Em um cenário futurista, um robô acaba em uma nave espacial onde os passageiros são todos bem gordinhos, pois dependem excessivamente das tecnologias que os cercam, como computadores logo à frente de seus rostos. Eles nem andam, movimentando-se por cadeiras flutuantes.

O próprio comandante, também rechonchudo, precisa fazer pouco, apenas monitorar o piloto automático. As refeições são sempre rápidas e compactadas em copos, em um processo totalmente industrializado.

Em outra situação, quatro jovens se veem tão viciados em World of Warcraft que ficam preguiçosos, cabeludos, acima do peso e com muitas espinhas, tudo consequência de uma dieta regada à comida industrializada instantânea e energéticos. Eles se recusam a passar tempo fora do jogo, e as consequências são notáveis.

Essas duas cenas são, respectivamente, da animação “Wall-E” (2008) e de um episódio do desenho animado “South Park” de 2006 (Make Love, Not Warcraft, da 10ª temporada). Ambas fazem referência a um assunto cada vez mais preocupante: a relação entre as tecnologias da modernidade e a obesidade. E é sobre as gordurinhas que andam lado a lado com a tecnologia que o Erro 404 quer discutir com você agora.

Não é só ficção

Não é necessário focarmos na ficção a fim de estipular esta conexão. Uma olhada um pouco mais atenta à rotina de muitas pessoas deixa claro o “peso” do problema.

Fulano acorda, se apressa para chegar ao trabalho, em um prédio com seis elevadores e escadas rolantes. Mas, se perguntarem onde fica a escada, poucos sabem. Eles apenas rezam para que nunca aconteça um incêndio. Ele precisa passar horas na frente do computador prestando atenção em documentos, enviando e recebendo emails.

Chega a hora do almoço, mas não há tempo. É tanto trabalho que só é possível fazer uma boquinha e comer qualquer coisa, o que tiver por perto. Ou então recorrer ao telefone e ativar o delivery. Perfeito, comida que vem até nós, mais obediente que muitos cachorros de estimação. Claro, se a comida precisa chegar rápido, ela precisa ser preparada rapidamente, então joga tudo o que tiver de industrializado nela!

Chegando em casa, ele pode escolher entre iPad, notebook, netbook, desktop, celular, enfim, as opções do mundo virtual só aumentam. Perder 30 minutos, 1 hora para cozinhar? Está fora dos planos. O mundo é rápido, e perder tempo com comida é para os fracos, não parece?

O problema é conhecido

O sobrepeso é preocupação mundial e as tecnologias modernas têm sua participação no problema.

Foi-se a época em que uns quilinhos a mais eram um símbolo de fertilidade. Ok, se você não sabia disso, pode até brincar com seus amigos ou tentar a sorte em uma paquera. Aproveite e vista aquela camiseta com os dizeres “Isto não é gordura, é excesso de gostosura!”. Mas atente também para alguns fatos.

O sobrepeso ainda tem seu charme fértil em algumas regiões do mundo, porém os tempos mudaram. Hoje, no âmbito geral, a obesidade é considerada um dos mais graves problemas de saúde do século XXI, ao ponto de ganhar a atenção da Organização Mundial da Saúde (OMS), porque é comum, custa caro e causa diversas doenças.

De acordo com dados da OMS, em 2005, aproximadamente 1,6 bilhões de pessoas com mais de 15 anos estavam com sobrepeso, e 400 milhões eram obesos. Os números aumentam com a projeção para 2015: 2,3 bilhões acima do peso e 700 milhões de obesos. Conclusão: a turma do World Jump Day (aquela que em 2006 programou um enorme pulo coletivo com o objetivo de mudar a órbita da Terra) poderá tentar novamente daqui uns anos com maior chance de sucesso, que tal?

E o que a OMS aponta como causas principais? Dietas ricas em gorduras e açúcares, porém pobres em vitaminas e minerais, combinadas com a “tendência da redução de atividade física causada pelo sedentarismo de muitas formas de trabalho, novos modelos de transporte e urbanização crescente” (a frase entre aspas é traduzida do site da OMS).

Lembrou-se das situações que descrevemos aqui? Todas elas exemplificam essa situação, apenas de maneiras diferentes. Portanto, a resposta é: sim, tecnologias modernas têm seu peso na epidemia do sobrepeso mundial! É um fato.

