Coisas estranhas estão acontecendo e, a princípio, custei a perceber. De manhã, quando acordei assustado por ter perdido a hora, nem questionei o fato de não ter ouvido o alarme do celular. Pensei ter sido só mais uma falha de software ou algum problema com a bateria, que ultimamente estava me dando trabalho.

Já que não tinha mais como ir para a aula, lavei o rosto, peguei uma xícara de café e sentei em frente à TV para assistir a um pouco de desenho animado. Qual foi minha surpresa quando descobri que estavam exibindo episódios velhos, de quando eu era criança. Mas como tudo que é antigo agora está voltando à moda, não achei de todo estranho.

O problema mesmo foi quando voltei ao quarto, para pegar meu smartphone. Ele havia sumido. Não estava nos lugares em que costumo deixá-lo. Isso explicava por que eu não escutei o alarme. Descartei a hipótese de um ladrão ter entrado em casa e o roubado, pois a casa estava toda em ordem. Ninguém havia revirado gavetas atrás de objetos de valor, por exemplo.

Primeiros indícios

Nos anos 90, celulares não eram nada baratos

Como eu já estava planejando trocar de aparelho, resolvi aproveitar esse meu dia de folga forçada e pesquisar por alguns modelos nas lojas do centro. Antes de sair, porém, achei por bem emprestar o iPod de minha irmã, para curtir um som durante o trajeto. Mas quando perguntei se podia pegar o gadget, ela respondeu com um “Quê!?” tão sincero que chegou a me desconcertar.

Repeti a pergunta, com um sorriso nervoso no rosto e ela disse que não estava entendendo o que eu queria. “Aquele negócio de ouvir música, Rita!”, quase gritei, já sem paciência. Foi então que ela tirou de uma gaveta o aparelho e o colocou em minhas mãos, avisando que talvez eu precisasse comprar pilhas, já que aquelas estavam acabando.

Walkman: o horror, o horror!

Sentindo o peso anormal daquele “iPod”, surpreendi-me ao perceber que segurava um antigo walkman, que não via há muito tempo. “É uma piada?”, questionei. Mas como resposta só obtive um gesto de reprovação dela, com os olhos voltados para cima, como se estivesse me xingando por dentro e desejando que eu sumisse.

Voltei ao meu quarto, na tentativa de encontrar alguma fita cassete mofada perto dos meus... CDs!? Tarde demais. Eles também não estavam lá. Algum engraçadinho trocou minha coleção por vinis e cassetes. Provavelmente o mesmo que pegou meu celular.

Pelo menos o sujeito tinha bom gosto e deixou uma fita do MC Hammer. Pena que, para o meu desgosto, a fita tinha sido reproduzida pela metade. Fui obrigado a usar a velha técnica da caneta para voltá-la ao início.

Internet: de pouco em pouco, nada carrega

Quem sente saudade dos modems de antigamente? (Fonte da imagem: Assistacomp)

Antes de sair, resolvi ligar o computador e procurar, na internet, o endereço de algumas lojas e até a média de preço dos aparelhos. Foi aí que o meu mundo caiu. O computador havia se transformado em outro, com processador Pentium e bem menos RAM do que eu gostaria. A tela de boas vindas do Windows 95 confirmou o que temia: por alguma razão, acordei em outra época ou dimensão ambientada nos anos 90.

Tive que me lembrar, aos poucos, de como era a vida sem ADSL. Procurei pelo discador, cliquei em “Conectar” e ouvi a sinfonia que esperava não escutar mais. Demorou, mas consegui carregar os principais sites com o Netscape. Torci para que minha mãe não chegasse em casa e me pegasse no flagra, acessando a web no horário mais caro.

Mas minha missão durou pouco: os celulares ainda não eram populares no Brasil e não existiam lojas especializadas. Os poucos modelos existentes custavam muito caro e eram impraticáveis para um rapaz na minha idade.

Desesperado, tentei acessar meus sites favoritos, mas nada estava lá! O Baixaki ainda não havia sido lançado. O Tecmundo, nem se fale. Até cogitei registrar esses domínios, na esperança de vendê-los daqui a alguns anos, mas o processo era complicado. Além disso, meu cartão de crédito também havia sumido.

Tudo o que eu tentava visualizar era absurdamente lento. Aqueles GIFs animados demoravam tanto a carregar que eu ainda não entendo por que é que as páginas estavam cheias deles. O Google já existia, mas não era tão bonito e completo como o que eu conhecia. De repente, percebi que tinha perdido minha fonte de comunicação: o MSN!

Criando um email em 1999

Já que não tinha o MSN na minha máquina, tive que me contentar com um email. O Hotmail estava longe de ser o serviço que conheço, mas tudo bem. Segui em frente e preenchi o formulário, na esperança de conseguir me comunicar com algumas pessoas do “futuro”. Nada feito. As mensagens voltavam, já que o destinatário não existia.

De volta ao IRC

mIRC, um dos softwares mais baixados dos anos 90 (Fonte da imagem: LISP)

Baixei o mIRC na tentativa de encontrar alguns colegas no IRC, mas sem sucesso. Os nicks que eu ainda lembrava de cabeça não haviam nem sido registrados. A presença online dos meus amigos era inexistente.

Acessei o canal #Brasil e outros, para tentar encontrar mais pistas. Tentei explicar para os estranhos que eu havia acordado nos dias de “hoje”, mas que sou, na verdade, de 2011. Obviamente, só consegui risadas. Acharam que eu estava trollando ou me fazendo de bobo.

Desconectei antes de encarecer demais a conta telefônica e resolvi arejar a cabeça em um lugar que eu adorava frequentar.

Jogar os clássicos no fliperama