Meu nome é João Celulari. Paulistano de carteirinha e RG, eu nasci, cresci e moro em São Paulo. Tenho 31 anos, sou divorciado e pai da menina mais meiga e linda desse mundo! Eu sou formado em jornalismo (atualmente mestrando) e exerço a profissão há mais de sete anos.

Adoro meu trabalho como colunista de tecnologia em um jornal local. Como você deve ter percebido, sou um entusiasta e aficionado por qualquer tipo de aparelho que se conecte à internet, faça ligações, edite documentos, fotografe ou simplesmente tenha componentes eletrônicos.

Eu me considero um homem pacato. A minha paciência chega a incomodar alguns amigos. Entretanto, fatos comuns do cotidiano, que mal são percebidos pela maioria das pessoas, podem me deixar a ponto de explodir, em um verdadeiro dia de fúria! Uma das situações que mais me irrita são os toques de celular ridículos que insistem em tocar em momentos inoportunos.

Estou escrevendo este texto para relatar uma série de acontecimentos muito estranha (e inexplicável!) que aconteceu comigo na última semana. Para o meu pavor, as malditas musiquinhas de ligações resolveram se vingar. Não foram alucinações, eu tenho certeza. Eu acho.

Trim... Só um minuto, caros leitores, meu celular está tocando.

No balanço do "busão"

O meu tormento começou na segunda-feira. Acordei cedo, como de praxe, tomei um café da manhã reforçado e saí para trabalhar. O sono ainda se fazia presente no meu organismo enquanto esperava o ônibus. Até esse momento, nada de estranho acontecera. Mais ou menos na metade do percurso, aquela canção esdrúxula começou a tocar para que todos ouvissem.

Dois minutos depois de tê-la iniciado, eu já estava a ponto de jogar o dono do celular pela janela do veículo. Nesse instante, uma senhora vira-se para mim e diz: “Moço, acho que é o seu”. Quase a chamei de louca, mas contive o impulso. Bem capaz que aquela música faria parte do meu repertório de ringtones.

Para o meu espanto, ao colocar a mão no bolso da jaqueta, lá estava o smartphone vibrando e tocando no último volume. Praticamente, fui fuzilado por olhares de todas as naturezas possíveis. Resolvi descer do ônibus e seguir o pequeno trecho restante a pé, antes que fosse linchado.

Trabalhando com ringtones

O ocorrido foi um tanto quanto vexatório. Mas eu não tinha ideia do que ainda teria que passar nos próximos dias. Apesar do evento inconveniente, o dia de trabalho começara bem. Minha criatividade fluía naturalmente e a produção estava em ritmo acelerado.

O escritório do jornal contava com aproximadamente 80 funcionários, entre redatores, revisores, editores, designers e estagiários. Isso significa que volta e meia um ringtone insuportável quebrava completamente a minha concentração.

Quando não surgia um toque neurótico embalado no “pancadão” do funk, vinha uma gravação de pato ou outro animal. Incômodos à parte, estava expondo minha opinião sobre um assunto polêmico durante a reunião de pauta, quando uma sirene de polícia ensurdecedora disparou. Beto, o “engraçadinho” (para não dizer palhaço) entre os colegas, nem se mexera em sua cadeira.

A situação matutina já nem rondava minha mente. Foi então que o diretor do jornal me encara com sangue nos olhos: “Escuta, João, você não vai atender esse celular?”. Nem preciso dizer que ao término da reunião fui levado até a sala do chefão e levei uma bela de uma bronca.

A ligação da professora

Para me localizar a noite é fácil: estou sempre na Universidade de São Paulo (USP). Naquela fatídica terça-feira, a revolta dos ringtones se manifestou durante uma aula do mestrado. A professora da disciplina que abordava as mais diversas vertentes do jornalismo nas mídias sociais convidara um renomado palestrante da área.

O senhor de terno já havia aberto sua apresentação em PowerPoint e sua voz rouca e séria já se proliferava pelo auditório. Os acontecimentos do dia anterior me traumatizaram. Antes de entrar no local da palestra, coloquei o meu gadget no silencioso – ao menos naquele momento eu tinha a certeza disso.

O homem carrancudo em cima do palco explicitava suas teorias. Repentinamente, um bebê começa a dar gargalhadas incessantes. As risadas da criança eram tão naturais e cativantes que poucos não entraram na onda e puseram-se a “rachar o bico”. O palestrante ficou irado e parou sua apresentação.

