Já faz algumas temporadas que a EA Sports tem apostado alto no modo FIFA Ultimate Team, também conhecido como FUT, da sua franquia de futebol. A modalidade se mostrou bastante rentável para a companhia, já que muitos efetuam microtransações na tentativa de adquirir jogadores melhores para formar suas equipes.

Contudo, o Ultimate Team é alvo de uma polêmica que vem se desenrolando por alguns anos, especialmente do FIFA 12 em diante. Muitos adeptos da série futebolística do estúdio se queixam do chamado “handicap”, ou “momentum”.

O recurso seria uma forma de equilibrar uma partida entre dois times com níveis muito diferentes. As reclamações dos jogadores são que isso tem se tornado muito frequente e escancarado, gerando lances bizarros e revoltantes.

Mas será que esse tipo de manipulação realmente acontece no FIFA? Existe alguma prova disso? Qual é o posicionamento da EA sobre o assunto? Fomos atrás das respostas dessas perguntas e o resultado você confere a seguir.

Ajudinha marota?

Antes de nos aprofundarmos no handicap, é bom comentarmos brevemente o que é o FIFA Ultimate Team. Nesse modo de jogo, você tem um baralho de cartas que representam atletas virtuais — que por sua vez representam jogadores reais. Sua empreitada começa com um deck que oferece atletas um tanto quanto limitados.

Contudo, o desempenho deles em campo pode melhorar dependendo da nacionalidade, dos times de origem desses jogadores e da forma como eles são distribuídos em campo. Por exemplo, inverter o posicionamento da dupla de zaga pode fazer com que toda a sua defesa ganhe maior entrosamento.

É isso que o FIFA chama de “química”, e ela é fundamental para que sua equipe alcance vitórias dentro das quatro linhas. Na teoria, somente esse recurso permitiria que um time formado por cartas douradas encare dificuldades e seja derrotado por outro apenas com cartas de prata e bronze.

As teorias, a princípio, conspiratórias sugerem que só o sistema de entrosamento não foi suficiente para a EA. A desenvolvedora teria então adicionado um código de programação nos games que afetaria as performances das equipes, tanto para o bem quanto para o mal, a partir de uma série de variáveis.

A ideia desse script seria balancear as partidas, obviamente, dando vantagens para o time mais fraco. Para isso, o jogo interferiria em pequenas e diversas situações ao longo das partidas, resultando em comportamentos estranhos dos atletas, dos árbitros e até mesmo da bola. Há quem diga que o handicap também exista no modo Temporadas do FIFA, mas de maneira bem mais sutil.

As “provas”

De acordo com os gamers que defendem a existência do momentum, quando o jogo “quiser” que algo aconteça, não importa o que você faça, aquilo vai ocorrer.

Erros de domínio consecutivos de atletas consagrados e de alto nível, como Messi e Cristiano Ronaldo. Furadas inexplicáveis dos zagueiros que deixam o atacante adversário na cara do gol. E aquelas jogadas nas quais você chuta a bola, ela bate na trave, em cima da linha, na trave de novo, nas costas do goleiro e não entra. Esses seriam exemplos do handicap em ação.

Como você deve imaginar, vídeos que alegam provar a existência desse mecanismo não faltam na internet. Nós buscamos alguns para exemplificar a argumentação desses jogadores. Neste primeiro, confira abaixo, o youtuber explica que seu time contava com atletas mais qualificados e com uma química mais elevada do que a equipe oponente, o que não se refletiu em campo.

Ele começa tomando um gol de rebote no meio da área. Na sequência, os jogadores comandados por ele erram vários passes de curta distância e perdem as divididas com facilidade. Mesmo assim, o gamer consegue marcar o empate. É aí que as coisas pioram. Quase imediatamente o adversário (em teoria mais fraco) cria uma nova chance e arremata.

Partindo para o ataque, o youtuber desperdiça várias oportunidades de marcar, com o goleiro adversário realizando grandes e épicas defesas. Basta uma nova investida do oponente para ele tomar o terceiro gol, embora tenha conseguido diminuir a diferença logo em seguida. Três ou quatro bolas na trave depois, ele consegue o empate. Mas a alegria dura pouco e o oponente balança a rede novamente. O juiz apita o final da partida e ele deixa o gramado derrotado.

Os dois próximos vídeos foram veiculados por um mesmo canal do YouTube. O jogador relata nas descrições que conseguiu ascender à primeira divisão do FUT, e até a ganhar títulos nela, com equipes sem grandes estrelas. Porém, após conseguir montar um time realmente forte, tem perdido todas as partidas. Ele então resolveu regredir a qualidade da equipe para fazer o handicap funcionar a seu favor. A resposta veio com placar favorável, como é possível ver na segunda gravação.

Como já mencionamos, é fácil encontrar inúmeras publicações falando sobre o momentum do FIFA em diversas edições da franquia. Na sequência, você pode assistir a mais uma série de jogadas que provam a presença desse recurso.

A revolta dos jogadores é tamanha que, há alguns anos, um grupo de ingleses se juntou para fazer uma petição solicitando para a EA acabar com esse script no FIFA 14. Após coletar mais de 4,6 mil assinaturas, o documento foi direcionado para Davir Rutter, um dos produtores responsáveis pelo jogo. Clique aqui e confira a página dessa campanha.

Dicas para amenizar o suposto script

Assim como não faltam “provas” de que o handicap existe, também são diversas as técnicas com as quais seria possível ludibriá-lo, ou pelo menos amenizá-lo. Alguns jogadores acabam colocando cartas de bronze no banco com o objetivo de reduzir a classificação geral da equipe e assim serem beneficiados pelo script ou evitar que o adversário seja beneficiado por ele. Nesse caso, o time titular seria formado por atletas dourados.

