O design está presente nos produtos que você usa e consome diariamente, da cadeira na qual você está sentado até os softwares (além do visual e até da embalagem) dos seus eletrônicos favoritos. Mas existe outra área que você pode não valorizar porque não consegue enxergá-la aplicada: o design futurista. Nesse segmento, profissionais criam projetos de soluções e serviços que podem nem sair do papel daqui a alguns anos, mas ajudam na concepção de ideias para os mais diversos setores da sociedade.

A respeito disso, o TecMundo conversou com o brasileiro João Ozório, do escritório de design Ozório. Competindo com concorrentes de todo o mundo, ele ficou entre os 100 projetos selecionados no concurso de conceitos envolvendo tecnologia Electrolux Design Lab em 2015. Impulsionado pelo resultado, resolveu investir na ideia e agora enxerga o futuro não como um sonho, mas sim como oportunidade.

O futuro por Ozório

O projeto selecionado pela Electrolux é a Purity Ball, que realiza a purificação do ar ao mesmo tempo em que serve como uma bola comum.

Mais recente, a DNS10 é uma aeronave para resgate e transporte aeromédico que une ainda o uso de um drone e um jetpack para reconhecimento da área e movimentação em locais de difícil acesso. Além de garantir a realização do trabalho de forma eficiente, ela mistura conforto, agilidade e segurança também para os profissionais que executam o procedimento.

Bate-papo

Ozório: é preciso ser apaixonado e curioso no que se faz.

TecMundo: Como você começou a desenhar projetos futuristas? Foi na faculdade de Design ou ainda antes, como um sonho de criança?

João Ozório: Na verdade, foi se construindo com o tempo. Comecei a faculdade de Design porque eu gostava de desenhar produtos. Sempre gostei de participar de concursos e, em 2014, me inscrevi no da Electrolux. Quando eu soube que fiquei no top 100, meus olhos brilharam. Eu já desenvolvia conceitos até antes da faculdade, mas, quando veio o reconhecimento, vi que era hora de ficar e desenvolver um trabalho mais estruturado nesse sentido. Já estava no processo de abertura do escritório e resolvi como diferencial seguir por essa linha.

E a ideia do DNS10, como surgiu?

A ideia de projetos futuristas é desenvolver soluções para onde ainda tem pouca exploração nesse mercado. Comecei a pesquisar e estava justamente em busca de um nicho ao qual as pessoas não estivessem dando tanta atenção. Fiz uma reunião com as pessoas aqui da cidade que fazem resgate médico e descobri essa necessidade. Resolvi fazer algo que possa servir para o futuro. Eles têm pouco conforto, utilizam aeronaves totalmente adaptadas que eram originalmente para transporte de passageiros; é bem precário e existem muitas falhas. Claro que não é simples de se resolver, mas a ideia é mostrar que existe um norte.

Como foi a sensação de chegar ao top 100 do Electrolux Design Lab?

Quando me inscrevi, vi que existe certo preconceito no design futurista porque acham que estamos projetando "viagens", mas sempre fui muito apaixonado porque sempre apostei no diferencial. Foi muito legal porque as pessoas vieram me procurar para perguntar como se faz, foi legal ver como é ter reconhecimento. Isso abriu minha cabeça. Eu já gostava de fazer, mas não imaginava que seria um diferencial de mercado. Fui um dos poucos brasileiros que enviaram projetos, conversei com uma das brasileiras que também participou, e ela disse que gostou e até me perguntou como o projeto funcionava.

Por que você acha que ele deu tão certo e fez tanto sucesso?

Acredito que foi justamente pela facilidade de uso com o público-alvo que eu escolhi, que são as crianças. O projeto é uma solução conceitual de purificação do ar para o público infantil. O diferencial de ser uma bola é purificar o ar sem usar um acessório de purificação de ar. Fui totalmente ao contrário, desenvolvendo um brinquedo que é muito utilizado. Enquanto alguém estiver brincando com a família ou os amigos, ela está purificando ar sem você perceber, sem a rotina de manutenção. Você estaria se divertindo e ao mesmo tempo trabalhando nisso.

De onde veio a ideia de abrir um escritório próprio?

Eu já tinha outra empresa de publicidade, mas, até por uma questão de afinidade, acabou não dando muito certo. Sempre fui apaixonado por design, tanto que fiz a faculdade, e o foco foi se construindo lá dentro. Percebi a necessidade de mercado. No começo, me parecia algo muito complexo, mas ao longo da faculdade essa ideia foi se construindo e, quando eu me formei no final do ano passado tomei a decisão: vou abrir um escritório de design futurista. E, se durante toda a trajetória da faculdade eu passei pensando nisso, tentando estruturar o escritório de alguma forma, acho que a hora é agora.

A descrição do escritório fala na "simplicidade do inesperado". O que é esse conceito?

Ele é feito para traduzir o que eu penso sobre design. Acredito que, para ser um projeto bom, ele precisa ser simples e inesperado. Costumo contar aquela história de quando você abre uma caixa e recebe um presente muito bacana pelo qual você não estava esperando. É colocar dentro desse projeto alguma coisa para que esse usuário se sinta presenteado, nesse sentido. Então, é algo como "comprei um projeto bacana que me atende e tinha um detalhe que eu não estava esperando". É algo simples, mas que para o seu público faz toda a diferença.

