Colocando os gadgets para fora de casa!

O que você faria se não tivesse acesso a qualquer tipo de tecnologia durante seis meses? Quebraria toda a casa? Pularia pela janela do seu apartamento no 13° andar? Entraria em pane e procuraria um psicólogo? O Baixaki visitou a residência da família Dauloude em Espera Feliz, cidade do estado de Minas Gerais, e comprovou que ficar sem acesso à internet, jogos e programas de TV não é o fim do mundo.

Sugestão da equipe de reportagem: confira a entrevista antes de desligar o computador.

Quando a conexão toma conta da casa

Matanete, a matriarca da família, teve a ideia de desconectar seus filhos e marido depois de uma breve discussão (que mais parecia um monólogo) com seu filho, que jogava God of War III há mais de cinco horas sem piscar no PlayStation 3. Após alguns minutos de desabafo sem surtir efeitos práticos em seu primogênito, a escritora de 47 anos percebeu que a tecnologia tomara “conta” da sua casa.

Refletindo sobre o ocorrido, Matanete Dauloude resolveu que eliminaria os gadgets da sua casa. Ela estipulou que após as festividades de fim de ano todos os televisores, smartphones, computadores, consoles, tablets e tudo mais que tivesse acesso à internet seria expulso compulsoriamente da residência. E assim foi feito!

Trocando a esposa pelo notebook.

Obviamente, hoje é impossível viver sem mecanismo de comunicação. Para não afetar o desempenho educacional e profissional dos membros da família, ficou acordado que seria liberada a utilização de PCs na escola, faculdade e trabalho. A Sra. Dauloude passou na loja de celulares usados da esquina e comprou os modelos mais simples, apenas para que existisse uma forma de comunicação em situações emergenciais.

Primeiras impressões da casa offline

O experimento criado pela escritora mineira expirou, os seis meses já se passaram. Assim que chegamos à casa dos Dauloude, pudemos comprovar que a TV LED de 52 polegadas, alta definição e conectividade com a internet já voltara à estante e o laptop de última geração já habitava a escrivaninha novamente.

Entretanto, e para nossa surpresa, ambos os gadgets estavam desligados. Ao comentar nossa primeira impressão, Matanete afirmou que antes do semestre de abstinência tecnológica este ambiente seria completamente diferente. A família conseguira mudar seus hábitos online? Para tirar a prova real, sentamos à mesa e começamos o chat, digo, o bate-papo.

O relato do primogênito

O primeiro a relatar sua experiência foi o filho mais velho, Jogantino Dauloude. O garoto, que na época da dieta tecnológica tinha 18 anos, acabara de entrar na faculdade e era um dos jogadores de Super Street Fighter IV e Pro Evolution Soccer 11 melhor ranqueados do mundo. Além do PS3, o jovem tinha o Nintendo DS (console portátil da marca japonesa) e um smartphone com capacidade para rodar jogos tridimensionais.

O gamer da família.

Baixaki: Qual foi o seu primeiro ato depois da sua mãe anunciar que você ficaria longe dos video games?

Jogantino: No começo achei que era brincadeira. Virei meu quarto de pernas pro ar, vasculhei a cozinha e cheguei a procurar no banheiro. Quando percebi que a “parada” era séria, juntei minhas coisas e fui para a casa da minha avó. Não deu muito certo, lá também não tinha nada parecido com os meus “pupilos”. A saudade foi mais forte, acabei voltando para casa duas semanas mais tarde.

Baixaki: Sem os consoles, o que você fez para ocupar seu tempo?

Jogantino: Voltei a jogar bola com os meus vizinhos, me matriculei na academia e comprei alguns jogos de tabuleiro. Descobri que com esse tipo de atividade é possível se divertir muito!

A adolescente em fúria

Em seguida, foi a vez da adolescente da casa, Patricete Dauloude, dar seu depoimento para a equipe de reportagem do Baixaki. A garota, com 14 anos, passava boa parte do seu dia na frente do computador ou pendurada no seu smartphone. Parafraseando a Sra. Matanete, a jovenzinha “não ficava nas mídias digitais, ela MORAVA nelas”.

Patricete, geralmente, passava 24 horas por dia “disponível” no mensageiro instantâneo, consultava o seu perfil no Orkut (e os de muitas pessoas) pelo menos cinco vezes por dia e sua conta no Twitter já registrara mais de 38.727 mensagens (muitas delas bem desbocadas).

O dia inteiro nas redes sociais.

Baixaki: Qual foi seu sentimento ao ter seu habitual ritual em redes sociais repreendidos?

Patricete: Ai, eu tive um ataque de fúria! Joguei toda a minha maquiagem no chão, fiz uma greve de fome e chorei três dias ininterruptos. O resultado não foi muito legal, não tinha como dar um up no visual para ir ao shopping, quebrei duas unhas e fiquei com olheiras que me deixaram igual a um panda.

