A definição de “coxinha” tem ganhado cada vez mais notoriedade na sociedade. O adjetivo pode ser referido a um sujeito que é tachado de “alienado” e vive na eterna zona de conforto, sem querer ser incomodado e reclamando de tudo. Esse mesmo sujeito costuma ter valores conservadores e é o mais “almofadinha” da galera. Ele talvez seja um dos maiores representantes da onda politicamente correta que recai sobre nós em escala mundial.

Esta calorenta sexta-feira, 17 de outubro, marca uma data especial aos publicitários, marqueteiros e afins: é o dia do profissional da propaganda, o cara responsável por embutir mensagens subliminares (ou não) e sacadas em comerciais e veiculações de diversas naturezas. Sacadas, aliás, que são a grande tacada desses profissionais para que exista impacto no consumidor com relação ao produto sendo anunciado. Mas será que essas sacadas não estão limitadas hoje em dia? Justamente pelo fator “coxinha” da coisa, em que tudo está exagerado e politicamente correto?

Washington Olivetto, um dos publicitários mais respeitados do Brasil, afirmou recentemente que a onda politicamente correta “estraga a liberdade criativa”. Basta voltarmos um pouquinho no tempo – ok, um “poucão” – para constatar que os dizeres proferidos por Olivetto são pura verdade.

E isso pode envolver assuntos relacionados à saúde, cotidiano, trabalho, família e, é claro, tecnologia, entre outras coisas. As propagandas de outrora tinham o seu fator hilário, mas hoje em dia seriam pesadíssimas! Qual foi a última vez que você se lembra de ter visto comerciais de cigarros (e alguns eram geniais)? E quando imaginaria que uma marca diria que “é a escolhida por médicos que fumam” (!!!)? Ou mesmo uma imagem que sugira que uma criança esteja fumando? E armas de brinquedo, cadê?

A magia do passado

A sociedade passa por metamorfoses ao longo da História. Antigamente, por exemplo, o acesso à informação era muito mais limitado. Rádios, jornais e revistas davam espaço ao que hoje é visto na TV e na internet – só que há uma diferença nessa equação: a internet não tem limites. Assim como a zoeira.

O profissional da propaganda, no entanto, está acuado agora. A explosão dos comerciais e veiculações publicitárias se deu principalmente após a Terceira Revolução Industrial, em meados da década de 1940, quando a Segunda Guerra Mundial terminou. O período teve a globalização como um dos principais alicerces para o uso de tecnologias e fabricação de produtos com peças vindas de várias partes do mundo.

Consequentemente, houve uma abertura natural de mercado para que produtos das mais diversas naturezas chegassem ao consumidor final. Este, por sua vez, conhecia tais produtos por meio dos anúncios, os quais, ainda que com eventuais restrições, tinham uma liberdade absurda em abordagem.

Hoje jamais haveria, por exemplo, um anúncio em que uma criança utiliza arma para ilustrar um brinquedo da Mattel que promete ser “ótimo” e que ainda diz ao consumidor: “Espere até você ouvi-la!”. Imagine a quantidade de processos que a empresa responsável receberia.

Mensagens subliminares: machismo, abuso dos animais e outras

A missão de um publicitário é imprimir uma boa sacada em propagandas de sua autoria. O profissional dificilmente entrega a informação de mão beijada e sempre trabalha em alguma ideia subliminar por trás de imagens e ilustrações. Com os cigarros, a abordagem sempre foi objetiva.

O machismo, tema eternamente debatido em qualquer discussão que envolva sociedade, já foi bandeira de anúncios. Em outros tempos, colocar a mulher num patamar que a inferiorize de alguma forma era razão de audiência e ibope em anúncios controversos. Se isso acontecesse hoje, os processos aos autores fariam fila.

O mesmo serve para animais, que conquistaram seu devido valor na sociedade. Se uma propaganda transmitir a mínima ideia de maus tratos, a repercussão certamente seria negativa. Antigamente, porém, não: o negócio era levado na esportiva.

E os clássicos cigarrinhos de chocolate ao leite da Pan? Ainda é possível encontrá-los em alguns pontos de venda mais tímidos, mas será que a repercussão, se esse produto fosse lançado hoje, seria a mesma? Na imagem adiante, temos um garoto segurando o chocolate como se fosse um cigarro, entre o dedo do meio e o dedo indicador. Criança fumando, rapaz? Hoje em dia, isso daria um processo gigantesco.

Jogos de tortura e bullying?

Você certamente deve se lembrar de títulos polêmicos como Manhunt e Bully. Isso sem falar em Carmageddon, Postal, Phantasmagoria (que tem até estupros com atores reais) e outros que, ao longo da História, ficaram notórios justamente pelo fator controverso de sua abordagem. Hoje, criatividades desse tipo não têm espaço em função da atual moldagem da sociedade mais “certinha” – ou “coxinha”, como entrega o título desta matéria. Se tais títulos fossem lançados hoje, o profissional responsável pela propaganda teria um verdadeiro abacaxi nas mãos.

Existe um jogo de browser que está mais para um passatempo insano do que para um game propriamente dito. A quem quiser conhecer o obscuro Torture The Game, clique aqui. Basicamente, a ideia é torturar um ser humano usando diversos instrumentos sanguinários, inclusive armas de fogo. Existe propaganda para isso? Não, pois isso é obscuro...

Enfim, exemplos não faltam para mostrar que, no atual mundo mais correto, tido por muitos como “coxinha”, a liberdade criativa se encontra limitada por uma onda politicamente correta e que pavimenta a sociedade a novos caminhos. Quais são suas apostas para o futuro? Eu não fumo, mas, do ponto de vista da propaganda, alguns comerciais do Marlboro eram bem legais...

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Atenção: este artigo faz parte do quadro "Erro 404", publicado semanalmente no Baixaki e TecMundo com o objetivo de trazer um texto divertido aos leitores do site. Algumas das informações publicadas aqui são fictícias, ou seja, não correspondem à realidade.

Ilustrações por: André Tachibana

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