial de Tecnologia da Human Rights First, uma ONG de direitos humanos, em entrevista ao Wired.

A instituição de Chang elaborou um guia para eliminação de históricos digitais. Originalmente disponível apenas em inglês, a iniciativa surgiu durante os protestos em Hong Kong e recebeu uma tradução não oficial em árabe no domingo (15).

"Eu estava procurando orientações de segurança digital em Dari e Pachto (línguas faladas no Afeganistão) e encontrei poucas. Nenhuma era realmente boa e compreensível", disse Nighat Dad, advogada de Direitos Digitais no Paquistão, que agora trabalha com a Human Rights First para traduzir o guia. "Nós que trabalhamos nessa área também somos cúmplices. Acho que não fizemos o suficiente para essas pessoas", complementou.

Muhibullah – nome fictício para proteção da privacidade –  é um tradutor que trabalhou com empresas ocidentais e com o exército estadunidense. Falando para a Wired, ele informou que removeu todos os contatos de estrangeiros do WhatsApp. "Se me revistarem e checarem meu celular, podem encontrar as minhas coisas".

A Human Rights First também está criando um guia para evitar ferramentas de reconhecimento facial e biometria. "Rumores dizem que o Talibã conseguiu acesso a um banco de dados de biometria do exército estadunidense durante a tomada do país". A instituição confessa que não sabe a veracidade da informação e nem o suposto alcance do banco de dados.