Não é de hoje que você se surpreende com alguma coisa feita por asiáticos. Além de ser conhecido por tecnologias avançadas e talvez algumas bizarrices, o outro lado do mundo é um centro criativo incrivelmente respeitado em muitos campos do conhecimento humano. Os games são um deles — afinal, lá nasceram Nintendo, Hideo Kojima, Nobuo Uemastsu, Shigeru Miyamoto e tantos outros nomes que são reverenciados pelos jogadores de todo o mundo.

Mas não basta criar jogos. A Ásia também é conhecida por dominar o cenário competitivo de muitos games a ponto de seus jogadores representarem temor e respeito em muitos campeonatos de eSports. Você se lembra da virada épica de Daigo Umehara sobre o norte-americano Justin Wong? Pois talvez fique chocado ao saber que ele é apenas um dos cinco deuses japoneses do Street Fighter. Exatamente como um daqueles cinco chefes poderosos que você precisa vencer até zerar definitivamente um jogo.

As lendas asiáticas se espalham por muitos títulos. A Coreia do Sul domina há anos o League of Legends profissional. Conhecido como o “templo do eSport”, o país inclusive é uma referência pelo seu desenvolvimento de StarCraft, que ganhou ligas, jogadores e até um órgão do governo para os games profissionais desde os anos 2000. E, de quebra, eles agora estão destruindo todos os concorrentes em Overwatch e nos torneios de Heroes of the Storm. E Tekken, só para fechar a lista com uma boa dose de pancadaria.

Lee "Life" Seung Hyun vencendo a WCS 2014 de StarCraft II

Na China, você encontrará alguns dos jogadores mais fortes do Warcraft 3 profissional. Além disso, o país é o “final boss” para muitos jogadores de DotA 2 — mesmo com a perda recente de desempenho em alguns eventos. CrossFire também é um dos games em que os brasileiros lutam e lutam, mas os chineses continuam com a supremacia.

Há muitos fatores que contribuem para que os asiáticos dominem um jogo muito melhor do que os demais. É claro que, para a nossa sorte, os brasileiros (e os ocidentais como um todo) se destacam no Counter-Strike e em alguns outros títulos — mas é só olhar o quadro de medalhas de alguma World Cyber Games para ver que a situação é desproporcional até na história dos eSports. Mas... Por que tanto assim?

Depois de anos observando vários jogos, jogadores e competições, foi possível notar dois dos mais importantes quesitos que contribuem para o rápido crescimento dos competidores orientais. É bom explicar cada um deles separadamente.

O sul-coreano Lee "Infiltation" Seon-woo é atualmente um dos melhores e mais temidos competidores de Street Fighter do planeta

Uma mente focada

O imaginário popular gosta de colocar uma aura de competitividade ao redor dos asiáticos. Não há como negar que, na sua vida, talvez você já tenha disputado uma vaga em algum concurso ou jogado uma partida de qualquer coisa contra um amigo de origens orientais. E é possível que tenha perdido — talvez até mais de uma vez.

Competição, de fato, está presente na equação. Mas a competição, em si, circula em todos nós; o que realmente define os melhores está no quanto você está disposto a competir. E é aí que muitos asiáticos se destacam: eles se comprometem com uma paixão difícil de muitos compreenderem.

Você já viu essa situação em animes ou mangás. O personagem principal vive por alguma coisa. Respira aquilo. Faz do seu sonho o seu maior objetivo. Vive por isso. Não é à toa que o treinador da SK Telecom T1, campeã mundial de League of Legends, diz esperar que o circuito sul-coreano seja mais competitivo que o próprio campeonato mundial do game.

Lee “Faker” Sang-hyeok, tricampeão mundial de League of Legends pela SK Telecom T1

Não é à toa também que alguns jogadores profissionais passam 16 horas por dia treinando em uma "gaming house" na Coreia do Sul. É um ritmo insano que, quando colocado frente a frente com os ocidentais, surpreende os dois lados. Vários dos orientais que entram em times do lado de cá, inclusive, criticam o fato de os demais membros da equipe não se dedicarem da mesma forma que eles. Um completo choque cultural.

Além da mente pronta para praticar, eles fazem isso da forma mais analítica possível. Há uma crítica constante sobre o que está dando errado e quais são as ferramentas certas para evitar ou revidar uma situação ruim. E, no fim, a quantidade absurda de treinos ajuda a desenvolver as respostas mais efetivas para cada momento.

Talvez uma experiência própria ajude a ilustrar melhor essa situação dentro da pele de um competidor. Em uma das viagens a convite da Blizzard, eu tive a oportunidade de participar de um evento de revelação de novos heróis em Heroes of the Storm e testá-los logo em seguida em confrontos entre duas equipes. E lá estávamos nós: a imprensa da América Latina de um lado e, do outro, a da Coreia do Sul lotada por comentaristas, técnicos e jornalistas da liga profissional do país.