Qual é a importância dos profissionais focados na criação de conceitos futuristas?

Olha, acredito que são extremamente importantes. Se a gente parar para pensar, temos cientistas desenvolvendo soluções, temos futuristas, e muito mais. O designer se preocupa especificamente com as pessoas, em desenvolver soluções para elas. Se o futurista se preocupa em como vai ser o amanhã, o designer se preocupa em como levar o amanhã melhor e sem um grande impacto [no sentido de prejuízos] para a sociedade. Como levar da forma correta, como se encaixar da melhor maneira possível... Tem que estar conectado com as pessoas e com os cientistas; é como fazer uma ponte.

Você acredita na aplicação e em tirar esses projetos do papel?

Existem níveis de projetos futuristas. É necessário desenhar um cenário pra 2030, digamos assim, que é o caso da DNS10. Nesses casos, ele serve como norte para o desenvolvimento de projetos. Acredito que, dentro desse cenário predeterminado, as coisas vão acontecer dessa forma. Não significa que vai ser exatamente assim. Teremos inteligência artificial, nanotecnologias, jetpacks e várias soluções que vão estar aplicadas lá, e seria interessante que elas fossem aplicadas dessa forma. Não significa que em 2030 o DNS10 esteja voando por aí: acredito que vai acontecer, mas não que seja algo exatamente assim. Ele é um direcionador para saber como a sociedade gostaria de receber o produto. Imaginando o cenário, querem que o projeto seja feito dessa forma. O papel das soluções futuristas é ser esse norte.

Há quem não valorize o papel desse tipo de projeto.

Foi importante colocar isso porque existe esse preconceito não só na sociedade, mas em algumas empresas: por que eu vou pagar por um projeto de um cara que vai desenvolver soluções? Só que isso é muito utilizado em grandes corporações. A Electrolux desenvolve um concurso anual porque ela sabe da importância. Só nesse concurso, ela recebe 18 mil inscrições, que são 18 mil ideias de como as pessoas imaginam o futuro. Isso é muito importante, e acredito que as empresas deveriam ter como premissa pelo menos desenvolver uma ou duas soluções dentro do seu mercado ou para um que ela pretenda expandir, porque ela começa a tendência de sentir se as pessoas vão querer as coisas daquela forma. Por exemplo, desenvolvi o DNS10 e o estou apresentando para vários setores da sociedade. Então, quer dizer que as pessoas aceitariam o futuro daquela forma. É uma forma de prever o futuro e saber se ele vai funcionar ou não. Não é 100% garantindo, mas é uma forma de ter esse conhecimento.

Quais são os obstáculos na hora da criação de um conceito?

As maiores dificuldades incluem o momento de fazer o funil. Nós temos uma infinidade de soluções, é só entrar na internet que todos os blogs de tecnologia da inovação apresentam milhares de soluções. Mas, quando falamos de um projeto, existe começo meio e fim. No início, você fala "Meu Deus, não vou conseguir condensar todas as soluções em um resultado final". Essa é a dificuldade: gerenciar as soluções para chegar na etapa final e encontrar uma solução bem amarrada. Existem milhares de ideias que eu gostaria de colocar, mas é um projeto planejado em um determinado período, com uma condensação de ideias.

Você tem outros projetos em mente para o futuro próximo?

Além de atender aos clientes, temos uma meta de fazer um projeto futurista por ano para levar para a sociedade. Nós estamos iniciando agora o movimento para desenvolver uma solução para lavouras. Não está bem definido qual vai ser o produto, mas em nossa visão é um campo que também precisa ter contato com esse universo. Tem grande potencial de futuro, muitas pessoas desenvolvendo soluções para diminuir a quantidade de agrotóxicos; há também o uso de drones e inteligência artificial, então já percebemos que talvez seja interessante. E tem outro projeto, esse em parceria com outra empresa, que é na área de medicina, mas ainda não posso dar muitos detalhes. Demanda um pouco mais de tempo e um estudo mais detalhado, porque estamos antecipando uma coisa de muito tempo e trazendo para agora.

Quais são as dicas para quem está iniciando na área?

Olha, é uma coisa que o pessoal sempre me pergunta. Primeiro de tudo, tem que ter certeza absoluta de que você gosta, de que você ama o que está fazendo. Porque assim, é um mercado difícil, existe muito preconceito, então o primeiro passo é realmente ser apaixonado por futurismo e acreditar que vai trazer melhorias. E ser curioso. Tem que ser muito curioso, não consigo ouvir "Não, tal coisa não pode ser feita". Você não pode aceitar, tem que ir lá procurar, entender, saber como funciona. E de todos os campos, porque o futurismo está em todo lugar; não adianta decidir ser design futurista e querer só uma coisa. Desenvolvi transporte aeromédico, agora medicina e lavoura. Não precisa ser especialista em cada coisa, é entender. E, claro, especializações, uma faculdade, algum curso que traga um conhecimento muito grande. Porque, além de ser apaixonado e curioso, tem que saber como fazer os projetos.

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