Em contrapartida, existem gamers que asseguram que o melhor a se fazer é mesclar a equipe que entra em campo, ou seja, combinar cartas douradas com prateadas — mas o princípio é o mesmo da primeira hipótese relatada acima. Ainda nessa linha de raciocínio, também há pessoas que optam por sempre escalar atletas que não fujam da média de pontuações individuais.

Por fim, tem jogadores que afirmam: o esquema é mostrar habilidade e paciência. A proposta desses gamers é manter a calma, prezar pela posse da pelota e avançar no toque de bola. Assim, quando você se sentir prejudicado, o ideal seria evitar lançamentos longos e enfiadas em profundidade. Em outras palavras, fazer o arroz com feijão.

Dessa maneira, é possível quebrar o ritmo de jogo e dominar a partida, fazendo com que o adversário se sinta perdido nos seus “vícios” de marcação — já que as partidas online geralmente são muito dinâmicas e nós criamos padrões para intervir em jogadas tradicionais. A ação também tornaria o handicap menos efetivo, se é que ele realmente existe.

As possíveis explicações

Aí entramos em mais um assunto polêmico: quais seriam as vantagens da EA em adotar o handicap? Uma das explicações é de que assim os jogadores iniciantes não se sentiriam desmotivados. Se com cartas bronze, e uma ou outra prata, o gamer novato consegue bater de frente com equipes com atletas dourados, é natural que ele tenha o desejo de comprar novos pacotes para melhorar sua equipe.

Já com uma equipe mediana, esse mesmo jogador teria altos e baixos durante as partidas, em algumas delas já com o momentum suspostamente atuando contra ele. Com isso, o pensamento lógico seria ele adquirir decks mais caros para incrementar ainda mais o desempenho do time.

Por fim, entre as equipes cheias de estrelas do mundo da bola, as derrotas frequentes fariam com que os gamers buscassem sempre novas alternativas para a formação do plantel principal e alternativas para o banco de reservas. Novamente, a saída seria a compra de novas cartas.

É só impressão

Até aqui abordamos apenas o lado dos fãs e jogadores da franquia. Na perspectiva da produtora, as reclamações de que existem situações bizarras não são ignoradas. Contudo, a empresa assegura que o FIFA não possui handicap ou qualquer outro tipo de componente que propositalmente dê vantagem a um ou outro time.

Rutter, em entrevista para o site VideoGamer sobre o FIFA 13, disse que “se o seu time está indo mal, os atletas não vão começar a jogar pior. Ou, se a equipe está fazendo uma boa partida, eles não vão melhorar de desempenho. Esse conceito não existe no jogo”. O produtor complementou sua resposta explicitando que o simples fato de muitos fãs imaginarem que estão sendo prejudicados no jogo já é algo que faria a empresa jamais cogitar uma iniciativa dessa. Adicionar uma função desse tipo seria uma ideia idiota, comentou o funcionário da EA.

Recentemente, como relatado pelo Futhead News e pelo canal CrocodilloGames no YouTube, Aaron McHardy, atual produtor de jogabilidade do FIFA 16, explicou durante a E3 2015 que o jogo de futebol do estúdio possui muitas variáveis envolvidas na sua programação, e isso é muito difícil de controlar.

A tela é cheia de elementos e de possibilidades. São 22 jogadores, mais os árbitros e mais a bola, que é objeto extremamente dinâmico se pensarmos em processamento virtual. Em outras palavras, na visão de programação, tudo pode acontecer durante as partidas.

McHardy corroborou que o momentum não é factível. Ele contou que assistiu a horas de vídeos na internet insinuando esse tipo de manipulação de ações no game e que não identificou nenhuma situação que comprove isso. Segundo o produtor do mais recente título da série, o que pode acontecer são erros de programação que acabam culminando em más decisões dos juízes, em um jogador de defesa dominando mal a bola, e por aí vai.

Ele também revelou que esse estudo acabou gerando muitas das melhorias presentes no FIFA 16 e que a empresa está empenhada que essas falhas aconteçam na menor quantidade possível no próximo título da franquia, acabando com a impressão de que o mundo está se voltando contra jogadores.

Conclusão

Bem, amigos e leitores do BJ, como vocês devem ter percebido, o assunto é bem complexo. Quem é jogador assíduo do FIFA, com certeza, já presenciou cenas realmente inexplicáveis, que dificilmente seriam vistas no mundo real. É indiscutível que elas existem, e a infinidade de vídeos na web retrata bem isso.

Exatamente por isso é que as teorias conspiratórias surgidas ao longo das últimas temporadas do game são entendíveis. No calor da partida, naquela última chance de subir de divisão, perder um gol na cara do goleiro ou levar um tento porque seu zagueiro simplesmente resolveu trocar de posição é de deixar qualquer um espumando pela boca.

Em contrapartida, as explicações da EA Sports são plausíveis. Criar um ambiente virtual com tantos elementos dinâmicos e que podem ocasionar infinitas possibilidades não é um processo simples, e falhas podem ocorrer, e elas vão sendo corrigidas com o tempo e as atualizações.

Levando tudo isso em conta, não podemos cravar que o FIFA possui handicap e que a EA age de má fé para induzir os gamers a efetuarem microtransações. Inclusive, essa seria uma prática um tanto quanto arriscada para o nome da franquia, que vem dominando o mercado do gênero há alguns anos. Contudo, é inevitável não perceber a estranheza de algumas jogadas ocorridas no game. Infelizmente, essa é uma dúvida que vai continuar no ar e promovendo muitas discussões.

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