Adivinha quem venceu o Mundial de Heroes of the Storm nesse ano? Isso mesmo: os coreanos

De um massacre sangrento e impiedoso, foi possível observar como os sul-coreanos dominam o game a ponto de saberem as respostas para todos os aspectos do jogo. Desde a posição perfeita para evitar suas magias até a movimentação em equipe mais dinâmica para responder ao espaço que você conquistou no mapa. E tudo isso com dois personagens que eles conheceram menos de 15 minutos antes.

Compromisso e incentivos estão lado a lado

Além da dedicação massiva e a competitividade gerada por isso, os países da Ásia contam com incentivos diversos que potencializam as condições de treinamento. E isso varia de acordo com o local.

Na Coreia do Sul, os investimentos para eSport existem desde o início de 2000. Depois da crise que explodiu o desemprego no país, os jovens mergulharam a fundo nas “lan houses”, locais para jogarem StarCraft no tempo livre. Isso incentivou rapidamente as ligas profissionais locais, logo chegando a canais de televisão, patrocinadores, times com casa de treinos e até um órgão do governo para certificar e tornar isso uma profissão.

Na Coreia, tudo começou com StarCraft

Na China, a situação foi parecida com a da Coreia do Sul — mas tirando a parte “luxuosa” e organizada das ligas e dos órgãos do governo. Hoje, o país recebe investimentos insanos das empresas milionárias para os times profissionais, inclusive importando os talentos sul-coreanos para o país. O que se destaca lá, no entanto, são os jogos menos pesados para PCs: CrossFire, League of Legends e Warcraft 3 — este com 14 anos de idade — ainda são os  títulos mais populares do país.

O Japão não se destaca diretamente com ligas profissionais ou organizações de eSport. A liga oficial da Riot Games, por exemplo, chegou há pouco mais de um ano por lá. Mas a cultura das casas de fliperamas, ou “game centers”, é o que incentiva todos a jogarem e competirem nos mais diversos títulos de arcades (a maioria deles de games de luta). Não é à toa que os melhores competidores de Guilty Gear, Street Fighter e Tekken estão no país.

Embora com campeonatos grandes desde o início dos anos 2000, o lado ocidental do globo demorou mais para se organizar e receber os investimentos do mesmo porte dos países em questão. Hoje, por exemplo, o Brasil conta com times profissionais de League of Legends que têm casas de treinamentos, salários e treinadores — mas ainda é uma situação emergente perto da estabilidade e dos incentivos da China e da Coreia do Sul.

Diferente do Ocidente, as "casas de fliperamas" no Japão são pontos de visita quase diários de muitos jogadores

Muitos podem contestar, com razão, que também temos exemplos de sucesso de dedicação, talento e mentes afiadas no eSport ocidental. E é verdade. Basta acompanhar o crescimento exponencial dos times brasileiros no cenário profissional de Counter-Strike: Global Offensive. Hoje, temos quatro equipes competindo nas ligas norte-americanas — inclusive com a SK Gaming, de Gabriel “FalleN” Toledo, liderando o ranking mundial do game.

Por sorte, o Counter-Strike não cai tão bem ao gosto oriental como Overwatch. Ainda bem. Com toda a estrutura competitiva e a adaptação rápida, tenho quase certeza de que os asiáticos seriam rivais muito desafiadores para nossos representantes lá fora. É melhor deixar o Ocidente se soltar e mostrar que somos também os melhores do mundo em alguns eSports, não é mesmo?

O Match Point é um espaço no TecMundo e no TecMundo Games dedicado para discutir o eSport e os games competitivos toda sexta-feira, trazendo também estratégias, curiosidades, campeonatos e jogadas inesquecíveis dos mais diversos títulos. O colunista Maximilian Rox acompanha o cenário há mais de oito anos como jogador, redator, manager e entusiasta por toda essa trajetória.

O Brasil está caminhando rumo a posições cada vez melhores nos games profissionais — e somos muito bem representados por alguns jogadores

Replay da semana

O replay da semana também está dedicado para o tema da coluna: asiáticos. Juntamente com os membros da equipe Fire Dragons, nós analisamos as partidas da final da Copa do Mundo de Overwatch entre a Coreia do Sul e a Rússia. Dessa forma, foi possível ver como os sul-coreanos se desenvolveram bem mesmo em um gênero que eles não costumam se destacar.

Uma das coisas notáveis é como os jogadores profissionais conhecem e dominam as limitações e possibilidades dos seus heróis e do próprio mapa. No replay abaixo, a partir dos 3:40, eles conseguem matar o herói adversário e, logo em seguida, seguem para contestar o ponto com pouquíssimo tempo sobrando a seu favor.

A utilização das magias de forma sincronizada e com eficiência demonstram um pouco do quanto eles enxergam uma brecha no jogo adversário com mais facilidade que os demais. O resto, bom, mostra também como esse conhecimento é capaz de criar um efeito de bola de neve em qualquer oponente.

Muito obrigado aos jogadores Luiz "Kezeru" Gustavo, Jeff "DeathGrip" Boiczuk, Leonardo "Loner" Sallin, Nikolas "Nhrok" Perez, Arthur "Art0wnz" Barone, Brian "Rapoza" Okayama e Raphael "Lust" Marcondes pela ajuda na análise das partidas.

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