Baixaki: Você aprendeu alguma coisa nova sem ter acesso à web?

Patricete: Para ser bem sincera, depois de um tempo me acostumei. Aprendi a escrever cartas, as quais eu enviava para minhas primas no interior. Juntava algumas fotos no envelope, como se fosse meu álbum do Orkut. Descobri, também, que mandar bilhetinhos para minhas amigas durante a aula é mais prático e seguro. Minha letra ficou mais bonita.

Tardes de domingo entediantes

O terceiro a conversar com o Baixaki foi Domingos Dauloude, o pai da família. O homem, de 1,91 metro de altura e 135 kg, apesar do tamanho, é pacato. O Sr. Dauloude é um diretor de marketing de uma empresa local, cargo que exige que ele se mantenha informado com tudo o que circunda os produtos da organização.

Para isso, ele possui um tablet com conexão 3G – o seu aliado de segunda a segunda, conforme nos contou antes de iniciarmos a entrevista.

Que domingo mais chato!

Baixaki: Que saída o Sr. encontrou para acompanhar as notícias, evitando que seu desempenho no trabalho fosse afetado?

Domingos: Minha primeira atitude após concordar com o experimento da minha esposa foi assinar um jornal de repercussão nacional. Dessa forma, pude acompanhar, enquanto tomava meu café da manhã, as manchetes do país e do mundo. Para não perder o foco nos meus clientes e concorrentes locais, tomei uma postura diferente: fiquei mais ligado nas fofocas que rolavam na hora do cafezinho ou nos estabelecimentos que frequentava.

Baixaki: Qual foi a tecnologia que mais fez falta no seu cotidiano?

Domingos: Olha, a questão das fontes de informação foi superada em poucos dias. Não tenho dúvida de que a televisão foi o que mais me fez falta. Vocês não imaginam como sofri com aquelas tardes de domingo, entediantes e intermináveis, sem o meu futebol e algumas cervejinhas geladas.

A palavra final

Enfim, chegou o momento de Matanete Dauloude expor suas observações sobre o experimento terapêutico (nada comum, diga-se de passagem) inventado por ela.

O terror tecnológico.

Baixaki: Você não tinha nenhum gadget companheiro em seu trabalho ou momentos de lazer?

Matanete: Tenho que confessar, eu tinha um “caso” com o meu iPhone. Ele me acompanhava do instante em que acordava e ia lavar o rosto no banheiro até o último suspiro antes de pegar no sono.

Baixaki: Foi difícil abandonar sua dependência do smartphone?

Matanete: Assim como meus filhos e marido, nos primeiros dias senti muita falta da praticidade para encontrar informações ou me comunicar. Depois de um tempo, você acaba encontrando alternativas para suas necessidades e as tecnologias acabam ficando em segundo plano.

Baixaki: Quais foram as mudanças mais perceptíveis na família depois da abstinência tecnológica?

Matanete: Posso afirmar que houve três perspectivas diferentes de benefícios. A primeira foi a aproximação de relacionamento entre os membros da Dauloude. Agora, passamos mais tempo junto e aproveitamos melhor o período que compartilhamos. O segundo viés fica por conta da saúde: todos tiveram alguma mudança de hábito que impactou na resistência física e mental. Eu, por exemplo, comecei a caminhar pelo parque todas as manhãs. Desde então, nunca mais peguei uma gripe e me sinto mais disposta para escrever minhas obras. Meu marido voltou a ler romances e suspenses, o que não fazia há anos.

Baixaki: Hoje, você entende que as tecnologias são dispensáveis em nossas vidas?

Matanete: Ao contrário do que muitos imaginam, minha resposta para esta pergunta é “não”. As tecnologias de informação e comunicação são ferramentas importantíssimas para adquirirmos conhecimento, mantermos contato com pessoas distantes e nos divertirmos. A questão que coloquei à prova não é o fato de usarmos gadgets. O cerne do problema é para que fins e quanto tempo ficamos “pendurados” nos eletrônicos. É de suma importância que saibamos dosar e equilibrar nossas vidas online e offline.

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Como você deve ter percebido, este artigo é mais um da série Erro 404 – quadro semanal que promove textos para satirizar situações corriqueiras. A história retratada foi baseada em um acontecimento verídico, experimento realizado pela escritora Susan Maushart entre 2008 e 2009 (confira reportagem publicada pelo Portal Terra). O evento e o resultado foram publicados no livro The Winter of Our Disconnect.

Vale ressaltar que em momento algum tivemos a intenção de denigrir ou ridicularizar a escritora e sua família. Apenas vimos em sua atitude uma boa oportunidade de reproduzir o impacto que a tecnologia tem na vida das pessoas e fazer com que os usuários do site possam refletir sobre o assunto. Até semana que vem!

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