A Hewlett-Packard é provavelmente a empresa que mais tem motivos para querer esquecer 2011. O ano passado ficará marcado como um dos piores de sua história, devido a uma série de confusões internas que quase conseguiram acabar com a confiança que consumidores e o mercado tinham na companhia.

Entre os episódios mais trágicos, estão o lançamento desastroso do HP Touchpad (e o posterior abandono do WebOS) e os rumores que indicavam a venda de sua importante divisão de desktops. Esses momentos serviram para expor ao público as fragilidades da empresa, que para muitos parece não saber qual rumo seguir atualmente.

Neste artigo, vamos explicar alguns dos motivos que resultaram no enfraquecimento da HP. Além disso, vamos mostrar que, apesar da crise atual, a companhia tem a história e os recursos necessários para se reerguer.

O jeito HP

Mais do que uma simples integrante do chamado Vale do Silício, a HP pode ser considerada a responsável pela própria existência do termo. Fundada em 1939 pelos estudantes Bill Hewllet e David Packard, a empresa iniciou suas atividades em uma pequena garagem, na qual foi montado um oscilador de áudio.

Bill Hewllet e David Packard (Fonte da imagem: Forbes)

À medida que a empresa crescia, seus fundadores criaram uma filosofia de trabalho própria que acabou por ser conhecida como o “jeito HP”. Uma política de portas abertas estabelecia que nenhum de seus escritórios deveria ter portas, permitindo a comunicação entre todos os seus membros.

Da mesma forma, foi estabelecido um sistema de gerenciamento baseado em metas que permitia aos funcionários determinar por si próprios a melhor maneira de alcançar um objetivo específico. Tais decisões se mostraram extremamente positivas tanto para o crescimento da companhia quanto para os funcionários, que se sentiam parte de uma verdadeira família.

Com as devidas adaptações às demandas de mercado e ao fato de que em um ponto a empresa passou a contar com 325 mil funcionários espalhados pelo mundo, o “jeito HP” parecia uma fórmula de sucesso capaz de mantê-la competindo no mesmo nível ou acima da concorrência.

Histórico de superação

Não é a primeira vez em que o futuro da HP passa por uma situação preocupante. É um fato bem conhecido que a empresa não conseguiu perceber a tempo a revolução provocada pelo mercado dos computadores pessoais – um dos episódios mais emblemáticos aconteceu quando a companhia recusou a ideia da máquina construída por Steve Jobs e Steve Wozniak, que mais tarde fundariam a Apple.

A primeira LaserJet (Fonte da imagem: HP)
O que salvou a HP do fim e permitiu que a companhia se transformasse na líder de um mercado no qual não tinha qualquer participação foi a invenção da impressora LaserJet. O sucesso absurdo do produto foi responsável por, em um período de 10 anos, aumentar os lucros da empresa de 6 para 36 bilhões anuais.

Esse dinheiro foi investido não só na melhoria de produtos já existentes, como também ajudou na criação de outros produtos e deu grande impulso ao departamento interno de pesquisas. Entre as contribuições da empresa ao mundo está a própria internet, cujo criador teve a assistência de pesquisadores da HP.

A era Carly Fiorina

Mesmo após Hewlett e Packard terem deixado os cargos principais da empresa durante a década de 80 (embora tenham continuado atuando no conselho até certo ponto), seus sucessores foram bem-sucedidos em manter a corporação como uma líder de mercado - história que viria a mudar no final da década de 90.

Carly Fiorina (Fonte da imagem: Huffington Politics)

Ao assumir o cargo de CEO da HP em 1999, Cara Carleton “Carly” Sneed Fiorina decidiu que era a hora de mudar a cultura interna da HP para adequá-la ao seu próprio ponto de vista. Para isso, decidiu agir de maneira radical e acabar com muitos dos elementos que lembravam a maneira como a empresa agia até então.

