O manifesto contra políticas inclusivas compartilhado por um funcionário em uma rede interna da Google ainda está rendendo frutos. Após provocar revolta entre seus colegas, o engenheiro de software James Damore foi demitido da companhia, que divulgou uma nota esclarecendo a situação e a demissão. Assinado pelo CEO Sundar Pichai, o memorando foi enviado a todos os funcionários da empresa e, posteriormente, publicado no blog oficial da companhia.

“Primeiro, deixe-me dizer que nós apoiamos firmemente o direito dos funcionários da Google de se expressarem, e muito do que estava naquele documento é justo de se debater, independentemente de a maioria dos funcionários discordarem dele”, escreveu o executivo. “Contudo, partes da mensagem violam o nosso Código de Conduta e ultrapassam os limites ao levarem perigosos estereótipos de gênero para o nosso ambiente de trabalho.”

Segundo Pichai, o Código de Conduta da empresa espera que “todo funcionário da Google dará o seu máximo para criar uma cultura e um ambiente de trabalho livre de assédio, intimidação, preconceito e discriminação ilegal”. Como o documento violava alguns desses pontos, o seu autor foi desligado.

Contraponto

Apesar da demissão de Damore, Pichai faz um contraponto para esclarecer que visões dissidentes são bem-vindas e que alguns tópicos levantados pelo texto divulgado na rede interna da empresa são relevantes e podem ser discutidos.

“As pessoas precisam se sentir livres para expressar dissidência”, escreveu o executivo. “Então, para ser claro novamente, muitos dos pontos levantados no documento — como as partes com críticas aos treinamentos da Google, questionando o papel da ideologia no ambiente de trabalho e debatendo se programas para mulheres e grupos desatendidos são suficientemente abertos a todos — são tópicos importantes.”

Em viagem pela África e pela Europa, Pichai antecipará o seu retorno aos Estados Unidos para trabalhar naquilo que ele definiu como “dias muito difíceis para muitos” dentro da Google. Ele finalizou a sua nota pedindo que todos na empresa procurem conversar com pessoas com diferentes perspectivas de mundo e avisa que ele próprio fará o mesmo.

Pedidos de boicote

A notícia de que a Google demitiu o autor do manifesto antidiversidade irritou alguns militantes de extrema-direita alinhados com a chamada “alt-right”, ou direita alternativa. Famosos por se associarem a ideais conservadores (como o liberalismo econômico) e racistas (como a supremacia branca e o neonazismo), os ativistas foram às rede sociais pedir um boicote à Gigante da Web.

“Google, você deu a pílula vermelha a um monte de gente”, escreveu um deles fazendo referência ao filme Matrix. “As pessoas estão cansadas de chorões virtuais da diversidade. Mais estão acordando a cada dia.”

Um famoso teorista da conspiração de alt-right chegou a pedir que afiliação política também fosse uma “classe protegida pelas leis antidiscriminação”. “Eles querem 50% de mulheres na tecnologia? Nós queremos 50% de republicanos”, escreveu.

Quem pediu o boicote ao Google sugeriu a utilização de buscadores alternativos, como Bing e DuckDuckGo. Muita gente que apoia o boicote, porém entende ser quase impossível evitar usar produtos da empresa.

Críticas de todos os lados

Até mesmo Julian Assange, fundador do WikiLeaks, se manifestou publicamente e disse que “censura é para perdedores” em sua conta oficial no Twitter. Na mesma mensagem, o jornalista informa que a sua organização está oferecendo um emprego a James Damore.

A contenda entre Assange e a Google não vem de hoje. Há alguns anos, o ativista pela liberdade de expressão publicou um longo texto chamado “A Google não é o que parece”, trecho do livro When Google Met WikiLeaks (Quando a Google Conheceu o WikiLeaks, em tradução livre), no qual esmiúça relações escusas da empresa com o exército dos Estados Unidos e com figurões responsáveis pela desastrosa política internacional do país norte-americano.

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