Jogos e crianças

No mesmo episódio de "South Park" anteriormente citado, o pai de um dos jovens diz para ele: “Você ficou no computador todo o fim de semana, não deveria sair e socializar com seus amigos?”, ao que o jovem responde: “Eu estou socializando, estou logado em um MMORPG com pessoas do mundo todo, aumentando meus pontos de experiência com minha guilda e usando o TeamSpeak!”.

O vício dos garotos de South Park atingiu níveis preocupantes.Fonte da Imagem: reprodução/YouTube

Essa frase mostra a distorção do conceito de socialização ao qual muitas crianças estão submetidas. Começou com a TV há algumas décadas: uma invenção maravilhosa, capaz de hipnotizar quem está na frente dela. O tempo passa, e diversões que acompanham a TV crescem exponencialmente.

Os pais comemoram os minutos de sossego que têm, afinal, os filhos passam horas a fio, muitas vezes quietos, e a chance de machucados causados pelas ruas, árvores e bicicletas são drasticamente reduzidas!

Os mesmos dados da OMS indicam que pelo menos 20 milhões de crianças com menos de 15 anos estavam acima do peso em 2005. “Antes considerado um problema somente em países de maior renda per capita, sobrepeso e obesidade agora estão dramaticamente crescendo em países de média e pequena renda, especialmente em ambientes urbanos”, relata a OMS.

Quem é da geração recente sempre tem um parente “das antigas” para se lembrar de como era bom correr pelas ruas, subir pelas árvores, sempre se mexendo de algum jeito. Bem, jovens leitores, a turma mais “experiente” tem um ponto a seu favor. Os índices de obesidade mostram que eles comiam melhor e se exercitavam mais, e de maneira natural.

A obesidade cresceu muito nos últimos anos.

Video games

O video game e as tecnologias modernas são considerados vilões dessa história. Crianças (e por que não "crianças maiores"?) tendem a preferir diversões eletrônicas e deixam outras atividades, como leitura, estudos e esportes em segundo plano. Ou até mesmo em plano nenhum.

Crianças passam horas do dia em frente à TV, muito mais que as duas horas no máximo recomendadas. Jogos MMORPG praticamente não têm fim, e gamers mais viciados dedicam-se com todas as suas forças a objetivos próprios, que às vezes exigem horas.

A própria indústria dos video games “se mexeu” para pelo menos tentar remediar a situação. Consoles, jogos e acessórios modernos — Wii, Move e Kinect, como exemplos — exigem mais do físico do jogador. O Wii Sports, inclusive, conta com um programa para redução de peso com base nos exercícios propostos pelo jogo.

Porém, apesar de eficientes em certa medida, não são milagreiros. Aliás, são vistos como jogos, como brincadeiras. A bem da verdade, é assim que devem ser encarados. É válida a mudança de filosofia nos games, certamente, mas chega a ser injusto considerá-las remédio para uma situação tão alarmante.

Esqueça a ditadura da beleza

Sempre quando o assunto é sobrepeso (e a perda dele, principalmente), há a tendência de focar no aspecto da beleza, autoestima. Não é o que pretendemos aqui. Não é toda pessoa que recorre à tecnologia que tem problemas de peso, apesar da ligação entre os dois.

É necessário, principalmente, que prestemos mais atenção à nossa rotina, aos nossos hábitos. Quando sentimos que nossa vida depende muito da tecnologia e que ela nos prejudica em outras áreas, pode ser a hora de reavaliar, seja a pessoa gordinha ou não.

O sobrepeso é um dos problemas que podem aparecer, não o único. Essas áreas envolvem saúde, relacionamentos, dependência de aparatos tecnológicos para executar atividades simples, enfim, o que a pessoa sentir que pode melhorar.

O recomendado por especialistas de saúde é, no mínimo, 30 minutos de atividade física diária. Porém, mais do que isso, eles chamam a atenção também para que passemos mais tempo de maneira ativa, e menos passiva, durante todo o tempo, todo o dia.

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O ócio pode ser criativo muitas vezes, mas a gordurinha que ele pode trazer é objeto de preocupação mundial. E a tecnologia anda de mãos bem dadas com sobrepeso. E você, caro leitor, o que pensa sobre o assunto? Não deixe de comentar, registre sua opinião e participe.

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