Adivinhem de onde saía o som hilariante? Aquilo era impossível! Jamais havia salvado qualquer arquivo de áudio com risadas. O smartphone estava no silencioso. Não encontrei uma resposta coerente. Os súbitos ataques dos toques de celular estavam me enlouquecendo. Como se não bastasse a vergonha, fui retirado do recinto e perdi uma grande oportunidade de adquirir conhecimentos.

Jaz em paz

Chegada a quarta-feira, eu não tinha dúvidas que aquela seria a pior semana da minha vida. Dito e feito. Ainda era madrugada, quando minha mãe bateu à porta do apartamento para avisar que sua irmã já adoecida teve seu quadro de saúde agravado. Em poucos minutos estava pronto para levá-la ao hospital.

Infelizmente, minha tia não resistiu. No dia seguinte, toda a família estava reunida na capela para uma última despedida. Os “fantasmas” dos ringtones ainda me perseguiam. Para assegurar que nada saísse errado dessa vez, fui drástico e desliguei o celular.

De nada adiantou. O Latino resolveu aparecer no velório e cantar:

Hoje é festa lá no meu apê. Pode aparecer, vai rolar bundalelê! Hoje é festa lá no meu apê, tem birita até amanhecer...”.

Não, ele não era amigo ou conhecido da minha estimada tia. O teimoso do meu telefone portátil é que aprontou novamente. Meu tio quis me bater e meu pai disse que iria me deserdar. Além de acabar com a minha sanidade mental, as peripécias dos toques estavam arruinando minha vida social.

Celular, um grito de socorro

O tão esperado final de semana chegou e a minha esperança era que tivesse sossego. Acordei 11 horas da manhã e preparei um almoço caprichado. Sábado é dia da limpeza: fiz uma faxina geral no apartamento e parti para o cinema mais perto. A única coisa que poderia me alegrar seria um bom filme.

Ao chegar à bilheteria do cinema a atendente me recebe com a péssima notícia:

– Desculpe, senhor, mas só temos um título em cartaz com assentos vagos.

No estado de nervos em que eu estava, não titubeei:

– Não tem problema. Por gentileza, um ingresso.

Ao segurar o bilhete na mão, quase tive um infarto. O filme em cartaz na sessão retrô era “Celular – Um grito de socorro”. O título da película não poderia ser mais adequado, pois estava a ponto de berrar por ajuda em pleno shopping. Pensei comigo: “Pior do que está não pode ficar”.

Acomodei-me confortavelmente na cadeira e aguardei o início da aventura estrelada por Kim Basinger e Chris Evans. Nem aguardei as indicações para desligar o smartphone. Mas naquela altura do campeonato eu não sabia mais o que fazer para evitar os vexames causados pelos ringtones.

O filme rodava cenas calmas, mas importantes para o contexto da história. Todos estavam ligadíssimos na telona. O estouro seguido de um solo de guitarra ao melhor estilo das bandas de heavy metal fizeram, no mínimo, as duas fileiras da frente saltarem uns 20 centímetros da poltrona.

Quebrando o clima

Ao sair da sessão, depois de ser xingado algumas vezes, decidi dar uma olhada nas vitrines. Entre um corredor e outro, encontro uma velha conhecida da faculdade. Bem vestida e muito carismática, convidei-a para jantar em um dos restaurantes do shopping. A alegria voltou a sorrir para mim ao escutá-la responder que aceitava o meu convite.

A conversa ia de bem a melhor. Após tantas desgraças na semana, aparentemente, meu sábado à noite acabaria melhor do que o esperado. Duas taças de vinho e nós estávamos mais à vontade do que nunca. Esbocei um movimento mais próximo e... O cenário mudou completamente.

Um toque com a voz da minha ex-mulher tendo um ataque de ciúme congelou a relação que havíamos estabelecido. A minha amiga puxou a cadeira para trás no exato momento que consegui desligar o ringtone. Resultado: cinco minutos depois, ela arranjou uma desculpa esfarrapa e foi para casa.

Chamada para você

A revolta dos toques de celular estava insuportável. Fiquei paranoico. Taquei o gadget na parede. Joguei-o no vaso sanitário. Nada o fazia parar de funcionar. Estava exausto, mal conseguia manter meus olhos abertos. A sensação era de que minhas pálpebras pesavam mais que o meu corpo. Lentamente, fui adormecendo.

Algumas horas de sono depois, bruscamente, eu dou um pulo do sofá! A TV da sala estava ligada. O canal apresentava uma propaganda de um serviço de toques de celular personalizados. O ringtone da vez era “João, te ligam!”. Enviei a mensagem e apliquei o toque no meu smartphone.