Uma das mudanças mais icônicas foi a retirada de qualquer fotografia dos fundadores Bill e David de todos os escritórios da HP. Essa atitude não só passava a mensagem de que a companhia estava sob nova administração, mas de que a partir daquele momento tudo o que tinha sido feito até o momento havia sido rejeitado.

Carly também demitiu todos os antigos executivos da HP a que teve direito, além de fechar muitos dos escritórios mais antigos da companhia. Muitos desses locais abrigavam os mesmos funcionários há mais de 25 anos, o que significou a morte de anos de regras culturais e métodos de interação interna. A opção de manter muitas pessoas trabalhando em casa também acabou com o ambiente de portas abertas e serviu para dificultar a comunicação entre diferentes áreas da empresa.

A reformulação completa do departamento de vendas, que trabalhava de forma semelhante há décadas, e a diminuição de salários entre a maioria dos funcionários só serviram para minar ainda mais a confiança interna da companhia.

Uma empresa confusa

A era de Carly Fiorina também serviu para bagunçar completamente o quadro de diretores da HP, algo que tem consequências até os dias de hoje. Ao insistir na compra da Compaq, a ex-CEO dividiu os diretores da empresa entre aqueles que apoiavam as famílias e os ideais dos fundadores da empresa e aqueles que não estavam muito conectados à sua filosofia interna.

O conflito fez com que a empresa como um todo perdesse o foco no que deveria fazer para se manter viva no mercado de tecnologia. Essa confusão se refletiu nos nomes eleitos para suceder Carly no papel de CEO, que muitas vezes se provaram incapazes de pensar a longo prazo ou estabelecer metas claras para a empresa.

Valor das ações da HP em 2011 (Fonte da imagem: Wikinvest)

Toda essa situação resultou na administração desastrosa de Leo Apotheker, que em menos de um ano conseguiu derrubar em 49% o valor de mercado da HP. O fim da produção do HP Touchpad e a promessa de vender a divisão de computadores ficarão marcados como as ações de um administrador indeciso e incapaz de definir um rumo certo para uma companhia tão grande e importante.

A indicação de Meg Whitman para o cargo não acaba com as preocupações quanto ao futuro da empresa. Apesar de ter sido bem-sucedida no comando do eBay, a executiva é considerada uma “novata” dentro da companhia, situação que expõe mais um de seus problemas – enquanto empresas como a Apple possuem um plano de sucessão interna bem definido, falta à Hewlett Packard especificar o que a companhia pretende ser no futuro.

A HP busca de um rumo

Apesar de ter consertado alguns dos estragos feitos por Apotheker, encerrando os rumores relacionados à venda da divisão de desktops e dando esperanças a quem espera ver uma nova versão do Touchpad, Meg Whitman deve se mostrar capaz de vencer um desafio hercúleo para retornar a HP à sua antiga forma.

Meg Whitman (Fonte da imagem: The Political Junkie)

Para que isso seja possível, tudo indica que um olhar atento ao passado da própria empresa pode ser decisivo para seu sucesso no futuro. A HP precisa retomar sua trajetória de inovação e passar a valorizar novamente as ideias responsáveis por sua grandiosidade atual. Apesar de terem mais de 70 anos, os valores infundidos por Hewlett e Packard ainda são bastante importantes na construção de um ambiente empresarial saudável.

A história atual da empresa lembra muito a situação vivida pela Apple durante a ausência de Steve Jobs na década de 90. Assim como a concorrente, a impressão que fica é a de que a HP se contentou em colher os frutos do passado e, devido à segurança conquistada, seus executivos passaram a se preocupar mais com disputas internas do que com o que realmente importa – produtos com qualidades inovadoras que se traduzem em funcionários e clientes satisfeitos.

Qual a sua opinião?

E você, o que pensa a respeito da situação atual da Hewlett Packard? A tradição estabelecida por seus fundadores é suficiente para manter a empresa como uma líder de mercado? O estrago feito foi tão grande que não há mais esperanças para a empresa? Não deixe de participar desse debate registrando sua opinião em nossa seção de comentários.

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